Quando o presidente do Comitê Olímpico Internacional, Jacques Rogge, enfim conseguiu abrir o envelope e mostrou para o mundo o cartão onde estava escrito “Rio de Janeiro”, foi uma gritaria aqui na rua. Os vizinhos se penduraram nas janelas: “Brasil”, “Brasil”, como se fosse gol em dia de Copa. Fogos. Soube que na Lagoa teve buzinaço. Em Copacabana, chuva de papel picado. Meus pais telefonaram, mensagens piscaram no celular. Euforia. Carnaval.
Não fiz campanha, não vesti verde e amarelo, nem prometi plantar bananeira, mas caí no suspense de Copenhague: antes e depois do resultado, andei de um lado para o outro, balancei as pernas cruzadas, soltei e prendi o cabelo seguidas vezes. Irresponsavelmente, matei o trabalho.
Parece que o dia do anúncio do Rio como sede das Olimpíadas de 2016 vai ser como o 11 de setembro: os anos passam e, quando o assunto vem à tona, todo mundo conta o que estava fazendo quando as primeiras imagens do avião atingindo o World Trade Center tomaram conta de todos os canais de tevê do planeta. Eu estava no trabalho – na época, uma agência de publicidade na Praia do Flamengo – e todos, bocas abertas ou mãos na cabeça, cercaram televisão na sala de reuniões. Na última sexta-feira, estava novamente no trabalho, ainda que na ponta do sofá da sala, dividindo o colo entre o laptop e um dos gatos – não posso assegurar se o gatão ou a gatinha.
Como o meu mundo cabe em um abraço, antes das duas da tarde uma pergunta abriu espaço entre os gritos ufanistas da vizinhança e tomou conta dos meus pensamentos. Não tinha a ver com o Rio, nem com as promessas, as verbas ou a alta na Bolsa e era mais ou menos assim: o que vou estar fazendo em 2016?
Para responder a pergunta, a primeira providência foi fazer as contas e descobrir a idade com que estarei na época das Olimpíadas cariocas. Apelei para os dedos: mindinho, seu vizinho, pai-de-todos, fura-bolo, mata-piolho, mindinho, seu vizinho – 37 anos. Mas, além de aniversário, o que mais vou fazer em 2016?
A resposta era uma lacuna em branco. Depois um parágrafo em branco. Talvez uma folha de papel almaço em branco, todinha em branco, exceto pelo meu nome completo no topo da primeira página. Se estivesse em uma prova, pularia para a questão seguinte e deixaria a de 2016 para o final, quando então olharia de rabo de olho para a prova do colega ao lado para tentar tirar uma cola.
No chope com os amigos, joguei a pergunta na mesa. As respostas foram variadas. Houve quem dissesse querer estar casada, quem se contentasse com namorado e quem espera já ter conseguido se divorciar. Quero estar ao lado do amor da minha vida. Quero estar em cima do amor da minha vida. Quero estar por cima no amor. Quero ter um filho. Quero ter mais um filho. Quero ter filhos. Espero estar na mesma empresa. Quero estar ganhando pelo menos o dobro. Quero estar no lugar do meu chefe. Espero que o meu chefe já tenha se aposentado. Quero não ter chefe. Quero estar perto do meu irmão. Espero estar viva. Espero que eu já tenha comprado meu apartamento. Tomara que já tenha ido a Paris. Espero já ter conquistado o mundo.
E eu ali calada.
A dificuldade em saber como estarei ou quero estar em 2016 é parecida com a de planejar o feriado. No meu espelho, só vejo presente e passado. Tenho sempre 26, 28 anos, apesar dos 31 e dos outros que virão. E, ao mesmo tempo em que não me enxergo mais velha, não acredito que vá morrer cedo. Neblina. Vidro embaçado.
Entre desejos, planos e especulações, mesmo depois de olhar a resposta do colega ao lado, a minha continua em branco: em 2016, só sei que vou estar com 37 anos – a falta de certezas me deixa no escuro.

ednapl fez um comentário:
6 de outubro de 2009 | 19:32 #
Ih, dificilmente penso em como posso estar ou como gostaria de estar em qualquer tempo futuro. Mas ficarei feliz se conseguir chegar em 2016 com 18 anos à frente da Rosana…pense numa alegria !!!!! rsrsrsr.