» 2008 » fevereiroRosana Caiado

Aluga-se

by rosanacaiado em 24 de fevereiro de 2008 | 21:00

Depois do terceiro, quinto, décimo-quarto apartamento, os corretores não me dão pelota e já descobri o motivo: são meros assalariados e ganham comissão apenas nas vendas. Ou seja, ignoram minhas economias na tentativa até aqui em vão de alugar um teto razoável, onde possa fixar morada, dormir pelada, ver final de novela, ter meia dúzia de boas idéias por semana e bater um prato de bife com salada de tomate.

Passo o dedo no jornal sujo e leio 2 quartos, 3, suíte, vista livre, silencioso, vaga, armários, pintura nova, sintecado, ótimo estado, mobiliado com bom gosto, condomínio barato, sem elevador, lindo, todo reformado, prédio mais charmoso do bairro, é só entrar. Meu Deus, qual será o prédio mais charmoso do bairro? Balela.

‘O que mais tem influenciado o meu torcer ou não torcer de nariz porta adentro do imóvel, quando estou eu paralisada diante de tanta falta de capricho e até perna de barata, como ia dizendo, o que mais influencia o meu parecer é coisa simples, para não dizer boba: o nome do prédio

Depois de algumas semanas de procura, ou duas dúzias de apartamentos revistados, o que mais chama a atenção diante de um novo pretendente não é o piso, a bancada do banheiro ou a vista para o apartamento em frente, colado, entrando pela sala de visita sem pedir licença. O que mais tem influenciado o meu torcer ou não torcer de nariz porta adentro do imóvel, quando estou eu paralisada diante de tanta falta de capricho e até perna de barata, como ia dizendo, o que mais influencia o meu parecer é coisa simples, para não dizer boba: o nome do prédio, o nome do prédio me influencia. É Rosane, Rosane, quase Rosana, quase. Me chamaram a vida inteira de Rosane e eu tive que corrigir um a um, enfezada, meu nome é Rosana, com "a". E a vida toda ouvi a réplica: ah, sim, senhora, Dona Rosane. E enfim encontro esse apartamento, no prédio Rosane, Rosane, há de ser esse, deve ser um sinal – ou por que outro motivo prédios teriam nome?

Por favor, não me chame de maluca, não, não sou infantil, muito menos desequilibrada, não estou forçando a barra, não me lê assim. Mas agora que comecei vou até o fim e adianto que além do nome Rosane, outros nomes queridos também são capazes de colocar um apartamento como meu número 1 antes mesmo de abrir a porta de entrada. Basta pegar a chaves na vizinha, e a vizinha, olha lá quem é, Dona Edith, mesmo nome, exatamente o mesmo, agora sim, da minha mãe, com agá e tudo no final. Comento a coincidência com Dona Edith, não a minha mãe mas a vizinha, a vizinha que dá um riso amarelo, reluta em me entregar a chave, franze a testa, olha do meu tênis colorido até a minha franjinha nova e deve me achar maluca, infantil ou até uma desequilibrada.

São tantos motivos aleatórios que determinam uma escolha – o adesivo colado na janela, o hálito do corretor, o vizinho no corredor -, que até me consolo pelas vezes que não fui eu a escolhida – paquera na boate, entrevista de emprego, time de queimado na hora do recreio. Diante de tantos quartos, salas, cozinhas e lavabos preteridos por mim, paredes brancas e cubas sujas ficam para trás e nem digo adeus. Imagino quantos fantasmas fazem por lá residência, sacodem a poeira da sala, de certo mancomunados com os corretores que lhes dão guarida. O resultado é um leve tremor de mãos antes de abrir a porta do armário embutido, tamanho o medo de encontrar um corpo em avançado estágio de decomposição em alguns apartamentos que tive o desprazer de conhecer.

Fato é que ainda não achei o tal e talvez ele não esteja perdido. Continuo procurando até encontrar, nonstop. Chega essa hora, o relógio chega perto da meia-noite, e penso nos apartamentos sozinhos, sem luz, TV desligada. E eu aqui. Podia estar com um deles, cotovelos no parapeito da janela indiscreta, poeira grudada nos meus pés descalços. Amanhã, até amanhã parece uma eternidade (incrível como o tempo passa a cada hora num compasso), amanhã tem mais visita: três candidatos marcados. Com sorte, um deles é o bilhete premiado e serei feliz para sempre.

Palavras ao vento

by rosanacaiado em 17 de fevereiro de 2008 | 21:00

Queria escrever uma carta de amor para você. Beijos de amor em você. Olhares de amor entre mim e você. Amor com você.

Queria escrever uma carta, embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos.

Queria escrever uma carta de amor para você, uma carta perfumada, no papel de seda, com letra de professora. Mas não há palavras de amor no meu vocabulário e falta açúcar no meu afeto.

Caríssimo,

hoje saí por aí, como você gosta. Passava das sete da noite quando as primeiras janelas começaram a acender.

Hoje saí por aí para pensar – como você faz logo que levanta do divã.

Hoje saí por aí, como você, sentindo o balanço dos peitos contra o vento das primeiras horas da noite. Um arrepio.

Queria que você os visse.

Hoje saí por aí com os cabelos em nó. Você não viu, mas agora estão tão crescidos que aceitam coque.

Hoje saí por aí com os cabelos em nó, peitos ao vento, passava das sete da noite. Mosquitos me mordem, a começar pelos tornozelos – preferia que fosse você, em um transbordamento de carícias.

Ando em curva ainda que prefira as retas, sinto o balanço do corpo, o suor pelas bochechas – seriam lágrimas? – e vou até o fim.

Hoje saí por aí procurando você nos rostos ensebados que cruzam a pista.

A cidade, sem você, fica diferente – falta o Pão de Açúcar.

Você é o pedaço mais bonito do Rio.

Você tem cheiro de mar.

O cheiro de você vai comigo.

A cidade, sem você, não oferece surpresas.

Sem você, nem sei.

Você não ouve, mas temos conversado noite e dia. Num ímpeto, te abraço. Quando abro os olhos, são só os meus joelhos.

Hoje saí por aí como você, atrasada, quase às oito, sem olhar no espelho.

Hoje saí por aí com você dentro do peito arrepiado.

Saí por aí depois de olhar em um espelho de 15 centímetros de perímetro e moldura de peixe. Ando em câmera lenta, sentindo a noite cair sobre meus ombros curvados e uma gota de suor – ou lágrima – escorre pelos meus tornozelos. Vou até o fim, até o fim do arco-íris, onde espero encontrar você, meu pote de ouro.

É assim, aos poucos, sob as mãos cálidas da noite, que covardemente me despeço.

R.

P.S.: Você é tanto, você é tantos, você é meu passado, minha aposta, você é minha amiga, minha cidade, você é minha casa, você c'est moi.

Às duas da manhã

by rosanacaiado em 10 de fevereiro de 2008 | 21:00

Passa das nove quando me estico no sofá e ligo a tevê, sem saber que a novela da vida real é que vai tomar a minha atenção. Os vizinhos da direita, o casal Fofinho, elevam o tom de voz do lado de lá da parede:

- Quem faz isso uma vez, faz duas, faz três! – ela grita, a plenos pulmões.

Ele fala baixo, pede calma. O efeito é inverso.

- Tenho nojo de você! Nojo!

Resumo da semana: aos dois anos de matrimônio, Fofinha desconfia de que foi traída por Fofinho. Fofinha tira satisfações e Fofinho se diz inocente. Fofinha não acredita e grita, a plenos pulmões, que sente nojo de Fofinho.

E meu coração aos saltos.

Na inexistência de testemunhas, a traição só é certeza caso confessada. Fofinho, culpado ou não, faz o que tem que fazer: nega – talvez com pouco vigor. Cairia bem uma dose de indignação diante de tamanha calúnia, mas ele limita-se a pedir calma.

Ela anda do quarto para a cozinha, da cozinha para a sala, a passos pesados. Minha tevê já está muda. Viro personagem dessa novela, a fofoqueira, e encosto a orelha na parede. Fofinha vira duas vezes a chave na porta da frente e vai para o hall dos elevadores, de onde tenho imagens em tempo real, através do olho mágico: ele, de cabeça baixa, agarra a mala recém-feita e ela, mãos na cintura, manda soltar. Ele jura, pede pelo amor de Deus. Chega o elevador. Ela se despede:

- Morra!

Nunca ouvi declaração de amor maior. Ela quer passar o resto dos seus dias com a cabeça no peito peludo dele. Quer cantar no videokê com ele. Quer usar o vestido que ele gosta. O resto é cena.

Fofinho certifica-se de que o elevador desceu e fecha a porta. Começam os comerciais. Escorrego pela parede, ouvindo “All by myself”. Quero ir atrás da Fofinha, quero pedir que ela volte, quero avisar que vai doer, que ela vai chorar, vai sofrer. Quero dizer para ela que a solidão se ajeita na cama às duas da manhã. Você não vê, mas ela, a solidão, não arreda pé. Quero dizer que ela vai ter que fingir que está tudo bem, mas que as fotos mostrarão seus olhos tristes. Quero descer correndo pelas escadas e dizer que ela vai ter insônia, e que, quando uma de suas pálpebras começar a pulsar desritmadamente, é nervoso. Que o amor não acaba de uma noite para outra,e que ela prometeu que era pra sempre. Nenhum casamento termina com um bater de portas – só na televisão.

Duas da manhã, ouço o som das rodinhas deslizando no hall dos elevadores e corro até o olho mágico, de onde tenho imagens em tempo real. Ele carrega as malas dela para dentro de casa, mãos em suas costas, narizes vermelhos. Do lado de lá da parede, se abraçaram com a força de uma multidão sob o silêncio da intimidade.



perfil

Rosana Caiado Ferreira nasceu no Rio de Janeiro em 1977. Formada em Comunicação Social, é escritora e roteirista. Participou do livro "Como se não houvesse amanhã" (Editora Record) com um conto escrito a partir da música “Eduardo e Mônica”. Mantém o blog Complete a frase. Para entrar em contato, escreva um email para rosanacaiado@gmail.com