» 2009 » agostoRosana Caiado

Ávida

by rosanacaiado em 31 de agosto de 2009 | 21:00

Sento no sofá, cruzo as pernas, seguro a testa com a mão esquerda e fecho os olhos. Sei que ela está ali, na minha frente: olhos verdes bem abertos, ouvindo o que digo e o que ainda não ousei dizer. Estou cega, mas sei que ela olha para mim. Kátia com k junta as sobrancelhas e inclina o pescoço na minha direção. Reclamo. Muito sozinha. Dor. O resto do mundo virado de costas. Dezenas de pessoas, uma ao lado da outra. Aperto os olhos até tudo ficar preto. Sem que Kátia com k possa me interromper, emendo um parágrafo de uma linha que diz mais ou menos assim: “Eu pensava que estar sozinho fosse algo leve, maduro, bacana, mas”:

Sozinho

(sò). [De só + -zinho.]

Adj.

1. Completamente só.

2. Abandonado, largado, desamparado.

3. Que é só um; único, isolado: uma palmeira sozinha na planície.

4. Desacompanhado, solitário, só: É um homem sozinho desde que perdeu a mulher.

5. Diz-se de quem, embora precise de uma companhia, se encontra só: A criança perdeu-se e ficou sozinha na praia.

6. Que não tem nenhuma ajuda ou assistência: Ela é sozinha para fazer todo o trabalho.

Quando dou a primeira vírgula, Kátia com k se ajeita na poltrona e apoia os dois pés no chão – a dica de que ela vai falar algo importante, o meu Mestre dos Magos. Com a franqueza que lhe cabe e que me faz por vezes odiá-la, Kátia com k cospe na minha cara:

- Você é a autora da sua solidão.

E me oferece a caixa de lenços de papel. Sempre ela, com que me abraço pelo resto da sessão.

Volto para a casa e encaro o inchaço no espelho. É incrível como a terapia ocupa muito mais do que uma hora por semana.

Autor

(ô). [Do lat. auctore.]

S. m.

1. A causa principal, a origem de: o autor do Universo.

2. Inventor, descobridor: O autor do sistema de propulsão a jacto.

3. Criador de obra artística, literária ou científica.

4. O responsável por um empreendimento, um projeto, um plano: Ele é o autor da nova iluminação nas praias.

5. O praticante de uma ação; agente.

A solidão não é uma invenção, tampouco uma obra de arte. Mas talvez eu seja a responsável por ela. Aos poucos, me torno invisível sem qualquer contato com pessoas que não têm nas veias o mesmo sangue que eu. Prefiro a casa, preferencialmente o quarto, onde fecho as cortinas e ouço ora o telefone ora a campainha tocar dentro do meu ouvido.

Não quero a solidão, porque a solidão é um pesadelo, abandono, desamparo, criança perdida na praia, palmeira na planície. É em dupla que me entendo melhor com a vida – digitei depressa, juntei “a” com “vida”, o Word acentuou o “a”. Em vez de “a vida”, me deparo com “ávida”. Ávida. Ávida. Ávida. Não sou de desprezar atos falhos, ainda que na escrita:

Ávida

[Do lat. avidu.]

Adj.

1. Que deseja ardentemente.

2. Ansioso, sôfrego: Vê-se que está ávida por partir; “sensibilidade ao mesmo tempo profunda e errante, ávida de desvendar conexões novas entre o mundo do amor e o mundo natural” (Carlos Drummond de Andrade, Passeios na Ilha, p. 212).

3. Voraz, esfomeado, esfaimado, famélico.

4. Sedento, sequioso.

Kátia com k me disse que quando não conseguimos fazer alguma coisa, a vida, ávida, faz por nós.

Quer saber mais sobre solidão? Leia aqui!

Uma chance

by rosanacaiado em 23 de agosto de 2009 | 21:00

- Aconteceu uma coisa.

- O quê?

- Fiquei com uma menina que é a sua cara!

- Ela não deve beijar tão bem quanto eu.

- Nem tem as pernas que você tem. Mas gostei de ficar com uma sósia sua. Considerei apenas um treino, porque você é você, né? Quando você vai me dar uma chance?

- Já dei uma.

- Deu nada! Tu me deu uns beijinhos, mas chance não houve. Eu quero um romance com você. Quero ir para a sua casa ver o Fantástico, fazer jantar para você. Quero perguntar como foi o seu dia e ouvir você reclamar da vida. Quero levantar para pegar água na cozinha porque você está com preguiça.

- Você podia pegar a minha toalha, que esqueci no varal.

- Claro. Quero ligar para o Delivery e pedir troco para 100.

- Quer comer o meu strogonoff? Quer dividir o restinho da Coca-Cola?

- Quero ver você lixar unha, assistindo à Hebe.

- Quer me ver assoar o nariz? Quer me ver fazer xixi de porta aberta?

- Olha, não faço questão de xixi de porta aberta.

- Você não curte xixi de porta aberta?

- Não muito.

- Tenho problemas com homem que não curte xixi de porta aberta. Na verdade, ele não quer dividir suas intimidades, o que nos torna imediatamente incompatíveis.

- Por mim, tudo bem. Se tu quiser, faço xixi até na sala.

- Na sala, não! No vaso. Tem que levantar a tábua e, principalmente, abaixar a tábua quando acabar. Ou então, quando eu for fazer xixi, às três da manhã, vou cair dentro da privada e ficar enfurecida. Você não sabe o que é isso, porque não faz xixi sentado.

- Todo homem, em algum momento da vida, faz xixi sentado.

- Detesto homem que faz xixi sentado.

- Todo homem faz, porque tem horas que não faz sentido levantar.

- Uma coisa é já ter feito. Outra é fazer sempre.

- Ah, sim. Aí só falta o cara se limpar com papel higiênico.

- O quê? Você não se limpa com papel higiênico?  Realmente, não daria certo.

- Tu sabe que daria, né? Tu ia morrer de amores por mim, eu seria o homem da tua vida.

- Um homem que não se limpa?

- Quando tu arrumar um homem que te ache tão incrível como eu te acho, tu vai parar de ser revoltada. Me dá uma chance! Deixa eu ir para a sua casa? Está quase na hora do Fantástico…

- De jeito nenhum. Não quero mais papo com você.

- Ah, é!? Por quê?

- Por conta do xixi de porta fechada. E porque a sua cueca está suja!

- É tão difícil a gente achar alguém com quem rola uma sintonia como a nossa e tu vai estragar tudo só porque faço xixi na cueca?

- …

- Volta aqui!

- …

- Eu me comporto.

- …

- Acho que você deveria relevar certas coisas, tendo em vista que, se eu soubesse o que fazer para você me dar uma chance, já teria feito.

- …

Quer saber mais sobre chances no amor? Leia aqui!

Vocês são íntimos? Faça o teste e descubra!

A torta de banana

by rosanacaiado em 16 de agosto de 2009 | 21:00

No nosso primeiro Dia dos Namorados, resolvi fazer uma torta, a minha primeira torta. E tinha que ser de banana, que era a da preferência dele.

A poucas horas da marcada, fui ao mercado da esquina comprar os ingredientes que faltavam. Soube onde encontrar ovos e leite, mas não tinha ideia de onde ficava o fermento. E descobri que existem vários tipos de farinha. As bananas não estavam maduras como a receita pedia. Eram as verdes, ou nada. Levei. Depois de uma fila de quinze minutos, saí do mercado satisfeita, me sentindo uma verdadeira doceira, ainda que de primeira torta.

Cheguei em casa e reli a receita enviada por email pela amiga cuja liberdade impressiona, a notar pelo passo a passo:

Ingredientes:
2 xícaras de açúcar
4 colheres de sopa de manteiga
3 xícaras de farinha de trigo
4 colheres de chá de fermento
1 pitada de sal
2 xícaras de leite
canela
bananas bem maduras

Modo de fazer:
Untar e colocar a massa no pirex, colocar sobre a massa bananas cortadas em tiras, canela e açúcar. Forno. Comer com o gatinho na cama, antes do sexo.

***

A noite dos namorados seria na casa dele, para evitar filas na porta de restaurantes e diante de hotéis. Lá chegando, logo após os primeiros beijos e sentindo o rosto queimar de timidez, mostrei a torta como quem abre o peito. Não sei qual foi a reação dele, porque, naquele momento e nos que se seguiram, meus olhos não conseguiam mirar outro lugar além do chão. Comemos um pedaço cada um, ainda quente. E tratamos de seguir a receita até o fim.

A torta de banana foi a primeira prova de amor que lhe dei, embora ele não tenha se dado conta de imediato. Foi também uma prova de que eu não era lá muito experiente na cozinha. E foi uma prova inequívoca dos sentimentos que ele guardava por mim, visto que só conseguimos comer a torta embalados pelo calor daquele nosso primeiro Dia dos Namorados.

Cinderela

by rosanacaiado em 9 de agosto de 2009 | 21:00

Todo mundo, ainda que com algum esforço, se lembra de um dia, há muitos, há poucos, um segundo – breve -, uma onda, uma noite de bebedeira em que pensou: "A vida é boa". E apontou o queixo para cima, piscou seguidas vezes, virou o rosto como quem diz "não", mas queria dizer "sim". Nossa, como a vida era boa, muito boa, boa demais.

‘Se a vida fosse um cachorro, eu olharia nos olhos dela e diria: "Fica"

E naquele instante – no meu caso, em uma avenida engarrafada onde, por falta do que mais fazer, tratei de colocar os pensamentos em ordem -, tentei congelar a minha vida, a minha vida boa.

Se a vida fosse um cachorro, eu olharia nos olhos dela e diria: "Fica", bem claramente, pronunciando as quatro letras, abrindo a boca e fechando.

Foi quando tirei uma foto mental de mim mesma abraçada ao meu, outra dos amigos mais queridos, escaneei a minha casa, decorei os meus gatos, o rosto dos meus pais, minha mesa de trabalho, meu carro, fiz uma xerox do meu exame de sangue, do meu extrato bancário, e desejei que a vida continuasse daquele mesmo jeito, boa, muito boa, boa demais, por pelo menos mais cinquenta anos.

Como a vida não foi adestrada, os segundos passaram, horas, dias, meses atropelaram anos e em poucos, ele foi embora. Ele, o meu príncipe. E, desde então, fiquei descalça.

Você entende os homens? Faça o teste!

Mais matérias sobre relacionamentos e assuntos do coração, leia AQUI

Entre quatro e cinco

by rosanacaiado em 2 de agosto de 2009 | 21:00

Quando chego em casa, por volta das quatro da manhã, estou suja. A casa, vazia. Desço das sandálias. Tiro a calça jeans, a calcinha preta, a blusa, enrolo em trouxa e ponho no cesto. Tiro os colares, os brincos, os anéis e deixo sobre a bancada. O cabelo fede a cigarro. O corpo traz para dentro do apartamento o cheiro da noite e das pessoas que esbarraram seus corpos no meu. Abro as janelas. Está frio.

Descasco um sabonete novo, o maior que encontro na gaveta, branco, viro a torneira da esquerda no sentido anti-horário e deixo a água fervente escorrer sobre minha pele, cabeça, ombros, costas, coxas, joelhos, batatas, tornozelos, dedos do pé. O ralo está entupido.

Esfrego os braços, coxas, pés, rosto. Braços, nuca, peito, orelhas. Braços, mãos, rosto, pés. Braços, axilas, mãos, mãos, rosto. E instantes da noite tomam meus pensamentos a cem por hora. Esfrego a cabeça, passo xampu duas vezes, esfrego a cabeça, com a unha. Cheiro o cabelo. Cigarro. Não adianta. Encho o cabelo de creme e tiro só a terça parte.

Esfrego a toalha no corpo, o cabelo na toalha. Escovo os dentes, a língua, cuspo as últimas horas, cuspo três vezes e bato a escova na torneira. Três vezes.

‘Mamo o Toddynho e desejo que o mundo acenda logo, porque sei que não vou conseguir dormir enquanto os outros estiverem dormindo

No espelho, olheiras de rímel preto. Tiro com algodão e demaquilante, demaquilante e cotonete, passo o cotonete (a outra ponta) no ouvido, fecho os olhos, abro e estão vermelhos. Aproveito para chorar um pouco, mas só um pouco. Não adianta. Quando choro na frente do espelho, me distraio.

Entro no quarto, passo desodorante na axila esquerda e depois na direita. Lavanda no pescoço e arredores. Na gaveta de calcinhas, procuro a maior de todas, G, cor da pele. Por cima, visto um pijama da adolescência, com três flores bordadas e legenda em inglês (flowers), que nunca tive coragem de doar na época do Natal. Calço uma meia, branca, e a estico pelas canelas, brancas, e vou até a cozinha.

Abro a geladeira, olho, fecho. Encosto a cabeça na porta da geladeira. Abro a geladeira, olho, fecho. Esfrego os olhos. Abro a geladeira e pego um Toddynho. Sacudo e enfio o canudo. Balanço.

Deito na cama com o cabelo molhado. Coloco uma toalha de rosto sobre o travesseiro, branca. Fecho os olhos pesados. Viro de lado, sentido horário. Mamo o Toddynho e desejo que o mundo acenda logo, porque sei que não vou conseguir dormir enquanto os outros estiverem dormindo. São quase cinco. Não adianta. Cem por hora. Corpos. Cigarro. Espelho. Brincos. Entupido. Está frio.

Que tipo de solteira você é? Faça o teste!



perfil

Rosana Caiado Ferreira nasceu no Rio de Janeiro em 1977. Formada em Comunicação Social, é escritora e roteirista. Participou do livro "Como se não houvesse amanhã" (Editora Record) com um conto escrito a partir da música “Eduardo e Mônica”. Mantém o blog Complete a frase. Para entrar em contato, escreva um email para rosanacaiado@gmail.com