Tenho a mania de, ao escutar barulhos no hall, dar uma conferida pelo olho mágico. Na maioria das vezes, não vejo ninguém – o morador já entrou em seu apartamento ou desceu de elevador. Mas na última sexta-feira, perto das sete da noite, vi uma movimentação suspeita.
Pelo olho mágico, flagrei dois homens fortes, de cerca de 40 anos, vestindo ambos calça jeans e camiseta de malha. A porta de madeira do elevador estava aberta e, com a ajuda de um pequeno cavalete, ficaria assim pelo tempo necessário. O que me causou maior estranheza foi o fato de a luz, que funciona através de sensor de presença, estar apagada a despeito dos movimentos rápidos que eles faziam.
Por instinto e sem discrição, dei três voltas no papaiz que avisaram aos suspeitos que estavam sendo observados.
Caminhei a passos lentos até a sala, de onde ouvi um barulho diferente de todos os sons do prédio já catalogados por mim até então: parecia que o elevador estava caindo. Antigo e de portas pantográficas, é sabido entre os moradores que suporta no máximo três pessoas. Desavisados, os suspeitos (junto com aparelhos de televisão e DVD, computadores, câmeras e toda a sorte de eletroeletrônicos) certamente ocasionariam a queda.
Fui até o olho mágico e, dessa vez, vi o breu. Nada de homens, cavalete, ou mesmo a sombra do basculante como é de costume. Depois de me aproximar e me afastar do olho mágico repetidas vezes, vi apenas preto e não tive dúvida: os ladrões estavam fugindo e, a par das minhas desconfianças, taparam o olho mágico com fita adesiva. Corri até o parapeito: outros dois indivíduos suspeitos tinham as mãos apoiadas no portão do prédio à espreita.
Era um daqueles momentos em que um resumo dos últimos episódios passa em FF no telão da memória: dois dias antes, um casal de amigos teve sua casa invadida. No dia seguinte, um prédio vizinho foi assaltado. Na noite anterior, o meu namorado teve um sonho premonitório em que o apartamento era roubado.
Passei a mão no telefone e fiz três ligações. A primeira chamou, chamou e ninguém atendeu. Na segunda, a pessoa disse para eu ligar para a portaria. Como aqui não tem porteiro, ela disse que, no meu lugar, apagaria as luzes. A terceira sugeriu que eu me trancasse no banheiro e prendesse a maçaneta com uma cadeira como nos filmes policiais. Sem saber o que fazer, apaguei a luz da cozinha, sentei na privada e liguei 190.
Cinco minutos depois, debruçada na janela, vi o carro da polícia estacionar em cima da calçada do prédio. Dois guardas saíram da viatura com a mão sobre o revólver e se aproximaram do portão onde estava parte da quadrilha. Depois de uma rápida troca de frases, quando pensei que o policial fosse sacar a arma e mirar o peito dos assaltantes, um deles levantou a cabeça e olhou para mim. Abriu os braços como quem diz “o que que há?”. E nesse instante, enfim, o reconheci: era o síndico. Eu tinha achado que o síndico era um assaltante.
Ainda sem desacreditar inteiramente na minha própria história, virei três vezes o papaiz e abri a porta do apartamento a procura da fita adesiva que estaria impedindo a visão através do olho mágico, mas não havia fita nenhuma.
Toca o interfone. O policial esclarece que os homens são da empresa de manutenção do elevador. Peço desculpas e, no improviso, digo que, mesmo quando se tem certeza absoluta, pode ser que se esteja errado. E ele: “ainda bem”.

barros60 fez um comentário:
11 de outubro de 2010 | 20:16 #
Voce agiu certa ,agiria da mesma forma ,afinal nós mulheres sempre temos nossas intuiçoes certas ,dicilmente erramos.
nah-pqp fez um comentário:
11 de outubro de 2010 | 23:23 #
pqp honey
@anaguarany@ fez um comentário:
12 de outubro de 2010 | 1:43 #
Que susto hem, amiga. Estou descobrindo seu Blog hoje, agora e me deparei com essa sua emergência e logo me envolvi. Parabéns pela atitude e pelo texto. Adorei. Bjs
Neneka92 fez um comentário:
13 de outubro de 2010 | 16:40 #
o titulo me deixou muito curiosa, e amei o texto, me prendeu o jeito que voce escreve, parabens :*
Edi-mg fez um comentário:
20 de abril de 2012 | 16:39 #
SEMPRE VC ME PEGA PELO TITULO
AMO SEUS TEXTOS
PARABÉNS