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O ano da multiplicação

by rosanacaiado em 22 de dezembro de 2008 | 21:00

Estou na mesa do bar. Burburinho. Imito o que todos estão fazendo, ao mesmo tempo, em 29 das 35 mesas do restante do bar: amigo oculto. Está sentada à minha frente essa pessoa que até então é apenas oculta – ainda que, em alguns minutos, vá se tornar amiga. Ela é a dona da conversa, cujo tema são previsões para 2009. Levanto as orelhas:

- Enquanto 2008 foi um "ano um", 2009 será um "ano dois", ou seja, um ano de multiplicação. Significa que tudo o que você investiu em 2008 dará frutos em 2009, sem que você precise fazer esforço.

‘Meu 2009 está arruinado antes de dobrar à esquina. Pago meus três chopes e vou embora logo depois de trocar os presentes – a oculta, como previsto no primeiro parágrafo, se tornou minha amiga oculta

De cabeça, somo tudo o que investi em 2008 (apartamento, mais trabalho, mais família, mais paixão, mais Kátia com k mais alegria) e o resultado é igual a um 2009 não menos que sensacional.

A oculta continua:

- De hoje até o dia 31, você tem que investir nas áreas que ficaram de lado: pode ser na saúde, na profissão, no amor… Você deve fazer todas as coisas que pensou em fazer o ano inteiro mas, por um motivo ou por outro, adiou. Por exemplo, demitir a faxineira.

O resto da mesa protesta em defesa das faxineiras que não têm nada a ver com "ano um", "ano dois" ou "ano meia dúzia", mas não me pronuncio, uma vez que já estou concentrada na lista de todas as coisas que pensei em fazer o ano inteiro, mas, por um motivo ou por outro, adiei.

1. arrumar a estante de livros da sala

2. marcar a mamografia

3. selecionar e imprimir as fotos digitais de 2008, 2007 e 2006

4. pagar multas

5. fazer as pazes com F.

6. andar de mãos dadas em Paquetá

7. ficar loura

8. perder dois quilos

9. dizer "eu te amo" ao meu pai

10.

Não dará tempo, não dará tempo. Meu 2009 está arruinado antes de dobrar à esquina. Pago meus três chopes e vou embora logo depois de trocar os presentes – a oculta, como previsto no primeiro parágrafo, se tornou minha amiga oculta.

Chego em casa faltando cinco para a meia-noite e começo a arrumar a estante. No dia seguinte, às oito, ligo para o médico e, depois do exame, imprimo 268 fotos. No final da semana, começa a maratona de cabeleireiro, banco e barca para Paquetá. No dia 29, almoço com meu pai e não aceito sobremesa. Dou um visto em vermelho ao lado de cada item da lista até que não falte nenhum. Agora, sim: 2009 não será menos que sensacional.

Às vésperas de 2008 terminar, tenho essa sensação de que está faltando alguma coisa. Na dúvida, dou aumento à faxineira.

More than this

by rosanacaiado em 14 de dezembro de 2008 | 21:00

Abro os olhos e o relógio digital pisca sete e sete ao lado de um telefone do tipo gôndola. Forço o foco e me dou conta de que o suposto telefone é um controle remoto, preso à parede por um fio em espiral. Aperto on e dou bom dia ao Brasil.

Estou em um quarto de hotel. Atrás do vidro sujo da janela está uma cidade em branco, preto e nuvem. Me sinto no Japão, embora nunca tenha ido lá, exceto nas vezes em que revi “Lost in Translation”.

Faz frio, o que só aguça a saudade.

É a primeira vez neste hotel e, nos detalhes, começo a aprender o real significado de econômico, que dá pinta no tamanho do sabonete – o valor da diária é sempre o que determina o tamanho e a qualidade do sabonete -, no cobertor estampado de laranja e nas paredes crespas.

Minha vida será econômica enquanto aqui estiver. Economia de cores no céu, de roupas dentro da mala, de calcinhas limpas, de minutos no banho em um boxe onde o chuveiro é igual à ducha higiênica lá de casa – o que implica na economia de lavagem de cabelo. Não há tapete onde pisar quando saio molhada, não há espelho que caiba o corpo inteiro, não há espaço para mim em seu campo de visão, que mira lá longe. Na falta do piso, quase escorrego e continuo me segurando nas paredes, agora crespas.

(A conexão do hotel é uma piada. Paga-se 12 reais por 24 horas de Internet. O problema é contar com a sorte de uma matemática torta: para cada 24 páginas que você tenta abrir, somente 1,2 abrem de fato. É uma economia de pacotes enviados e recebidos que me faz duvidar se um dia conseguirei enviar esta coluna. Em meu íntimo, torço para que não consiga.)

Apesar das reclamações mal-humoradas, não há lugar em que me encaixaria melhor do que neste hotel. Como Charlotte, prefiro ficar dentro do quarto, sobre a cama, sob os cobertores pesados e lamento que a janela não tenha parapeito. Sigo economizando a vida e os capítulos do livro para que ele não acabe. Guardo o último bombom da caixa. Poupo um amor, como se não houvesse a possibilidade de outros, ainda que em duas cores, debaixo da chuva fina. Economizo finais como se na semana seguinte não fosse descobrir um novo, como se não soubéssemos o óbvio. Você sabe que não há nada mais que isso.

40° à noite

by rosanacaiado em 8 de dezembro de 2008 | 21:00

21h. Deitada na cama, estico o braço até a mesa de cabeceira e pego o rolo de papel higiênico. Arranco um pedaço e assôo o nariz. Meus olhos estão inchados e minha boca, rachada. Apesar do barulho dos carros lá fora, poderia jurar que não há mais ninguém no mundo além de mim.

‘Tenho a sensação de que estou submersa e, mesmo sem querer, preciso subir à tona para encher as bochechas de ar. Às vezes, é o inverso: me sinto na superfície e sinto falta das profundezas. Noutras, acho que é só o nariz entupido de gripe

Pego o telefone e ligo para a minha mãe. Mãe, oi, tudo bem? Pode falar? Tudo bem, só que estou com 40° de febre. É. Um aedes me picou, então, pode ser dengue. Minha mãe fica apavorada e chama toda a sagrada família. Eu digo que não deve ser nada, só um resfriado e desligo. Três segundos depois, meu pai – ou seria minha mãe? – telefona e diz assim: você vai entrar em um banho morno, tomar um tylenol, deitar, se cobrir com um cobertor grosso e suar até a febre abaixar. Obedeci a tudo, menos a parte do suar, porque não é um ato voluntário, e acabei dormindo. Quando acordei, torci para que o dia estivesse amanhecendo mas o relógio ainda não tinha chegado no dois.

Meus olhos afundaram no rosto, feito em areia movediça. Preciso de outro tylenol (não tem), uma sopa de mandioca e dois ou três versos de amor. Pego o meu melhor Vinícius e coloco debaixo do travesseiro, como eu fazia com o caderno de matemática em véspera de prova.

Tenho a sensação de que estou submersa e, mesmo sem querer, preciso subir à tona para encher as bochechas de ar. Às vezes, é o inverso: me sinto na superfície e sinto falta das profundezas. Noutras, acho que é só o nariz entupido de gripe.

Quando eu era pequena, faltando dez minutos para a hora do almoço, deitava no sofá e fingia dormir. Minha mãe ficava com pena de me "acordar" e eu estava dispensada do almoço. Eu acaba dormindo de verdade, porque fingia tão bem que até o meu sono acreditava. Às duas da manhã, finjo que estou dormindo, mas não adianta.

No dia seguinte, para minha surpresa, estou bem melhor. Era só um resfriado.

Meu peito está inchado, minha boca, rachada e quero te dar um par de óculos.

Vou almoçar na minha mãe, porque preciso de arroz, feijão, batata, carne, salada e aqui em casa o almoço nunca tem mais de dois itens. Chegando lá, meu pai me dá uma sacola com algodão, gaze, comprimidos para dor de cabeça, dor de estômago, dor de garganta, febre e acho a maior poesia, mais bonita que as do Vinícius que entraram no meu sonho à noite. Tenho vontade de chorar, mas engulo.

Inventei uma nova língua que ainda não tem tradução para o português, de modo que ninguém entende o que digo, o que penso, o que choro e o que desejo. Durante esse tempo todo, o mundo continuou girando e agora tenho que me segurar nas paredes para não cair. Meu medo é que ele nunca mais pare de rodar.



perfil

Rosana Caiado Ferreira nasceu no Rio de Janeiro em 1977. Formada em Comunicação Social, é escritora e roteirista. Participou do livro "Como se não houvesse amanhã" (Editora Record) com um conto escrito a partir da música “Eduardo e Mônica”. Mantém o blog Complete a frase. Para entrar em contato, escreva um email para rosanacaiado@gmail.com