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O carnaval é a maior caricatura

by rosanacaiado em 27 de janeiro de 2008 | 21:00

Ela vem toda de branco, coroa e paetês. Fantasiada de Princesa, é confundida com Noiva – veja bem, toda noiva tem seu dia de princesa, mas nem toda princesa chega à noiva. Um rapazinho se aproxima e lhe pede a mão em casamento, dizendo-se apaixonado, ajoelhado, concentrado, aflito.

Mais à frente, torcendo pelo "não", o amigo bate a palma na testa e reclama:

- Ah, seu prego, você não vai querer namorar agora, né?

O carnaval nem começou mas já se espalha pelas ruas da cidade.

‘Alzira, a Enfermeira, estará de plantão nesse carnaval. Veste macaquinho branco. Usa o estetoscópio como colar. Quando passa, os foliões desfalecem: – Estou passando mal!

A Odalisca é batizada de Jade. Quando julga um pretendente possível, toma-lhe a mão e lê seu futuro:

- Está escrito que você conhecerá a mulher da sua vida no terceiro dia de uma manifestação popular profana, em que a grande massa pulará ao som do batuque de bumbos, chocalhos e tamborins.

- Ãh?

Pan, a Pantera cor-de-rosa, dá entrevista para o jornal. Diz que comprou suas orelhas na Senhor do Passos; a barriga, no Palácio das Pelúcias; o vestido é do acervo pessoal e o tênis, All Star. Faz sucesso: os rapazes, com o devido respeito, gostam de balançar o rabo comprido de Pan. Tomam cuidado, que é pra não estragar a fantasia.

O carnaval nem começou e as asas de anjo e os chifres do diabo desfilam pelas ruas da cidade. Há cinco anos, quando ninguém ousava usar nem um colar de havaiana, quem se metia a Chapeuzinho, Fada ou Colegial tinha que fazer carão. Hoje, passa vergonha quem não exibe sequer um adereço de última hora.

Alzira, a Enfermeira, estará de plantão nesse carnaval. Veste macaquinho branco. Usa o estetoscópio como colar. Quando passa, os foliões desfalecem:

- Estou passando mal!

Alzira coloca o termômetro de plástico debaixo do braço de cada paciente – paciente que só ela. Segundo a Enfermeira, estão todos febris. O jeito é dar uma injeção – no braço ou no bumbum.

Gislaine, a Doméstica, não gosta de ser chamada de Marinete. Recebe ofertas de emprego fixo, salário alto e carteira assinada. Gislaine diz que lava, passa e ainda prega botão. É cozinheira de forno e fogão. Folga só no fim de semana e acha os patrões, esses sim, um bando de folgados.

Os óculos escuros chamam atenção: o dia está nublado, mas noventa por cento dos gatinhos e gatinhas (sem orelha de pelúcia) só se deixam ver da metade da bochecha para baixo. Me pergunto se querem se esconder, se pretendem se alinhar às tendências da moda ou se querem paquerar sem dar na pinta. Ou, o mais provável, são todos estrábicos.

E o carnaval nem começou.

Seu cabelo está lindo!!!

by rosanacaiado em 20 de janeiro de 2008 | 21:00

Conhecer pessoas e fazer amigos nunca foi o meu forte.

Em um rápido retrospecto dos últimos trinta anos, reconheço em minha postura certa antipatia – satisfeita com as amizades antigas, não estou muito aberta a fazer novas. Bate uma preguiça: conhecer, ganhar intimidade, entender, conciliar… – não, obrigada. Resultado: feitas as apresentações, digo "prazer" no default, sem sequer fixar o olhar e esforço nenhum para decorar nomes.

‘Enquanto esfrego o gelo na saia, trocamos nossas primeiras falas: "pra tirar mancha de caneta, é bom passar álcool", "pra tirar aquela ferrugem, sabe? Que sai da torneira? Passa leite!"

Há, contudo, alguns gatilhos que, disparados, tomam minha atenção de imediato e despertam nesse coração gelado o desejo de tomar mais uma saideira, bater perna no shopping center e falar mal de quem não está presente, enfim, essas coisas que os amigos fazem.

Por exemplo, ontem: lá pelas tantas, ao tentar levantar da cadeira do bar, descobri que meu vestido e, por conseguinte, eu estávamos grudados no acento por um chiclete. Antes que eu pudesse reclamar da minha má sorte e da péssima educação de outrem, a pessoa ao meu lado – para quem eu tinha dito apenas "prazer", sem ao menos fixar o olhar e tentar decorar o nome – virou-se para mim e disse "passa gelo, que descola rapidinho".

Plim! Quero fazer amizade com ela.

Enquanto esfrego o gelo na saia, trocamos nossas primeiras falas: "pra tirar mancha de caneta, é bom passar álcool", "pra tirar aquela ferrugem, sabe? Que sai da torneira? Passa leite!"

Conversamos o resto da noite. Obviamente trata-se de uma pessoa simpática, prestativa, para quem eu posso telefonar, chorando, às duas da manhã.

Há outras situações menos engenhosas que despertam meu interesse para a amizade, sem ser preciso que mais um espírito de porco cole chiclete mastigado no banco. No topo da lista está o uso de elogios às minhas madeixas, seguidos por três exclamações – "seu cabelo está lindo!!!". Pronto: aquela amiga da amiga, nobre desconhecida, torna-se instantaneamente alguém com quem quero estreitar laços.

Outras frases contendo a palavra "cabelo" podem surtir efeito semelhante. "Como seu cabelo cresceu!!!", ou "Onde você corta o seu cabelo?" e ainda "Ah, quem me dera ter o cabelo igual ao seu!!!"

"Moro na tijuca" é tiro e queda – garantia de, no mínimo, meia hora de assunto ininterrupto. Pergunto em que rua, onde estudou, onde fez curso de inglês, "já comeu o bolo de chocolate do xodó de minas?"

Nos últimos dois dias, fui surpreendida duas vezes pelo seguinte gatilho. "Sempre leio a sua coluna no Bolsa de Mulher". Oi, rapazes! Que bom que vocês vieram. Sim, há leitores do sexo masculino do lado de lá da tela cor-de-rosa do Bolsa. Pelo menos, dois, dois homens que não se conhecem e nada têm a ver um com o outro. No final da frase, se tornaram meus melhores amigos em potencial.

Resta saber se essas pessoas prestativas, simpáticas, gentis, tijucanas e que, ainda por cima, lêem as minhas colunas, se esses seres especiais aos quais ofereço minha amizade eterna vão lá querer ser meus amigos. Sei não…

Cátia ou Kátia?

by rosanacaiado em 13 de janeiro de 2008 | 21:00

Toda quinta-feira, às 18h, ela me espera no alto da escada e me recebe com um abraço. Entramos em uma sala onde o ar condicionado está sempre no máximo e me sento de frente para ela, que cruza as pernas dentro de um vestido florido, sobre uma poltrona aparentemente mais confortável do que o sofá destinado, pela próxima hora, a mim.

E começo a contar minhas angústias, que não são poucas. E falo rápido, e emendo assuntos e perco os fios das meadas. Olho ora para o chão, ora para a parede, às vezes para os seus grandes olhos verdes. E se uma lágrima ameaça escapar, ela me oferece a caixa de lenços de papel. Ao ver a caixa, engulo o choro de imediato e disparo todo um dicionário até que ela descole as costas da poltrona em um claro sinal de que vai levantar, porque o meu tempo acabou. Sempre quero ficar mais, mas tenho que ir.

O processo terapêutico tem vários estágios. Um deles, o mais óbvio, acontece na análise freudiana quando o paciente é convidado a deitar no divã. Como a sala da minha terapeuta nem divã tem, acabei identificando os meus próprios estágios:

Estágio 1 – Paixão: só penso na terapia o tempo inteiro, quase como se apaixonada estivesse. Terapia, terapia, terapia. Enumero os temas que quero abordar. Em que ordem. De que forma. Treino. Fico ansiosa até a hora da sessão.

Estágio 2 – Curiosidade: a terapeuta já sabe um bocado sobre mim – muito além do que contei. E eu não sei nada sobre ela. Eu, eu não faço questão de saber quais são as angústias dela, seus traumas de infância nem seus segredos mais íntimos. Me contentaria em saber o mais simples – onde mora, quantos anos tem, se é casada ou solteira. E, claro, adoraria saber se ela é Cátia com “c” ou Kátia com “k”.

Estágio 3 – Amigos, amigos, terapia à parte: dou preferência a conversas com amigos que também fazem análise com a intenção de trocar experiências e impressões sobre o tratamento. Tal estágio me gerou profundo desconforto.

- Você já começou a falar sobre a sua família? -pergunta a amiga que faz análise há mais tempo que eu.

- Não – respondo desconfiada.

- Ah, então sua terapia ainda não começou.

(A amizade estremeceu)

Estágio 4 ou Estágio da catequese: você faz terapia? Ah, devia fazer… É muito, muito bom. Estou amando!!! Todo mundo tem que fazer!

Estágio 5 – Amor e ódio: Cátia (ou Kátia) me confronta. É como se ela colocasse o dedo no meu nariz. Não gosto. Quero faltar a sessão seguinte, quero abandonar a terapia que não adianta coisa nenhuma.

Na hora marcada, estou lá. Olho para ela, no topo da escada, as flores do vestido destacam a cor dos seus olhos. Noto que aparou os cachos e fico em dúvida se devo comentar ou não. Conto toda a minha vida sem prestar atenção em minhas próprias cenas. As tramas são monótonas e Cátia (ou Kátia) boceja. Quero saber se ela dormiu mal à noite, se sofre de insônia, se chegou tarde, se tem o costume de dormir depois do almoço. Ou – o mais provável depois do segundo bocejo – se ela acha, ou já se deu conta, que sou uma tremenda chata.

Acaba a hora, ela descola as costas da poltrona, diz que chegaram seus cartões novos e me estende um deles, cheirando a novo, onde está escrito Kátia, com “k”.

Eu, fotógrafa

by rosanacaiado em 6 de janeiro de 2008 | 21:00

É boa estratégia, em uma festa onde nunca se viu mais gordos, ocupar o posto de fotógrafo extra-oficial do evento. O anfitrião vai te amar instantânea e eternamente. Melhor: em fração de cliques, você se torna o convidado mais popular da festa.

Sou especialista.

Falo um, dois, três e já, olha o passarinho, peço mais uma pose para todo mundo sair cheiroso, sugiro abraços mais apertados, aviso se piscou, juro para cada um que aquela foi, sem dúvida, a foto mais bonita da noite. Mostro o resultado no visor da câmera digital – em miniatura, como filhotes e bebês, parecemos, sempre, muito mais bonitos.

‘Um casal à beira do sim é bonito de se ver. O amor é quase palpável. Por instantes, acredito nele, mesmo que com os olhos vendados diante de uma ribanceira. Uma aposta, uma promessa, uma aliança, uma jóia.

Adoro.

Ontem, no casamento, o número da fotógrafa foi especial. Mirei famílias – musas das minhas fotografias preferidas, em que se notam as semelhanças entre narizes e sorrisos, cores e trejeitos diante da câmera. Fotos de avós de nove meses, grávidas apaixonadas e casais corujas. Fotos de abraços, beijinhos, dedos entrelaçados e até cochichos.

Por duas vezes, a menina solitária que tocava piano na mesa ganhou status de parte da família. Primeiro, fui confundida com a irmã do noivo. Depois, perguntaram se eu era irmã da noiva. Quanta honra. A irmandade é sempre bem-vinda. Quisera eu a companhia de muitos irmãos – ainda que a minha única valha por uma mesa cheia.

Um casal à beira do sim é bonito de se ver. O amor é quase palpável. Por instantes, acredito nele, mesmo que com os olhos vendados diante de uma ribanceira. Uma aposta, uma promessa, uma aliança, uma jóia. A vida fica muito melhor quando é a dois – olhando vocês ontem, através do visor, fiz votos e apostei alto como a felicidade será infinita. Trata-se de um casal inspirador, não dá pra imaginar um sem o outro – Chico e Ana.

Os melhores momentos não foram fotografados, mas estão eternizados na minha memória.



perfil

Rosana Caiado Ferreira nasceu no Rio de Janeiro em 1977. Formada em Comunicação Social, é escritora e roteirista. Participou do livro "Como se não houvesse amanhã" (Editora Record) com um conto escrito a partir da música “Eduardo e Mônica”. Mantém o blog Complete a frase. Para entrar em contato, escreva um email para rosanacaiado@gmail.com