Sento no sofá, cruzo as pernas, seguro a testa com a mão esquerda e fecho os olhos. Sei que ela está ali, na minha frente: olhos verdes bem abertos, ouvindo o que digo e o que ainda não ousei dizer. Estou cega, mas sei que ela olha para mim. Kátia com k junta as sobrancelhas e inclina o pescoço na minha direção. Reclamo. Muito sozinha. Dor. O resto do mundo virado de costas. Dezenas de pessoas, uma ao lado da outra. Aperto os olhos até tudo ficar preto. Sem que Kátia com k possa me interromper, emendo um parágrafo de uma linha que diz mais ou menos assim: “Eu pensava que estar sozinho fosse algo leve, maduro, bacana, mas”:
Sozinho
(sò). [De só + -zinho.]
Adj.
1. Completamente só.
2. Abandonado, largado, desamparado.
3. Que é só um; único, isolado: uma palmeira sozinha na planície.
4. Desacompanhado, solitário, só: É um homem sozinho desde que perdeu a mulher.
5. Diz-se de quem, embora precise de uma companhia, se encontra só: A criança perdeu-se e ficou sozinha na praia.
6. Que não tem nenhuma ajuda ou assistência: Ela é sozinha para fazer todo o trabalho.
Quando dou a primeira vírgula, Kátia com k se ajeita na poltrona e apoia os dois pés no chão – a dica de que ela vai falar algo importante, o meu Mestre dos Magos. Com a franqueza que lhe cabe e que me faz por vezes odiá-la, Kátia com k cospe na minha cara:
- Você é a autora da sua solidão.
E me oferece a caixa de lenços de papel. Sempre ela, com que me abraço pelo resto da sessão.
Volto para a casa e encaro o inchaço no espelho. É incrível como a terapia ocupa muito mais do que uma hora por semana.
Autor
(ô). [Do lat. auctore.]
S. m.
1. A causa principal, a origem de: o autor do Universo.
2. Inventor, descobridor: O autor do sistema de propulsão a jacto.
3. Criador de obra artística, literária ou científica.
4. O responsável por um empreendimento, um projeto, um plano: Ele é o autor da nova iluminação nas praias.
5. O praticante de uma ação; agente.
A solidão não é uma invenção, tampouco uma obra de arte. Mas talvez eu seja a responsável por ela. Aos poucos, me torno invisível sem qualquer contato com pessoas que não têm nas veias o mesmo sangue que eu. Prefiro a casa, preferencialmente o quarto, onde fecho as cortinas e ouço ora o telefone ora a campainha tocar dentro do meu ouvido.
Não quero a solidão, porque a solidão é um pesadelo, abandono, desamparo, criança perdida na praia, palmeira na planície. É em dupla que me entendo melhor com a vida – digitei depressa, juntei “a” com “vida”, o Word acentuou o “a”. Em vez de “a vida”, me deparo com “ávida”. Ávida. Ávida. Ávida. Não sou de desprezar atos falhos, ainda que na escrita:
Ávida
[Do lat. avidu.]
Adj.
1. Que deseja ardentemente.
2. Ansioso, sôfrego: Vê-se que está ávida por partir; “sensibilidade ao mesmo tempo profunda e errante, ávida de desvendar conexões novas entre o mundo do amor e o mundo natural” (Carlos Drummond de Andrade, Passeios na Ilha, p. 212).
3. Voraz, esfomeado, esfaimado, famélico.
4. Sedento, sequioso.
Kátia com k me disse que quando não conseguimos fazer alguma coisa, a vida, ávida, faz por nós.
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