» 2010 » novembroRosana Caiado

Avatar

Ninguém é tão bonito, ou tão legal, ou tão moderno, ou tão inteligente como aparenta em seu avatar.

by rosanacaiado em 29 de novembro de 2010 | 21:37

No dicionário, avatar significa “reencarnação de um deus, e, especialmente, no hinduísmo, reencarnação do deus Vixnu”. Também quer dizer “transformação, transfiguração”. Nos cinemas, Avatar é nome de filme. Na internet, é a foto que acompanha o seu perfil nas redes sociais, e é sobre esse avatar que quero falar.

Me intrigam avatares do Twitter (preferido) e do Facebook (preterido) de mães com filhos no colo e, mesmo menos frequentes, pais com filhos nos ombros, assim como me intrigam avatares de casais dando beijo na boca. Isso porque, apesar de não estar no dicionário, um avatar deveria ser uma abreviatura de quem sou, embora acabe sendo uma amostra do que quero ser – afinal, ninguém é tão bonito, ou tão legal, ou tão moderno, ou tão inteligente como aparenta em seu avatar. + Leia mais

O dia do aniversário

Trinta e três não é idade, mas trava-língua.

by rosanacaiado em 22 de novembro de 2010 | 20:11

Quando criança, o meu maior pesadelo era que ninguém fosse à festa do meu aniversário e eu ficasse sozinha na frente do bolo. Até a chegada do primeiro convidado, eu ficava com dor de barriga de medo de que a festa ficasse vazia e sobrassem muitos brigadeiros. Eu não queria que sobrassem brigadeiros nem que eu fosse apontada no pátio como a menina de quem ninguém gosta e, por isso, fica sozinha nas festas, diante do bolo e dos brigadeiros. + Leia mais

O delicioso prazer de dizer a verdade

A nossa primeira noite acertou minha cabeça como um vaso que cai da janela.

by rosanacaiado em 15 de novembro de 2010 | 17:07

Estávamos deitados de barriga para cima cercados por peças de roupa do lado avesso, quando começamos a contar segredos que só nos atrevemos diante de uma pessoa com quem jamais teremos um relacionamento sério. Mesmo tendo sido boa, nem eu nem Vinícius imaginávamos que aquela transa seria apenas a primeira e, sem preocupações com o dia seguinte, nos entregamos ao delicioso prazer de dizer a verdade sobre quem éramos, o que em pouco tempo se transformou em uma competição adolescente sobre a nossa vida sexual.

Eu disse que tinha feito uma farra com uma amiga de colégio e o barman de uma boate que nos seduziu com cinco mojitos e antebraços tatuados. Vinícius não pareceu se impressionar. Então, contei que já tinha me feito de puta, com peruca loira, vestido colado e perfume barato, e dado pinta na Atlântica até meu ex-namorado passar de carro e me pagar 200 pratas por três horas em um motel de quinta. Vinícius virou-se de bruços, pediu que eu lhe coçasse as costas e disse: + Leia mais

Alminthas

Os olhos da minha avó são os mais fechados que já vi

by rosanacaiado em 8 de novembro de 2010 | 20:16

Em 1911, nasceu Alminthas, cabelos eternamente castanhos e olhos verdes. Pariu Eudóxio, Amélia, Edith, José e Lurdes, que, por sua vez, botaram no mundo Marilene, Marilúcia, Marisa, Manoel, Pedro, Paulo, Fraga Neto, Júlio César, Cinthya Maria, Marco Aurélio, Sílvia Maria, Suzana, Luciana e eu.

CENA 23.678.994.325.999 – SALA DE JANTAR – INT/NOITE
EDITH (MINHA MÃE) E FILO (A ACOMPANHANTE DA MINHA AVÓ), TOMAM CAFÉ.
ALMINTHAS ENTRA, BRAVA.
ALMINTHAS – Como é que você me deixa ir para o hospital sem calcinha, Filó?
ALMINTHAS SAI.
EDITH E FILÓ RIEM.
CORTA PARA:

CENA 23.678.994.326.000 – CORREDOR DO HOSPITAL – INT/DIA
FILÓ E EDITH, ABATIDAS, ENCOSTADAS DA PAREDE.
FILÓ – Ela disse isso e foi embora. Estava brava que só vendo. Mão na cintura e tudo!
EDITH – E depois?
FILÓ – Eu acordei…
EDITH- Essa do sonho é a minha mãe de verdade!
CORTA PARA:

CENA 23.678.994.326.001 – CTI – INT/DIA
APITOS DOS APARELHOS. MÁQUINA DE HEMODIÁLISE. RESPIRADOR. LENÇOIS BRANCOS. ALMINTHAS ENTUBADA, PROFUNDAMENTE SEDADA.
CORTA PARA:

FIM? + Leia mais

Às vezes

Quando chove forte e também quando faz sol, penso em você.

by rosanacaiado em 1 de novembro de 2010 | 14:11

Quando passo em frente ao seu prédio, penso em você. Quando pinto as unhas, penso em você. Quando são 11h11, penso em você. Quando acordo às duas da manhã, penso em você e quando vou dormir, toda noite, penso em você. Quando o telefone ou o interfone toca, penso em você, mas nunca é você. Quando visto a calça que você me deu, penso em você e fico fora de moda. + Leia mais



perfil

Rosana Caiado Ferreira nasceu no Rio de Janeiro em 1977. Formada em Comunicação Social, é escritora e roteirista. Participou do livro "Como se não houvesse amanhã" (Editora Record) com um conto escrito a partir da música “Eduardo e Mônica”. Mantém o blog Complete a frase. Para entrar em contato, escreva um email para rosanacaiado@gmail.com