Rosana Caiado

O delicioso prazer de dizer a verdade

by rosanacaiado em 28 de outubro de 2013 | 22:14

marta

Estávamos deitados de barriga para cima cercados por peças de roupa do lado avesso. Mesmo tendo sido boa, nem eu nem Vinícius imaginávamos que aquela transa seria apenas a primeira. E, sem preocupações com o dia seguinte, nos entregamos ao delicioso prazer de dizer a verdade sobre quem éramos, o que em pouco tempo se transformou em uma competição adolescente sobre a nossa vida sexual.

Contei da farra com uma amiga de colégio e um barman que nos seduziu com cinco mojitos e antebraços tatuados. Vinícius não pareceu se impressionar. Então, contei que tinha me feito de puta, com vestido colado, peruca loira e perfume barato, e dado pinta na Atlântica até meu ex-namorado passar de carro e me pagar 200 pratas por três horas em um motel de quinta. Vinícius virou-se de bruços, pediu que eu lhe coçasse as costas e disse:

- Já bati punheta para todas as mulheres da minha família.

E quando ele disse “todas as mulheres da minha família”, era isso mesmo o que queria dizer, visto que, a despeito dos meus olhos arregalados, começou a listar as primas de terceiro, segundo e primeiro graus; a falar da cintura da tia Ângela, dos decotes da Tia Sônia e do traseiro da dinda Regina; do frescor das sobrinhas Carol, Fernanda, Maria Eduarda e Tatiane – a das pernas oxigenadas –; além das irmãs mais velhas Viviane e Vaninha, que passeavam de camisola pelos corredores da casa de Madureira, até insinuar que já tinha pensado na própria mãe – só a avó Margareth tinha ficado de fora das suas fantasias. Isso porque a velha passava dos oitenta, tinha cheiro de guardado e precisava de ajuda para se levantar do sofá.

Na hora, fiz pouco da confissão de Vinícius pois não queria ficar em segundo lugar na disputa pelo título de maior libertino presente, mas dois anos, uma cerimônia simples e centenas de transas depois, no aniversário de 85 da Dona Margareth, na hora da sobremesa, olhei para a sala apinhada de mulheres da família e a nossa primeira noite acertou minha cabeça como um vaso que cai da janela.

Da transa não guardo detalhes, melhorou com o treino. O problema era o Vinícius ter se masturbado pensando em todas as mulheres da família, com quem dali a pouco eu recolheria os pratos e arrumaria a cozinha. No caminho para casa, presa pelo cinto de segurança, imaginei Vinícius no banho com cada uma delas – família grande –, até pensar na Melinha, que faz o brigadeirão que ele sempre repete. Assim que chegamos, Vinícius foi direto para o banheiro e ligou o chuveiro. Tentei entrar, mas a porta estava trancada. Saiu com a toalha azul enrolada na cintura, enxugando o que lhe restava de cabelos com a branca. Enfiou o short do pijama e, sem camisa, foi fumar na janela do escritório.

Puxei uma cadeira e um cigarro do maço dele.

- Ficou louca? – perguntou, mas eu estava surda.

- Até com a Melinha?

- O que tem a Tia Melinha?

- Você se masturbou pensando nela?

- Que isso, amor! O que você está falando?

- Eu sei, Vinícius, você me contou que se masturbava pensando em todas as mulheres da família – nessa hora, tossi um pouco, porque não fumo, e Vinícius tomou o cigarro da minha boca.

- Eu disse isso?

- Disse, você disse! Na nossa primeira noite, depois da nossa primeira vez, quando estávamos deitados na cama com nossas roupas espalhadas pelo quarto.

- Você se lembra disso?

- Você esqueceu?

- Todas, menos a Vó Margareth.

Foi mais forte que eu: franzi a testa, fechei os olhos, e senti as lágrimas escorrerem depressa, molhando a gola do meu vestido. Vinícius me abraçou, enxugou minhas bochechas como era de costume e falou que tinha sido coisa de garoto, que ele só tinha trazido à tona para ganhar aquela competição idiota e terminou dizendo que “não há no mundo, nem no da fantasia, mulher como eu”. Depois me fez prometer que nunca mais iria encostar em um cigarro. Dormimos abraçados a noite inteira.

No dia seguinte, quarenta minutos depois da hora, Vinícius chegou em casa com uma sacola parda, estendeu o braço e disse:

- Toma.

Vestido colado, peruca loira e perfume barato.

 

 

* A coluna está de férias até o fim do mês. Enquanto isso, vou repostar algumas das minhas preferidas.

** A ilustração que embeleza o texto é da Marta Altés.

Gustavo

by rosanacaiado em 21 de outubro de 2013 | 21:23

cargoupper

O dia estava cinza quando olhei para o relógio que piscava 9:34. Enfiei a cabeça num chapéu e os pés num par de chinelos, chamei o elevador e li a lista de compras pelos dois quarteirões, separados por um sinal, que me levam até o mercado.

1. Coca-Cola light
2. iogurte light
3. queijo minas light
4. presunto de peru light
5. requeijão light
6. pão de forma light
7. batata doce
8. batata normal
9. rúcula
10. ovo caipira
11. tomate
12. banana
13. papel higiênico
14. bolo
15.

Neste mercado, a lista não pode ultrapassar 15 itens, para que se possa entrar na fila rápida. Sempre há pessoas, na fila de 15, atrás de carrinhos com quase 30 itens. Quando acontece, a encaro com a testa plissada e alterno o olhar entre o rosto da pessoa, os 30 produtos no carrinho e a placa de 15 itens; o rosto da pessoa, os 30 produtos no carrinho e a placa de 15 itens. Testa plissada.

Fico contente quando a minha lista bate 13 ou 14 itens, porque, dessa forma, posso trazer algo que me apeteça de última hora ou alguma promoção, como um congelado ou uma garrafa de vinho tinto. É o caso dessa vez e me sinto superficialmente feliz, apesar de tudo.

Vou ao mercado a pé, porque vendi o carro no final do mês passado por R$ 19 mil para um amigo que trabalha em uma concessionária. Desde então venho elaborando a técnica de comprar apenas o que é necessário, em uma equação de variáveis x e y, onde x é igual ao peso do produto e y é igual ao espaço que vai ocupar na sacola. A sacola é grande, tipo ecobag.

(Talvez seja importante mencionar que, mesmo usando a ecobag, não abro mão de pegar algumas sacolas plásticas, ou não teria como forrar a lixeira da cozinha e a do banheiro, o que faço várias vezes por semana, porque o mau cheiro me incomoda. Então, opto por ensacar alguns itens, principalmente, o queijo minas e outros que também suam.)

Uma garrafa de Coca-Cola light, por exemplo, é grande e pesada, tornando-se artigo de luxo que só adquiro quando estou precisando me fazer um afago ou se vou receber visita – e esta precisará ser afagada. Se há outros itens pesados na lista, como sabão em pó, tenho que abrir mão da Coca-Cola light e comprar um envelope de suco artificial, que é leve e ocupa pouco espaço. O que mais me impressiona é que, não importa quais são os itens da lista, o valor da nota está sempre entre 54 e 62 reais.

Quando saio do mercado – dessa vez, o item surpresa foi um pacote de mariolas -, fico de pé, na porta, atrapalhando a passagem das pessoas que querem entrar. Seguro a ecobag no ombro, abençoo o meu boné e sinto pena dos dedos do meu pé, que ficarão em minutos sujos por lama: chove. À direita, há um amontoado de pessoas que esperam a chuva estiar e aproveitam para fumar um cigarro. Como não fumo e tenho saúde forte, acho por bem ignorá-la.

Meio quarteirão depois, estou vencida. Calça jeans empapada, dedos dos pés enlameados, casaco molhado. Só o rosto está protegido pela aba do chapéu. Apresso o passo para pegar o sinal de pedestres aberto, mas não dá tempo. Estamos eu e minhas sacolas debaixo do que o meu pai chamaria de toró, quando tenho a sensação de que alguém está olhando para mim. Viro-me e meus olhos fazem foco nos olhos verdes desse rapaz, que segura um guarda-chuva que mais parece uma barraca de praia, só que é preto. Ele sorri para mim e levanta dez centímetros o guarda-chuva na minha direção em um claro gesto de quem oferece abrigo. Finjo que não entendi e me sinto envergonhada quando ele diz:

- Quer uma carona?

Ele tem sobrancelhas grossas e queixo proeminente.

O sinal abre e ele se aproxima, me levando para debaixo do guarda-chuva.

- Gigante o seu guarda-chuva. Parece até uma barraca de praia.
- É o único que dá jeito num toró desses.

Gosto dele.

- Onde você mora? – ele pergunta.
- Logo ali na frente.

E vamos andando no mesmo passo, braços colados, até o portão do prédio. Com a mão livre, puxo a chave do bolso e ele entende que chegamos.

Olho para ele. Ele olha para mim. Chove.

Agradeço, rasgo a portaria, com minhas sacolas, minha Coca-Cola light e meu coração aos pulos. Olho para trás e ele ainda está lá.

- Meu nome é Renata. E o seu? – grito.

Foi assim que conheci Gustavo no dia 9 de setembro de 2009, às 10h43.

 

* A coluna está de férias até o fim do mês. Enquanto isso, vou repostar algumas das minhas preferidas.

** Essa ilustração tão bonita é da Felicita.

As paredes do nosso quarto

by rosanacaiado em 14 de outubro de 2013 | 18:02

paredes

No mês passado fiz aniversário e uma festa a que todo mundo foi. Tenho duas melhores amigas, um coelho e fogo debaixo da saia que preocupa os meus pais – temem virar avós antes da hora. Meus cabelos se aproximam do cóccix e engrosso as pernas na academia de ginástica em três séries diárias de agachamento. Às segundas, quartas e sextas, o professor é o Marcelo, que no final da aula, às oito, insinuou que, um dia, gostaria de me acompanhar até em casa.

- Por que não hoje? – perguntei.

Marcelo andou ao meu lado até a esquina, onde fica a casa amarela em que moro com os meus pais. Me posicionei na frente do muro na parte em que ele fica mais alto, de modo que o meu pai não conseguisse nos ver ainda que se escondesse por trás das cortinas. Não lembro sobre o que eu e Marcelo conversamos, se é que conversamos alguma coisa, antes de ele me dar um abraço em que fiquei na ponta dos pés.

Marcelo é casado, pai de dois filhos, tem a minha idade em cada perna e me chamou para sair.

Três dias depois, à tarde, no lugar combinado – uma rua erma da vizinhança – Marcelo chegou em um Gol prata e abriu a porta para eu entrar. Entrei. Marcelo pousou a mão sobre a minha coxa e dirigiu com a esquerda até o motel mais próximo, só tirando a mão do meu corpo para passar as marchas. Eu não sei dirigir.

Na garagem, Marcelo me beijou um beijo com gosto de cimento e disse que estava nervoso, o que me atingiu feito um encanto, uma vez que não podia imaginar que uma garota como eu pudesse tirar um homem experiente como Marcelo dos eixos. Eu estava com aquele vestido de que meu pai não gosta mas Marcelo elogiou enquanto me via subir a escada que nos levou até o quarto. O quarto tinha piscina, mas fiquei com nojo de entrar.

Marcelo não foi o meu primeiro homem, mas parecia que eu era a sua primeira garota. Quando tirou a roupa, pareceu nervoso e ficamos 15 minutos esticados na cama. Ele conversando, e eu brincando com os pelos do peito dele. A coisa em si durou o mesmo tempo que levava com o Batata, meu namorado do primeiro ano. Ainda assim fiquei ansiosa quando, depois do quinto dia de atraso, a menstruação não veio. Eu ia para a academia de modess que é o meu truque para atrair o fluxo.

Na quinta à tarde, Marcelo me levou à praia e deitou de bruços na minha canga. Marcelo não é feio, mas também não parece um professor de ginástica. Quando voltei do mar, Marcelo disse que eu era o sonho de qualquer homem e eu agradeci. Marcelo jurou que não ia para a cama com a mulher há meses e que iria se separar até o fim do ano.

Se eu estivesse mesmo grávida, Marcelo falou que iria comprar um apartamento de dois quartos perto da  faculdade, e eu respondi com uma risada. Disse para Marcelo que não acreditava em nada do que ele falava, mas, em meu íntimo, ficava imaginando a fachada do prédio, de que cor seriam as paredes do nosso quarto e se poderia levar Toy – o meu coelho. Foi justo nessa semana que Sandra, a mulher de Marcelo, começou a frequentar a academia, às segundas, quartas e sextas, às sete. Sandra era loira, tinha os cabelos fartos e 300 mililitros de silicone.

A presença da mulher de Marcelo na academia, ainda mais com aqueles peitos redondos, me feriu e, quando Marcelo abriu a porta do Gol prata na rua erma, fiz beiço. Depois entrei. No motel, quando terminamos, Marcelo tomou banho sem passar sabonete – ele sempre fazia isso -, e notou que os seus pelos estavam sujos de sangue. Eu tinha acabado de ficar menstruada. Marcelo sentou na beirada da cama, me colocou no seu colo e contou que Sandra estava grávida do terceiro filho. Eu não chorei.

No sábado, vou ao cinema com o Batata.

 

* A coluna está de férias até o fim do mês. Enquanto isso, vou repostar algumas das minhas preferidas.

** Tirei essa lindeza de imagem daqui e quem me mostrou foi a Manon.

Eu até poderia

by rosanacaiado em 7 de outubro de 2013 | 22:43

no more

Eu acordaria três minutos antes do despertador tocar e demoraria a levantar da cama. Eu viraria para um lado e depois para o outro, passaria o travesseiro por cima da cabeça, me embrenharia em meus próprios cabelos, viraria de bruços e faria um quatro, até sair de debaixo dos lençóis, sentar e enfim me colocar de pé, pé no chão, eu não encontraria os chinelos. Então eu acenderia a luz do banheiro e me veria no espelho. Eu abaixaria a calcinha, sentaria no vaso e faria xixi pensando naquela conversa que tivemos e naquelas coisas que disse quando queria dizer outras. Eu alimentaria o gato, tomaria café da manhã, e depois um banho, lavaria a cabeça e pensaria nas besteiras que falei e também nas que gostaria de fazer mas falta coragem. Eu ficaria em dúvida se tinha ou não passado sabonete no corpo inteiro e então passaria outra vez (eu já teria passado antes), e usaria produtos especiais pensando em você e num possível toque dos seus dedos sob a minha pele, mesmo que rápido.

Eu passaria mais de dez minutos sentada na cama de frente para o armário e o armário estaria com as quatro portas abertas e eu ficaria olhando na direção das roupas penduradas, as de inverno separadas das de verão, mas na verdade estaria olhando para o nada. Eu vestiria uma blusa que nunca me parece adequada, escovaria os dentes, passaria perfume no cangote, pentearia o cabelo, enfiaria anéis, e chamaria o elevador que sempre demora.

Eu pegaria o ônibus e depois o metrô, eu ficaria de pé e tentaria ler as notícias do jornal, e pensaria em você entre uma notícia e outra, entre uma linha e outra, entre o ônibus e o metrô, entre uma estação e outra, e chegaria atrasada no trabalho, mas só um pouco.

Eu tentaria me concentrar em vão. Eu responderia e-mails e entraria no Facebook, eu leria, escreveria, editaria, deletaria, comentaria, riria, ouviria, falaria, perguntaria, pediria, calaria, sem esquecer que você existe em algum lugar, talvez dentro de mim. Eu almoçaria cedo e pediria um doce, um doce pequeno. Eu escovaria os dentes e depois mascaria todos os chicletes da caixa. Eu seguraria a cabeça com as duas mãos, eu fecharia os olhos e abriria rápido para que ninguém percebesse. Eu franziria a testa, beberia três ou quatro copos d’água e iria ao banheiro três ou quatro vezes, eu resolveria pequenos ou grandes problemas, faria que sim com a cabeça sem prestar atenção no que o outro estaria dizendo, eu checaria e-mails de três em três minutos, ouviria o seu nome em algum lugar, talvez dentro de mim, eu reclamaria do engarrafamento e das pessoas que esbarrariam em mim, eu chegaria em casa, demoraria a encontrar a chave dentro da bolsa, comeria uma bobagem, alimentaria o gato, veria televisão, tomaria banho, escovaria os dentes, eu pentearia o cabelo, colocaria a camisola, entraria embaixo dos lençóis, leria algumas páginas de um livro, e pensaria que eu até poderia ficar mais um dia sem te procurar, mas por quê?

Os primeiros fios brancos

by rosanacaiado em 30 de setembro de 2013 | 23:31

Há coisas que só faço na casa dos meus pais.

Procurar fios de cabelo brancos é uma delas. Lá tem um banheiro amarelo e o banheiro amarelo tem uma luz muito forte, além de um espelho que se dobra e portanto se reflete ad eternum. Por isso, a cada visita, perto da hora de ir embora, vou até o banheiro, tranco a porta, posiciono os espelhos e procuro fios brancos como quem cata piolhos. Quando levo muito tempo, minha mãe desconfia e grita do lado de fora:

- Chega de procurar cabelo branco!

Talvez ontem eu tenha demorado além do razoável primeiro porque achei um número maior de fios e depois porque eles pareciam colados no couro e eu não conseguia pesca-los, caracterizando um prenúncio óbvio: em breve não será possível retirá-los todos, e então terei que escolher entre assumi-los ou pintá-los.

Os cabelos brancos, ao lado das marcas ao redor dos olhos, das manchas nas bochechas, aliás, aliados à ausência de bochechas são uma prova irrefutável de que estou envelhecendo. Talvez a minha casa seja uma boa amiga, que, escura, não aponta meus defeitos. Já a casa dos meus pais é a franqueza absoluta: me mostra que todos, inclusive eu, não somos tão jovens.

Por ora continuo arrancando um a um depois de vasculhar sobretudo o alto da cabeça – diferente do que acontece com amigas próximas, que exibem fios brancos acima da orelha, os meus insistem em nascer no cocuruto. E são arrepiados, mais grossos que os demais e chamam atenção como pisca-pisca.

Quando termino – depois de arrancar todos os fios que destoam da cabeleira castanha – volto para a sala onde meu pai está sentado na beira do sofá, deixando uma almofada vaga para mim. Seguro sua mãos, entrelaço meus dedos nos dele antes de ouvir:

- Por que você demorou tanto?

- Eu estava arrancando meus fios brancos.

- Você tem cabelo branco?

- Tenho.

- Quantos você arrancou?

- Quatro.

Ele olha no fundo dos meus olhos, depois para o horizonte e diz:

- Então deve ter muito mais.

Só na casa dos meus pais tenho essa compreensão do ciclo da vida e de que somos todos, inclusive eu, vizinhos da morte. Diante desse comentário vindo de uma pessoa muito mais experiente no assunto – aos 89, meu pai tem a cabeça toda branca – só me restou sorrir. Mas foi de nervoso.

A caixa amarela

by rosanacaiado em 23 de setembro de 2013 | 22:36

bombom

Quando abro uma caixa de bombom, o primeiro que pego é o Moon, que tem chocolate ao leite por fora e recheio de baunilha. O Moon é um daqueles chocolates que só existem dentro da caixa amarela, não é como o Serenata de Amor que dá para comprar sozinho. Mesmo assim, percebo que muita gente escolhe o Serenata logo que abre a caixa. Não sei se é pelo formato redondo, e aparentemente maior do que os outros. Ou se é porque ele é amarelo. O Opereta é amarelo e descobri outro dia que muita gente gosta dele. O Opereta é como o Moon: só existe na caixa amarela. Quando eu era pequena, na casa dos meus pais, a minha mãe ficava com o Opereta porque ninguém mais queria, e também porque as mães cedem o melhor para os filhos, no caso eu e minha irmã.

É um momento muito alegre, o de abrir a caixa e poder escolher o bombom. Depois do Moon, vou no Alô, doçura. Quando eu era do CA, no colégio Lobo da Cunha na rua São Francisco Xavier na Tijuca, um menino, acho que o nome dele era Rafael, me deu um Alô, doçura na hora do recreio. A embalagem era diferente da de hoje, mas já roxa e tinha o desenho de uma boca com batom rosa. Só pode ter sido uma cantada.

Na casa dos meus pais, tinha sempre uma ou duas caixas de bombom no armário preto da sala, na porta da direita, primeira prateleira, no canto. Eu sabia que tinha mas não podia pegar. Eu queria, eu queria passar a mão no plástico fino, transparente, eu queria arrebentar o plástico, soltar a cola que fechava a caixa, a caixa amarela, abrir e tirar um Alô, doçura, um Moon, ou um Serenata. Podia ser um Nougat. Se o meu chefe entrasse na minha sala e me pedisse para criar o nome de um bombom,  eu jamais teria coragem de sugerir Serenata de amor. Nem Sonho de valsa. E jamais Surreal. O Surreal apareceu faz pouco tempo, é bombom novo, e sou contra sua presença na caixa amarela. As pessoas gostam de coisas que eu não gosto, e o Surreal é uma delas.

Lá em casa, fora o Opereta, sempre sobrava o Crocante. Minha mãe comia, mas não sei se gostava, ela comia o Crocante e o Opereta, que tinha uma harpa na embalagem. As pessoas não gostam de muitas coisas, mas parecem odiar o Torrone. Torrone é um bombom muito duro que vem dentro da caixa amarela. Às vezes vinham vários Torrones e só um Alô, doçura. Eu ficava chateada.

Olhando para trás, pode ser que não fosse a intenção, não deve ter sido a intenção do Rafael me passar uma cantada, mas eu encarei como se fosse. Contei para a minha mãe, comi o chocolate, guardei a embalagem, guardei por anos a embalagem e nunca esqueci esse dia, a esquina do pátio em que estávamos perto do bebedouro, a expressão que ele fez quando estendeu o braço direito, a mão direita fechada, o bombom dentro e me ofereceu. Ele era franzino.

A caixa de bombom de hoje em dia não é a mesma da minha infância mas eu queria que fosse, queria pegar um bombom que tivesse a embalagem antiga, com aquele cheiro, o cheiro do armário preto da sala, e se eu pegasse aquela caixa amarela com aqueles bombons, inclusive e principalmente o que saíram da caixa (tinha um de pêra), sem nenhum dos novos (Surreal), se eu encontrasse essa caixa amarela no armário da sala na porta da direita, primeira prateleira, no canto, eu comeria o Crocante e depois o Opereta. Ou o Opereta e depois o crocante, e talvez eu gostasse, acho que eu gostaria, eu pegaria o Crocante e depois o Opereta. O Alô, doçura eu deixaria guardado na caixa amarela, caixa das minhas lembranças.

 

* Se quiser ver mais ilustrações fofas como a que enfeita esta coluna, clique aqui.

Eram muitas curvas

by rosanacaiado em 16 de setembro de 2013 | 20:40

CURVAS

O táxi era apertado e o ar condicionado estava quebrado. No banco de trás estavam três pessoas, eu na ponta, e a cada curva (eram muitas curvas) o meu corpo tendia para a esquerda, sempre para a esquerda, embora algumas curvas fossem para a direita, enquanto passávamos por ruas estreitas.

Eu deixava o corpo cair para a esquerda e quando o meu corpo caía para esquerda, ele encostava em outro corpo que estava à esquerda, a minha panturrilha em outra panturrilha que mesmo coberta por calça jeans me roubava o ar. Eu contraía o abdome só por encostar a minha coxa na coxa à esquerda, os nossos quadris, por medir a temperatura da sua respiração, certa de que estava, a sua respiração, no mesmo compasso que a minha.

Os nossos braços encostavam-se levemente e eu podia intuir a espessura do tecido da sua blusa e experimentar um pouco da maciez da sua pele que esbarrava na minha e era como se os nossos pelos se despenteassem entre uma curva e a seguinte (eram muitas curvas). Eu tentava enxergar entre os botões da sua blusa, e queria mais curvas, as suas e as das ruas estreitas de um trajeto sabidamente curto que por mim poderia durar horas em que ficaríamos dentro do taxi apertado sem ar condicionado, deixando o corpo cair nas curvas (eram muitas curvas), pressionando as laterais dos nossos corpos uma contra a outra.

Eu jurava que enquanto o meu corpo tendia para a esquerda o seu vinha para a direita mesmo que a curva fosse para o outro lado só porque o meu corpo estava neste e assim os nossos corpos, primeiro na lateral e depois frontalmente, tocariam um no outro. Prendo o ar entre duas curvas, olho para seu rosto e para as suas curvas (do seu cabelo, do seu pescoço, da sua boca, entre os botões da sua blusa – eram muitas curvas), mas, quando o trajeto curto acaba e o taxi para, descubro que estou sozinha.

 

* A imagem que ilustra a coluna é da Pietari Posti.

Carol Ferreira

by rosanacaiado em 9 de setembro de 2013 | 21:27

Tem um relógio dentro de mim: mentalizo o horário em que preciso acordar e levanto pontualmente. Sento na cama, oro um pai-nosso e vou lavar o rosto. De frente para o espelho, vejo se estou magra – percebo pelas bochechas. Ontem acordei e me senti bonita.

Cresci ouvindo minha mãe dizer: “Se vira porque você não é quadrado.” Me meto a fazer de tudo para não depender de ninguém. Eu mesma faço as minhas unhas, às terças-feiras. Sei fazer escova e bainha, minha maquiagem é boa, e o meu feijão, maneiro.

O que tenho hoje, diante da realidade de dez anos atrás, é muito dinheiro. Já ganhei 180 reais por mês. Morava em um quarto pelo qual pagava 80. Sobravam 100, que eu gastava na padaria. Quando posei nua, tratei de comprar rápido o meu apartamento, porque mulher com dinheiro na mão é um perigo. Você nunca vai me ver em restaurante caro. Só vou como convidada, e, mesmo assim, quando chega a conta, arregalo os olhos. Eu sei quanto custa o sabonete.

Falo que tenho 1,70 m, mas arredondo. Visto 38 e calço 37. Em 2003, coloquei 260 mililitros de silicone. Eu não tinha peito nem bunda, nada – só boca. Quando acordei depois da cirurgia e vi aquilo tudo, pensei: “Fantástico.” No mesmo dia, voltei para casa, vomitando no carro.

Belo-horizontina, cruzeirense, apresentadora, 27 anos, mas às vezes me sinto com 37. Filha de José João Figueiredo e Nelcy Gonçalves Ferreira – pai carreteiro e mãe diarista. Meu pai saiu de casa quando eu estava com 2 anos. Fui operada aos 5, porque tinha um papo na garganta. Aos 7, entrei na escola. Aos 8, ganhei o Betão, aquele boneco de plástico que todo pobre tem, cabeção, que solta as pernas e os braços. Aos 9, me cortei com uma garrafa de vidro e ganhei uma cicatriz no pé direito. Aos 10, tirei nota vermelha na escola e levei minha primeira surra com espada de São Jorge. Aos 11 dei o primeiro beijo. Aos 14, já sabia cuidar da casa como uma mulher adulta – do que não reclamo. Fiz 15 em maio. No dia 8 de julho, minha mãe teve um AVC. Ela era gordinha, comia muita gordura. Mulher mineira come muito. Entrou em coma no domingo, e na terça-feira faleceu. Eu pirei. Pirei. Pirei.

Minha mãe morreu com 41 anos. Porra, morrer aos 41 é sacanagem.

Quando meus tios de Ipatinga chegaram para cuidar do enterro, eu ouvia pelos cantos: quem vai ficar com a menina? Quem vai ficar com a menina? Passei de casa em casa, e ninguém queria ficar comigo. Era aquela coisa de “é virgem”, “não é” – era. Acabei ficando com o meu pai, que morava na carreta. Passei dois anos viajando com ele na boleia do caminhão. Viajamos mais de 10 mil quilômetros – fui duas vezes de Minas até o Maranhão.

O meu primeiro emprego foi como babá. Depois fui garçonete do Rei da Pizza, em Governador Valadares. Já fui balconista de padaria – comia pão quente, ainda mole. Tem muita gente que, quando ri, coloca a mão na boca – é para tentar esconder que não tem o molar. Não passam o fio e acabam perdendo o dente. Eu sei porque já fui assistente odontológica. Aos 18, cheguei ao Rio, com meu namorado cantor. Três anos depois, virei apresentadora do Sexy Hot. Quero abrir um instituto no lugar onde morei, casar, ter um filho, adotar outro e ficar rica. Ficando, faço tudo isso.

Quando abro uma caixa de bombom, o primeiro que pego é o Serenata.  O ser humano é que nem uma laranja – você tem que provar para saber se é doce ou amarga. Sigo o meu coração, e ele nunca me enganou – foi o que me trouxe até aqui e ainda vai me levar a muitos lugares.

 

* Escrevi esse texto com muito carinho em 2009.

Se eu tivesse olhos azuis nunca usaria óculos escuros

by rosanacaiado em 2 de setembro de 2013 | 22:21

cargoastronaut

 

Eu já tentei, mas não consigo mover objetos com a mente. Às segundas como muita porcaria. Às terças a faxineira passa. Às quartas começo a pensar no fim de semana. Na quinta, estou cansada. Na sexta fico de bom humor e durmo cedo. Eu adoro dormir cedo.

Às vezes quando quero digitar Rosana, sai Rosna. Quando tento digitar pai, pau. E mãe vira mão. Quando era pequena li Chapeuzinho Amarelo, amarelada de medo, tinha medo de tudo aquela menina. No meio do livro vinha uma página dupla onde estava escrito lobo um monte de vezes: lobo, lobo, lobo, lobo, lobo, que nós – eu e minha mão – líamos alto até lobo virar bolo, e o medo ir embora. Só que nunca foi.

Já morei em quatro lugares. A primeira casa era cor de burro quando foge. A segunda não tinha esquina. Na esquina da terceira tinha uma farmácia, uma C&A, uma lanchonete, um pé sujo, uma loja de material de construção, uma papelaria, um armarinho, um jornaleiro, uma manicure excelente, uma loja que imprime foto, um mercado e um Sérgio Franco. A quarta é aqui.

Sou mão de vaca na hora de escolher o requeijão. Quando choro fico com o nariz vermelho. Até antes de chorar o nariz fica vermelho. Aí eu tiro as lentes de contato. Depois durmo, porque chorar dá sono. Comer também dá sono, livro chato dá sono, onze da noite já dá sono, mas às vezes às três da manhã o sono vai embora.

Quando sou a dona da câmera, coloco a foto no Photoshop e clareio o meu nariz. Ele está sempre vermelho, mesmo quando não choro. Se eu tivesse olhos azuis nunca usaria óculos escuros. Eu tenho dois óculos escuros, dor lombar e uma toalha de mesa estampada de sapatos. Tenho uma saia florida, que vou usar no sábado, uma máquina de datilografar e um par de algemas que nunca usei.

Estou com a gata no colo e um aperto nas costelas. Eu me viro, me jogo, me engano, me canso e me prometo coisas que não vou cumprir. Quando me engano não gosto e ultimamente tenho me enganado muito. Eu faço aniversário em novembro, faço ficção, dieta e risoto de brie com rúcula. Deve ser bom ser magra de ruim.

Sou ótima em botar na primeira pessoa uma história que aconteceu com uma amiga. Também sou boa de arrancar na ladeira sem deixar o carro escorregar um milímetro. Mas sou craque mesmo em usar a faca elétrica.

Eu acredito em energia, em floral, em pensamento positivo e em amuletos, que dias nublados deixam as pessoas tristes, eu acredito no amor, sobretudo no amor, acredito também em maré, em terapia, e que o mundo dá voltas.  Eu poderia passar horas no banho quente, mas o que eu preciso é pensar menos e dormir mais. E comer menos porcaria, e chorar mais, porque guardar dentro do peito dói e no meu peito não cabe tanta coisa assim. Não sai da minha cabeça uma música do Caetano que diz quem é?, sou eu, eu quem?, o seu ioiô. Preciso ouvir Caetano mais.

 

*Achei essa ilustração no site da Felicita Sala.

Natação – parte III

by rosanacaiado em 26 de agosto de 2013 | 22:22

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Previously on Natação em FF:

Comprei um maiô catalina, fui fazer natação, tive câimbra, descobri que todas as meninas usam maiôs mais cavados que o meu e conversam nuas no banheiro, tive câimbra, achei que não fosse conseguir chegar até a outra borda, tive câimbra, entre uma braçada e outra puxei o ar como uma asmática, descobri que não sabia nadar peito, tive câimbra, tive raiva, aprendi a nadar peito.

 

Três meses depois

Depois da vigésima aula, eu estava ligeiramente melhor. O fôlego ainda me faltava às vezes, e houve aquele dia em que Luis, o professor, disse que as minhas costas estavam vermelhas como se eu tivesse tomado sol sem protetor. Respondi: não se pode dizer que não estou me esforçando.

Os cinquenta minutos de aula não demoravam três horas mas duas, passei a dormir mais pesado, mantive o peso mesmo comendo o dobro e comecei a achar o maiô catalina charmoso. Até que por motivos médicos tive que ficar um mês sem encarar a piscina.

Durante 30 dias tentei não pensar no assunto, mas um dia antes de voltar a nadar, as aulas de natação e o medo que eu sentia delas preencheram todos os meus pensamentos. Veio o nervoso e, antes de dormir, abdome contraído. No grande dia, comi amêndoas, bebi água de coco e comi banana que, segundo o Google, são providências acertadas para não se ter câimbra. Depois de comer a terceira, andei até a academia com o meu roupão novo, cinza, que ganhei no Dia dos Namorados, e se alguém olhou enviesado para mim, não percebi.

Juro que imaginei uma aula difícil, mas o que aconteceu não se pareceu com o pior dos meus pesadelos. Estava à beira da piscina um outro professor, que não me cumprimentou. Então, antes de enfiar a touca e colocar os óculos – a única coisa esperta que fiz naquela noite -, fui até ele, me apresentei, disse que tinha começado há apenas três meses e que tinha parado um.  Ele pareceu surdo, se absteve de qualquer comentário, não soube dizer o motivo de Luis não estar ali e se limitou a perguntar se eu sabia nadar tudo, inclusive borboleta, o que respondi com um não desanimado.

Quando ele pediu como aquecimento 10 chegadas, eu devia ter percebido que a câimbra estava próxima. E que a aula dele conseguia ser de um nível mais avançado do que a turma dos geneticamente evoluídos estava acostumada, visto que Luis pedia só 6. Na segunda chegada, quando tentei gastar o meu nado peito, o professor esclareceu que seriam 10 de crawl e ficou claro que aquela aula não acabaria bem.

Fiz com esforço oito, e meu coração batia tão forte que um ataque cardíaco não estava fora de questão. O professor pediu mais seis chegadas só de pernada e, quando as minhas panturrilhas pesavam como chumbo, aconteceu uma coisa que eu esperava há muito tempo: apareceu um aluno novo, não qualquer aluno novo, mas um que nadava muito mal, tomando de mim a incômoda faixa de pior da turma. Besteira ou não, foi um grande alívio, embora tenha durado pouco.

O professor, a quem passei a me referir como sádico, passou séries sempre longas, que além de extremamente desgastantes eram incrivelmente monótonas, sem nem por uma vez mandar usar o pé de pato, que – todo mundo sabe – é o motorzinho que ajuda o pobre do aluno que está há um mês sem nadar a poupar as pernas. Resultado: câimbra, a mais forte que já senti na vida, de modo que, das três últimas chegadas – em regra as mais lentas, que compõem o que seria um relaxamento -, só fiz metade de uma: na volta, sem condições físicas, tive que ir andando.

Andando.

Vinte e cinco metros andando, expressão de horror, touca apertada, óculos embaçados, ombros vermelhos como se eu tivesse tomado sol sem protetor, um foco de luz na minha direção, gelo seco e barulho de silêncio.

Se serve de consolo, não sei, mas os demais alunos não fizeram questão de esconder que tinham reprovado o professor sádico. E eu, eu estava com vontade de chorar. Depois de dormir pesado, chegar ao trabalho e contar para os colegas que acompanham essa série os últimos e trágicos acontecimentos, me dei conta de que tudo aquilo tinha servido para eu valorizar Luis, ótimo professor, que dava aulas dinâmicas, oferecia o pé de pato e tinha me ensinado a nadar peito.

Era isso. Na próxima terça, tudo voltaria ao normal, e eu aprenderia, além de peito, que natação pode ser legal, teria epifanias, ganharia fôlego, talvez até comprasse um maiô mais bonito, e com certeza falaria para o novo detentor da faixa de pior da turma que o começo é mesmo difícil, e que logo ele se acostumaria. Foi aí que resolvi telefonar para a academia para perguntar o que tinha acontecido com Luis e confirmar que ele estaria à beira da piscina na aula seguinte, ou se eu teria que faltar até sua volta. A mocinha então me informou que Luis tinha pedido demissão e que o sádico seria o novo professor da turma, turma da qual a partir de então e imediatamente resolvi deixar de fazer parte.

Esse é o final da temporada. Um final triste, mas nem todos são felizes.

 

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|* Peguei a imagem que ilustra a coluna no belíssimo site da Carla Irusta.

perfil

Rosana Caiado Ferreira nasceu no Rio de Janeiro em 1977. Formada em Comunicação Social, é escritora e roteirista. Participou do livro "Como se não houvesse amanhã" (Editora Record) com um conto escrito a partir da música “Eduardo e Mônica”. Mantém o blog Complete a frase. Para entrar em contato, escreva um email para rosanacaiado@gmail.com