» 2007 » agostoRosana Caiado

A festa do tudo bem

by rosanacaiado em 26 de agosto de 2007 | 21:00

Na semana passada, estive em mais uma "Festa do Tudo Bem". Bebida liberada, música boa e gente bonita, sem hora pra acabar. Formidável, não fosse um detalhe: na "Festa do Tudo Bem", só tem "Tudo bem" – nada de conversa fiada, mexerico, papo cabeça, desabafo ou lamúria. É só "Tudo bem?" aqui, "Tudo bem!" ali e olhe lá, só muda a pontuação. No décimo "Tudo bem…" da noite, me dei conta de que, pra mim, aquilo não estava nada, nada bem.

Segundo pesquisa realizada durante a festa, a reação mais provável ao "Tudo bem?" é o "arremedo". Funciona mais ou menos assim:

- Tudo bem?

- Tudo bem? – de bate-pronto, como quem leva uma leve martelada no joelho, em ato reflexo.

‘Os primeiros "Tudo bens?" da noite são os piores. Isso porque ainda não houve tempo hábil para a devida adaptação ao ambiente, reconhecimento de rostos catalogados e treino de breves diálogos

Após o arremedo, há o encerramento da conversação: corta-se o contato visual, olha-se para o chão e recua-se dois passos, em uma espécie de fuga.

Além do arremedo, na "Festa do Tudo Bem", é comum o uso da chamada "resposta curta de repetição":

- Tudo bem?

- Tudo, tudo…

A pesquisa revela, ainda, a "resposta média com progressão":

- Tudo bem?

- Tudo bem, tudo ótimo, maravilha! – nesse caso, balança-se a cabeça para trás e para frente, estica-se um sorriso sem mostrar os dentes, para então repetir o procedimento padrão de perda de contato visual e dois passos para trás em retirada.

Os primeiros "Tudo bens?" da noite são os piores. Isso porque ainda não houve tempo hábil para a devida adaptação ao ambiente, reconhecimento de rostos catalogados e treino de breves diálogos. À medida que o ponteiro avança, a cerveja evapora e a música aumenta os RPMs, crescem as chances de se conseguir trocar outra frase além do "Tudo bem" com pessoas com quem juro que gostaria de ganhar intimidade e estreitar laços, aumentando o meu ciclo de amigos e minha felicidade de modo geral.

- Tudo bem?

- Tudo, tudo bem. Daqu a pou vou embor porq tenh jazz aman ced e tô adoran a coreografi nov e quas conseguin encost o peit no chão e to com son danad porq meu mari viaj ont e fui com amig pra botec qu tinha doubl drink, sa como? Menin, perd a cont mas foi bom, ador beb, não enten gent qu não bebe, gent sem graça. Ah, você nã bebe?

Emendo frases sem sentido, entrecortadas pelo refrão da música alta. Enfileiro palavras sem últimas sílabas, nesse meu jeito estabanado de falar rápido para poder falar mais e ocupar menos o tempo de um possível ouvinte no resumo da minha pouco interessante última semana. Gafes são freqüentes.

O interlocutor (o sem graça, que não bebe) recorre ao famoso:

- Vamos combinar alguma coisa!

Não entendo: a gente já não está em alguma coisa? O encontro, os amigos, a cerveja, o "Tudo bem?", isso tem que ser alguma coisa. Uma coisa coisada espontaneamente, calculada por um amigo em comum – o destino -, que projetou horas, talvez semanas, até que a gente se encontrasse ali, naquela situação, naquela coisa. E não em outra a combinar. Confusa, respondo o default:

-Tudo bem… – olho para os sapatos e ando de caranguejo, com a terrível sensação do "você não está com sorte, volte para o início do tabuleiro".

É quando esse velho desconhecido vem em minha direção. Pega duas tulipas na bandeja, me dá a primeira e, no brinde, pergunta como estou e o que tenho feito, de uma cajadada só. Tomo um gole, respiro fundo e falo para ele, sem comer palavras, as duas páginas que formam esta crônica. A cada abertura de parágrafo, ele ri. Faz sugestões. Jura que entende, que sabe como é. Diz que também implica com gente que nunca tomou um porre na vida. E então conversamos sobre porres, sobre motivos para tomá-los, sobre comemorar e sobre esquecer. Aí falamos intimidades e até sobre combinar alguma coisa. A "Festa do Tudo Bem" foi ótima, maravilhosa e saio em retirada.

Precisa-se de um objetivo

by rosanacaiado em 19 de agosto de 2007 | 21:00

- Queria fazer uma coisa diferente. Uma coisa que eu nunca tivesse feito antes.

- O quê?

- Ainda não sei. Tem que ser uma coisa muito legal.

- Pular de bungee jump?

- Nem morta!

- Voar de asa delta?

- De jeito nenhum!

- Tatuar uma rosa na nuca?

- Também não tenho coragem.

- Tatua "coragem", em latim, na nuca!

- Tatua você!

- Sair sem calcinha?

- Quem disse que nunca saí sem calcinha?

- Cozinhar um risoto de queijo brie?

- Não tem brie na geladeira.

- Pinta o cabelo de vermelho!

- Já pintei.

- De loiro?

- Também.

- Pinta de roxo, então!

- Nunca quis pintar de roxo, mas uma vez ficou.

- Vai ao cinema sozinha.

- Pensei nisso, mas só tem filme ruim.

- Cheirar cocaína?

- Pirou?

- Pegar mulher?

- Não!

- Pô, vai fazer o quê, então?

- Acho que vou experimentar uma fruta nova.

- É um começo. Tem na geladeira?

Caminho até a geladeira. Abro-a. Sinto frio. Esqueço o que estava procurando. Investigo a gaveta de frutas. Pego uma fruta vermelha desbotada, pequena, aspecto estranho, mas bonita, todas as frutas são bonitas, até a de conde. Encaro a fruta. Ela faz pouco de mim. Não sei como é que se come a fruta nova. Lembro que é por isso que não gosto de experimentar frutas novas – por não saber comê-las.

Improviso.

- Seu aniversário tá chegando.

- É.

- Vai comemorar?

- Se houver motivo…

- Como assim "se houver motivo"?

- Se houver motivo, ué, motivo de comemoração.

- Chegar aos 30 já não é o motivo?

- Só se for para velório!

- Garota, você tem algum objetivo a ser alcançado, uma meta a atingir para depois juntar os amigos e beber meia dúzia por ter conseguido?

Silêncio.

Mordo a fruta. Desprezo a casca. A fruta desbotada é clara por dentro e tem um único caroço, proporcionalmente grande, coberto por uma crosta esbranquiçada. Enrugo os lábios. Mastigo uma, duas, três vezes, com pausas de segundos. Meu paladar tenta se acostumar. Sou infeliz, descubro que sou infeliz. Olho para o chão. Meu queixo treme. Não tenho objetivo, não tenho meta, não tenho alvo, não tenho nada.

- Você precisa de um objetivo.

Cuspo a fruta.

- Calma. Vamos pensar em alguma coisa.

Miro, no prato, ao lado da fruta, a faca.

- Que tal trocar de carro?

- Tô satisfeita com o meu.

- Já sei: emagrecer dois quilos!

- Tô gorda?

- Começa um trabalho voluntário. Adota um gato na Suipa e faz ele engordar três quilos!

- Não, que saco, não quero gato, detesto gato.

- Ah, sei lá!

- Tá vendo?

- Péra aí… Por que você não aprende Espanhol?

- Não.

- Francês?

- Não!

- Reconquista um amor do passado?

- Sou casada. Esqueceu?

- Claro: compra uma geladeira nova.

- Dã…

- Já sei. Engravida.

- Não, não é a hora.

- Pô, desisto.

Provo a fruta pela segunda vez. Até que não é má.

- Tive uma idéia.

- Qual?

- Minha meta é abrir as pernas em espacat e encostar o peito no chão.

- Sério?

Adoro a lichia. Engulo.

Da costela do meu pai

by rosanacaiado em 12 de agosto de 2007 | 21:00

Meu pai foi o primeiro homem para quem quis ser bonita. O primeiro homem a quem dei meu coração – de papel, pintado de vermelho hidrocor. O primeiro homem que beijei a orelha – não sem antes adicionar uma pitada de sal de cozinha. O meu primeiro, e melhor, professor de dança de salão. Foi com o meu pai que li, no sofá da sala, lá pelas sete da manhã, as primeiras manchetes de jornal da minha vida. E, já impaciente, reclamava do tempo que ele demorava estudando aquelas páginas – pra mim, as mais chatas – cobertas de pequenos números da Bolsa de Valores.

Meu pai é amoroso, um grande contador de piadas, o melhor anfitrião de quem se tem notícia – taças não ficam vazias perto dele. Dedicado à família, cavalheiro e protetor.

‘Sou Ferreira, como meu pai, no corpo esguio, no cabelo fino e escuro. Sou Ferreira no nariz igual ao do meu pai. Tenho um ombro mais alto do que o outro, como meu pai. Temos o mesmo desenho de coluna, como se eu tivesse nascido da sua costela

Até hoje, meu pai me dá revistas, biscoitos, Toddynho, bananadas açucaradas, Clight de tangerina e, se for meu dia de sorte, tickets-refeição. Meu pai me deu o meu primeiro carro e mudou minha vida. Me dá a mão sempre que preciso. Desfila de mãos dadas comigo na rua e, juntos, vamos até a locadora onde alugamos filmes de ação, suspense e violência, para desespero de minha mãe.

Com a idade, meu pai está cada vez melhor. Quero envelhecer como ele, bem-humorado e cheio de planos de viagem. Ele é um eterno garotão, das bermudas modernas, blusas coloridas e sapatênis. É ativo, tem saúde de ferro, anda rápido, faz de cabeça a conta do mercado – outro dia, tentei fazer o mesmo e não é que cheguei perto?

Como ele, gosto de falar "muito boa noite". Como ele, balanço os pés nas pernas cruzadas. Como ele, ando de um lado para o outro. Como ele, tomo vinho verde. Como ele, adoro um bom negócio: aprendi com meu pai o prazer de uma pechincha e não resisto a uma loja de 1,99.

Como meu pai, sou ciumenta e não gosto de errar. Não gosto de pedir a mesma coisa mais de uma vez. Não gosto de ver a luz do banheiro acesa quando ninguém está lá. Prefiro feijão coado. E detesto jornal no chão.

Sou Ferreira, como meu pai, no corpo esguio, no cabelo fino e escuro. Sou Ferreira no nariz igual ao do meu pai. Tenho um ombro mais alto do que o outro, como meu pai. Temos o mesmo desenho de coluna, como se eu tivesse nascido da sua costela.

Aprendi com ele a ser responsável, a jogar pontinho e gostar de fotografias. Toda quinta, quando saio da Tijuca, tiro uma foto mental do meu pai e da minha mãe, na porta da nossa casa, acenando em "tchau". Admiro essa foto projetada no pára-brisa do carro até chegar à Lagoa, feliz por partilhar com eles a vontade de estar sempre perto.

Há muito tempo trago no peito a vontade de sentar e escrever uma carta para o meu pai. Para dizer coisas que, por um motivo ou por outro, não consigo falar frente a frente. Também para deixar registrado pela eternidade e assinar embaixo do óbvio: o amor que levo no meu peito e o orgulho por chamá-lo de pai, o meu papitcho.

Com amor e admiração.

Rosana C. Ferreira

Insônia

by rosanacaiado em 5 de agosto de 2007 | 21:00

Insônia é assim: você perde o final do filme no sofá da sala porque cochilou; depois de escovar os dentes e cair na cama, olhos arregalados. Vira para um lado, vira para o outro e volta. Estica as pernas, une as palmas das mãos, fica de bruços e nada. Não adianta torcer membros inferiores e entrelaçar superiores. O que movimenta o cérebro e aperta o coração é que conta. Quem tem insônia fica pensando coisas. E todo mundo sabe que o atalho para o mundo dos sonhos é pensar em nada. Nada só pode ser preto ou branco. Às duas da manhã, penso preto, porque fica escurinho e ajuda a chamar o sono.

Nada não é laranja, cor-de-rosa nem estampadinho. O grande desafio da insônia é justamente pensar em tons de cinza. Me esforço para pensar breu, mas acabo pensando letras. Letras fluorescentes, maiúsculas todas. Letras em néon que se juntam contra a minha vontade formando palavras e frases, que descrevem com detalhes sórdidos os possíveis motivos para a minha falta de sono. Frases enormes, tópicos e setinhas, medo em pisca-pisca, preocupações em negrito. Listas em ordem alfabética. A insônia é audaciosa, como eu.

‘Quando criança, os desenhos animados me ensinaram a contar carneirinhos. Carneiros brancos pulam a cerca de madeira num cenário bucólico: um, dois, dez, dezenove, até que uma ovelha , a mais gordinha, tropeça e cai

Às três da manhã, apago com uma flanela embebida em álcool todas as palavras, dois ou três palavrões, na lousa em que havia se transformado minha cabeceira. Às três e cinco, parto para novas estratégias para dormir ao menos algumas horas antes de o despertador tocar. A partir de então, não penso somente palavras, mas estatísticas, gráficos, fluxogramas, storyboards. Aí, danou-se.

Quando criança, os desenhos animados me ensinaram a contar carneirinhos. Carneiros brancos pulam a cerca de madeira num cenário bucólico: um, dois, dez, dezenove, até que uma ovelha , a mais gordinha, tropeça e cai. Fico em dúvida se devo continuar a contagem de onde parei. Nesse caso, fico em dúvida se a ovelha que caiu vale ou não na contagem. Fico em dúvida, ainda, se devo recomeçar a contar do zero ou se deixo tudo isso de lado e ajudo a ovelha gordinha a se levantar. Dormir, neca.

Outra técnica que usava na infância para pegar no sono era fingir que já estava dormindo, mesmo estando acordada. Não na hora de dormir, claro, porque nunca fui fácil – muito menos criança. Mas na hora que não era para dormir, como, por exemplo, na hora do jantar – na época, eu detestava comida, assim como fazia cara feia pra meninos e beijos na orelha. Lá pelas sete da noite, eu deitava no sofá e ficava quietinha, de olhos fechados, fingindo dormir. Minha mãe tinha pena de me "acordar" e então eu era liberada da janta. A tática funciona e tem fundamento: ao fingir, a pessoa deve permanecer imóvel, de olhos fechados, com os músculos do corpo relaxados. Antes da terceira garfada da minha mãe, eu já estava, de fato, dormindo. Hoje, mamãe não está.

Às quatro e dezoito, entro em pânico. O despertador tocaria às sete, faço as contas em números cor-de-abóbora, atraso o alarme em quinze minutos. Tenho uma idéia: fico paradinha, olhos fechados e corpo relaxado, fingindo não apenas dormir, mas sonhar. É isso: vou fingir que estou sonhando. Agora eu quero ver. Vou sonhar e depois dormir. Perfeito. Ok. É isso. Não tem erro. Sonho com quê? Com quem? Não, você, não. Você, não. Isso não. Não! Já sei: Teté. Vou sonhar com Teté, a vizinha solitária que, a essa hora, deve estar dormindo do lado de lá da parede, com máscara nos olhos, pijama de flanela e travesseiro entre as pernas. No sonho, somos duas princesas, moramos em castelos vizinhos no interior da França. Temos cabelos compridos, louros, usamos vestidos rodados e temos cinturinha de pilão. Estou andando pelos meus jardins verdes, cobertos por flores do campo, trigo, passarinhos. Riacho. Peixes. Cavalos. Vejo Teté, a vizinha, a princesa do 804. Ela acena e vem em minha direção. Diz que leu a coluna da semana passada, me dá a mão. Teté se emociona e se apresenta em um abraço. Teté não se chama Teté, mas Carmita. Às quatro e vinte e seis, durmo. E esqueço tudo.



perfil

Rosana Caiado Ferreira nasceu no Rio de Janeiro em 1977. Formada em Comunicação Social, é escritora e roteirista. Participou do livro "Como se não houvesse amanhã" (Editora Record) com um conto escrito a partir da música “Eduardo e Mônica”. Mantém o blog Complete a frase. Para entrar em contato, escreva um email para rosanacaiado@gmail.com