Rosana Caiado

O jogo

by rosanacaiado em 17 de junho de 2013 | 22:36

tv bolsa

 

Seu pai quer ver o jogo, disse minha mãe no outro lado da linha. Como eu nem sequer sabia que ia ter jogo, perguntei: Que jogo? E minha mãe, da sala, gritou para o meu pai, na cozinha: Que jogo é esse, meu bem? E alguns segundos depois ela: México e Itália. Vai ser a que horas?, perguntei. E ela gritou: Meu bem, vai ser a que horas? E depois no telefone: Às quatro.

Do sofá, perguntei ao meu marido, na varanda: Quer ver o jogo do México? E ele respondeu: Quero ver o jogo da Itália. E demorei alguns segundos para me dar conta de que era o mesmo jogo. Meus pais, que não vinham aqui em casa há algum tempo e não conheciam os quadros novos, os azulejos, e a mini árvore, chegariam em pouco tempo para vermos o jogo.

Começamos então a arrumar a casa, lavando louças, passando a vassoura e colocando objetos em seu devido lugar-  alguns foram escondidos dentro do armário. Por que você não convida a sua madrinha ?, perguntou meu marido. Para ver o jogo?, eu. E ele: Você disse que queria se aproximar dela. Melhor não, está em cima da hora, eu disse, mas em seguida lhe dei um beijo e peguei o telefone, disquei o número de cabeça e, quando a minha madrinha atendeu, fiz o convite. Ela então perguntou: Que jogo? E eu: o jogo da Itália, Itália e México. Começa às quatro. E ela, recém-operada, disse que viria, sim, com certeza, ela poderia estar de cama que levantaria e viria, não se recusaria a ver o jogo comigo. Desliguei o telefone, gritei o apelido do meu marido e mostrei as minhas pernas que estavam arrepiadas.

Quando minha mãe avisou que estava chegando, o jogo já tinha começado há dez minutos. Peguei o primeiro elevador para ajudá-los a saltar do táxi, os abracei e segurei as sacolas que traziam, uma delas com um garrafa de vinho branco que tomamos até o fim e outra com bombons que eu levaria para o trabalho no dia seguinte.

Quase na metade do jogo chegou a minha madrinha e ela tem olhos azuis. Dividimos algumas cervejas que congelavam no copo. É melhor congelada do que morna, não é, minha madrinha? Ela confirmou e encheu a tulipa, que é o tipo de copo que ela considera ideal. Aí comemos pães, amêndoas e pasteis, de frango e de bacalhau, enquanto mostrei a eles os quadros novos, a mini árvore, contei a receita que tinha inventado na noite anterior, e a minha madrinha passou a mão nos azulejos. Foi nessa hora que ela recebeu um telefonema, que já atendeu explicando que não podia se estender. “Aqui está bom à beça”, ela disse, o que me deixou muito feliz, embora tenha fingido que não escutei.

O jogo acabou antes das cervejas e parece que foram três gols, a maioria da Itália, talvez um de pênalti, não tenho certeza. Só sei que, quando fui dormir, fiquei pensando por que às vezes a gente precisa de uma desculpa para ter um momento de genuína felicidade.

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O que não digo

by rosanacaiado em 10 de junho de 2013 | 23:06

sapos

Ir ao homeopata era até então o mais próximo que eu já tinha estado de fazer análise. No consultório da Dra. Sheila, às dez e meia da manhã, depois de dizer a minha idade, peso, altura, os remédios que tomava e as doenças que já acometeram a minha família, comecei a ser questionada sobre minhas maiores angústias e outras intimidades que eu não estava de todo à vontade para revelar.

Cercada de diplomas – e também de cristais e duendes – por todos os lados, Dra. Sheila era uma cinquentona dourada e firme. Anotou as minhas confissões num papel A4 – frente e verso -, e, a respeito das minhas queixas de azia, focou no preto dos  meus olhos e disse:

- Você engole muito sapo, hein?

Com a receita de bolinhas debaixo do braço, fui para casa sob o efeito daquela frase, catalogando em ordem alfabética cada sapo da última semana. Determinada a me livrar da azia, a partir dali eu, que já não era grande fã do silêncio, resolvi não engolir mais nada, o que na prática significava falar absolutamente tudo o que me tocava aos amigos, familiares, chefes, namorados, porteiros, motoristas de taxi e a quem se arriscasse a me acenar com um sapo. Em pouco tempo fiz fama de transparente, depois de franca e enfim de esquentada. No trato amoroso, invariavelmente era a primeira a me declarar – o que é no mínimo arriscado. Levei dois ou três pés no traseiro, entrei em mais brigas do que deveria e perdi alguns relacionamentos valiosos. E a azia, meu amigo, desapareceu.

Quando anos depois voltei a sentir um desconforto entre as costelas, algo que meu corpo identificou de imediato, a Dra. Sheila pulou das minhas lembranças e sentou ao meu lado à mesa de jantar, dourada, com a pele firme – na memória as pessoas não envelhecem. Juntas reconstruimos a cena no consultório, os diplomas e os duendes, também a receita de bolinhas, e depois os sapos, os milhares de sapos que não engoli e que começaram a saltar entre o prato, o copo e a jarra de suco. Dra. Sheila fez perguntas inconvenientes sobre as minhas angústias, que respondi com os olhos fechados, até me dar conta de que não é mais o que não digo que me incomoda, mas o que não ouço.

 

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“Também” termina com eme

by rosanacaiado em 3 de junho de 2013 | 22:59

Eu gostava de sentar no sofá ao lado do meu pai quando só nós dois tínhamos acordado. Era cedo, era sábado e eu lia as respostas de artistas, políticos e personalidades, fantasiando um dia completar frases como “quem levaria para uma ilha deserta” ou “lugar mais esquisito onde já fez amor”, sendo que eu nunca tinha feito em lugar nenhum.

A “palavra mais bonita da língua portuguesa” na maioria das vezes era “amor”. Também aparecia “paz”. Ou “saudade”, porque não tem em outra língua. Os mais exóticos respondiam “libélula” ou “escafandrista”.  Eu responderia “também”.

“Também” é uma palavra tão bonita, poderia ser a mais bonita da língua portuguesa, a minha mais bonita, e dar pinta no jornal de sábado. A língua toca o céu da boca, o lábio superior pressiona o inferior, aumenta-se a intensidade da palavra do meio para o fim por causa do acento no “e”: “Também.” “Também” termina com eme, a letra do abecedário que mais gosto porque é cremosa, além de ser a letra do gemido. O gemido torna o prazer maior, todo mundo sabe, ainda que algumas pessoas evitem.

Não economizo gemidos e “tambéns”. Nem haveria motivo, visto que “também”, a princípio, não tem fim. “Estou com frio”, “Eu também”. O “também” é a prova de que não se está sozinho. “Vou indo”, “Eu também”. “Às vezes me dá uma angústia no peito”, “No meu também”. “Tudo de bom para você”, “Para você também”. “Você está linda”, “Você também”. Claro que se a pessoa estiver amassada, não falo “também”, até porque “verdade” é para muitos a palavra mais bonita da língua portuguesa, quiçá na natureza, assim como “saudade” que só tem na nossa língua, que toca no céu da boca, no lábio superior e no inferior. “Estou com saudades”, “Eu também”. Eu que demoro a sentir, agora estou com saudades. É cedo, eu sei. Você está acordado? Te levo para uma ilha deserta. O sofá era estampado.

 

Leia também: Eu também

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Como se nunca tivesse deixado de existir

by rosanacaiado em 27 de maio de 2013 | 22:54

brigadeiro

Quando chego ao trabalho, vou até a cozinha pegar um copo d’água, que bebo em um gole só.  Na geladeira não sempre mas às vezes está colado um aviso onde se lê “Tem brigadeiro”, o que acho bom e ruim ao mesmo tempo, mas não falo nada ou falo uma coisa querendo dizer outra. Os brigadeiros são robustos e belos, além de deliciosos, sendo que o melhor é poder escolher um dentro da caixa cheia. Não sei como os colegas fazem, mas eu fico alguns segundos hipnotizada, analisando tamanho, cor e formato até eleger o que tomarei para mim, em uma escolha difícil. Mais uma.

Na semana passada, eram dez da manhã, eu já estava de posse do meu brigadeiro e ele era robusto e belo. Achei uma boa ideia guardá-lo até o almoço,até depois do almoço de modo que ele seria a sobremesa. Para tanto, tratei de escondê-lo em um lugar que minha vista não alcançasse ou não resistiria à tentação – no caso (ainda que existam esconderijos melhores), na prateleira acima do monitor, atrás do calendário.

Parece que aquele dia foi, primeiro, corrido e, mais importante, sem angústias, uma vez que não senti em nenhum momento a necessidade de encher a cara de açúcar, e o brigadeiro robusto e belo, além de delicioso, ficou atrás do calendário, onde se manteve intacto.

No dia seguinte, já era final do expediente quando precisei usar o calendário, que peguei com a mão esquerda porque a direita estava ocupada. Foi aí que o mundo parou de rodar,  começou a tocar uma música e, em câmera lenta, levantei o rosto, pisquei algumas vezes e olhei de cima a baixo o brigadeiro robusto e belo, muito belo, o que identifiquei como uma surpresa de mim para mim mesma. Fechei os olhos, soltei o ar (eu estava prendendo a respiração) e contei para todo mundo o que tinha acabado de acontecer, mas ninguém deu bola. Então abocanhei o brigadeiro, o meu brigadeiro que, se não mais exibia o brilho de outrora, de imediato, gemendo, comprovei manter a gostosura usual.

Hoje cedo depois do copo d’água, o aviso estava na porta da geladeira, achei bom e ruim, escolhi um brigadeiro robusto e belo, e escondi de mim mesma no mesmo lugar da semana passada, na prateleira acima do monitor, atrás do calendário. Passada a hora da sobremesa, a despeito das angústias que me apertavam o peito, não o comi, porém tampouco consegui por um minuto tirá-lo da cabeça. Tem dias em que esqueço, mas em seguida o desejo volta como se nunca tivesse deixado de existir.

 

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Natação – parte II

by rosanacaiado em 20 de maio de 2013 | 20:52

 

 Previously on Natação

Primeira aula:

Eu estava esperando uma turma da terceira idade mas não: todos os alunos de terças e quintas às oito são geneticamente evoluídos e poderiam estar nas olimpíadas. Tive câimbras, meu maiô era maior do que o das outras meninas e eu, que achava que resolveria problemas e teria epifanias debaixo d’água, só pensava se iria conseguir alcançar a outra borda.

***

Segunda aula:

Passou depressa. Tudo bem que eu já tinha repetido um, dois, três, respira, um, dois, três, respira novecentas vezes, ficando inclusive sem assunto para este diário. O que importa é que não tive câimbra e, no final da aula, não cometi o erro de entrar no vestiário. A aluna geneticamente mais evoluída entre todas as alunas geneticamente evoluídas faltou.

Terceira aula:

A natação será feita de altos e baixos. Caso ainda não tivesse notado, a aula de hoje serviu para perceber que a anterior tinha sido um alto.

No aquecimento, o professor disse que estou nadando peito errado. Eu achava que era tudo ao mesmo tempo, mas é primeiro a braçada e depois a pernada. “Braçada, respira, pernada”, ele disse. Na teoria ok, mas na prática o corpo não obedece. “Você vai ter que destruir o que aprendeu na infância para conseguir absorver o novo.” Fiquei olhando para a cara dele, repeti em voz baixa “braçada, respira, pernada”, puxei o ar, mergulhei e nadei torto. Parecia que eu não estava saindo do lugar, e que iria me afogar, mesmo sabendo que a piscina dá pé. “Ainda não consegui destruir”, respondi.

Fui e voltei da academia de roupão branco, como os vovôs da hidroginástica. A diferença é que os vovôs, além de serem vovôs, fazem aula às sete da manhã. Às oito da noite não tem ninguém de roupão além de mim. No elevador, estavam eu, meu chinelo, meu roupão, minha toalha, meu cabelo molhado, meus olhos marcados pelos óculos, minha testa marcada pela touca, quando entrou uma mulher de 50 anos, calça social, cinto, escova, e me olhou de cima a baixo. Ignorei. Havia uma pequena poça em volta de mim. Ignorei. Mas por dentro senti vergonha.

Quarta aula:

Mesmo tendo comido duas bananas e doze amêndoas, tive câimbra. Não se pode dizer que não estou me esforçando. Olhei para o relógio a cada chegada mas os ponteiros estavam parados. Minha cabeça: braçada, respira pernada; braçada, respira pernada. Meu corpo: braçada, respira, braçada, braçada, pernada, respira, pernada, braçada e pernada.

Quinta aula:

Eu e o meu roupão nos arrastamos até a piscina. Muitas pessoas olharam para nós de cima a baixo, mas deixamos para lá. A piscina estava cheia, a aluna geneticamente mais evoluída dividiu a raia comigo. Eu tinha acabado de fazer uma chegada de peito, repetindo braçada, respira, pernada como um mantra, e pressentindo que seria dia de câimbra. Olhei para o professor, o professor olhou para mim. Eu pequena, apoiada na borda, óculos embaçados, touca apertada. O professor, seco, um pouco mais alto quando se olha de baixo para cima, cavanhaque, expressão séria, disse: “Vou fingir que não vi essa chegada, porque foi horrorosa.” Senti o sangue nadar até a minha cabeça. Olhei para o professor, o professor estava olhando para mim, para minha cara deformada, e tive vontade de mandar ele se danar mas disse apenas: “Você é um grande incentivador.” E continuei nadando.

Até o outro lado da piscina, pensei que, “horrorosa???”, eu estava me esforçando, aquele professor é que não sabia ensinar ou eu já teria aprendido, ele que vestisse uma sunga embaçada, pusesse óculos apertados e uma touca horrorosa antes de vir falar comigo, ele que ousasse me oferecer o pé de pato e eu o arremessaria contra a sua cabeça. Nunca, nunca mais voltaria àquela piscina.

Enquanto rascunhava mentalmente cada palavra do parágrafo acima, me dei conta de que tinha conseguido pensar em outra coisa que não braçada, respira, pernada; braçada, respira, pernada. E aí veio a epifania: a raiva – ainda que todo mundo fale mal dela -  é uma bela força motora. Vá lá, não foi uma grande epifania mas a primeira desde que tinha começado a fazer aulas de natação.

Na sequência o professor pediu uma chegada só de pernada, o que fiz; depois outra adicionando uma braçada bem curta, o que fiz; e por fim aumentando a braçada, o que também fiz de modo que, sem sofrer ou repetir frases sem verbo, eu estava enfim nadando um peito digno.

(continua?)

 

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Natação – parte I

by rosanacaiado em 13 de maio de 2013 | 23:38

nataçao - Cópia

Primeira aula:

Passadas as coordenadas para o resto da turma, era a vez de dar atenção à novata. O professor olhou na minha direção e pediu quatro chegadas, uma de cada nado. Dentro do maiô catalina, sob a touca que apertava o crânio e debaixo dos óculos que embaçavam a vista, não tive opção além de perguntar o que era chegada.

Desde a matrícula eu repetia para mim mesma que nadar era uma boa ideia, nadar é uma boa ideia, nadar é uma boa ideia, inclusive quando acordei na madrugada de quarta para quinta às duas da manhã, preocupada com o que aconteceria depois que eu pulasse na piscina às oito da noite. Se tudo desse errado, eu tentava me convencer, ainda poderia me enfiar na aula de Muay Thai, Hatha Yoga, MMA Fitness ou Ritmos latinos, embora não soubesse ao certo o que aqueles nomes queriam dizer.

Um dia antes, eu tinha espiado a piscina pela janelinha. Lá estavam três alunos, todos da minha idade para mais. Um senhor de pelos grisalhos boiava na raia da direita. Na da esquerda, uma mulher de sunguete e camiseta nadava peito, só que com a barriga para cima. No canto, um garoto fazia reabilitação. Todos pareciam se divertir, compondo um clima amigável e acolhedor.

No dia seguinte, no mesmo horário e assim que tirei o roupão, percebi que a turma, no caso a minha, não tinha absolutamente nada a ver com a que eu tinha bisbilhotado: agora eram nove criaturas, das quais pelo menos a metade poderia dividir, além da raia, o pódio das olimpíadas; aliás, poderia também dividir a passarela do Fashion Rio. Sem saber, eu tinha me matriculado na turma dos geneticamente evoluídos, que nadavam bem e rápido, o que me fez sentir intimidada antes do primeiro mergulho.

“Chegada”, disse o professor, “é ida e volta na piscina”, fazendo parecer muito fácil. No meio do caminho, porém, percebi que a distância era como Rio-São Paulo.

Confessei que, na minha ligeira e traumática passagem pela escolinha do Tijuca Tênis Clube, não tinha aprendido a nadar golfinho, e então tratei de mostrar todo o meu crawl, depois meu peito e então meu costas sem técnica e sem fôlego, torcendo para ninguém estar olhando pela janelinha, e para a aula acabar logo, mas ainda estávamos nos primeiros dos 50 minutos. Quando começou a câimbra na panturrilha direita, achei que a morte por afogamento estava próxima. Aí deu na esquerda, depois no pé, e fui obrigada a sair da piscina para me alongar, oferecendo – ou impondo – aos demais uma ampla visão do tamanho avantajado do meu maiô, que, aposto, seria a primeira escolha apenas das avós dos ilustres desconhecidos com quem eu dividia a piscina. Era melhor pular na água de volta o quanto antes.

Eu tinha fantasiado que, entre uma braçada e outra, teria várias epifanias, tomaria decisões difíceis, perdoaria erros do passado, mas durante aquela primeira aula só pensava se iria conseguir alcançar a borda, puxando o ar como um asmático que esqueceu a bombinha. O professor, notando a minha expressão de desamparo, falou algumas palavras de incentivo. E por algum motivo que não sei explicar, mas só pode ter sido providência divina, consegui bater os braços e as pernas até o fim. Tirei os óculos, depois a touca e saí da piscina achando que tinha completado o desafio, sem atentar para o fato de que ainda encararia o vestiário, onde descobriria não só que tinha esquecido o pente como também que meu rímel tinha escorrido bochecha abaixo e que as  alunas geneticamente evoluídas compartilhavam o hábito de colocar o assunto em dia nuas. Completamente nuas. Peguei minha roupa na mochila e fui trocar no reservado.

Ritmos latinos pode ser uma boa ideia.

(continua)

 

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Até que: eu te amo

by rosanacaiado em 15 de abril de 2013 | 23:10

o mundo se divide em

Millôr disse uma vez que o mundo se divide entre os que acham e os que não sabem onde botaram. A partir daí, nas redes sociais internet afora, mil gracinhas brotaram com o mesmo mote: o mundo se divide entre os que acham que o copo está vazio e os que juram que está cheio; entre os que gostam de gato e os que preferem cachorro; entre as mal comidas e as mal faladas; entre os que trabalham e os que têm tempo de ficar pensando em como o mundo se divide. Particularmente eu achava que o mundo se dividia entre os que descascam a banana toda e os que a comem com a casca pendurada. Até que:

Era um desses encontros de amigas de infância em que um assunto passa por cima do outro, sendo todos necessariamente cabeludos: fantasias, lugar mais esquisito, sexo depois dos filhos, silicone, traição, até que: eu te amo. E eu te amo é um dos meus assuntos preferidos. Quando a Carol, apelido não necessariamente fictício, disse que jamais tinha dito eu te amo para o marido, quase caí para trás.

- Nunca? – perguntei.

- Nunca – ela disse com um sorriso.

Diante das minhas sobrancelhas ao alto e do silêncio na sala, ela apontou o nariz para o teto, cerziu os olhos procurando um eu te amo na memória, tirou o primeiro ano de namoro das gavetas, espanou os seguintes, estava quase desistindo até que:

- Ah, teve uma vez.

Ufa, pensei.

- E como foi? – perguntei. Minha imaginação em forma de mosquinha voando sobre uma noite romântica, luz de velas, olho no olho, vinho, gelo seco.

- Por escrito – ela disse.

A gargalhada foi geral – exceto por mim. Mas, pensando bem, os dois não dizerem eu te amo um para o outro não significa que eles não se amem de fato – nem que sintam falta de trocar juras. Têm um casamento sólido, já longo, dois filhos que mais parecem príncipes, se dão bem, são sócios no trabalho e parceiros de vida. Sendo ambos não muito afeitos a demostrar sentimentos, o que haveria de errado em nunca dizer eu te amo?

Complicado seria o casamento de uma pessoa que é dada a declarações de amor com uma que prefere guardar seus afetos em silêncio, porque – aí sim – um mundo as dividiria.

 

A coluna entra de férias e volta no dia 6 de maio.

 

Leia também:

O primeiro Eu te amo

Eu também

Apesar de

 

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Macarrão maneiro

by rosanacaiado em 8 de abril de 2013 | 20:44

smile

Eu queria que você conhecesse todas as minhas camisolas

inclusive a branca, de renda,

e a rosa de bolinha.

Eu queria dormir

e depois acordar

e aí rolar

e subir

em você.

Eu queria que você passasse a mão

no meu gato

e no meu cabelo

quando está molhado.

Eu queria te convidar para jantar

e na sobremesa estar de pileque.

É que eu faço um macarrão maneiro

e queria que você soubesse.

 

Eu queria mesmo é que você me quisesse,

que você me amasse,

me levasse e me apertasse

daqui até o fim

de semana.

Eu queria inteiro, eu queria o meio,

mas a gente só tem começo.

 

Não sei se o nome é  namoro,

casamento, rolo,

se é isso o que chamam de viver.

Se é pecado,

cisma, plano

ou só imaginação.

Mas que eu queria,

eu queria.

 

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Eu, nua

by rosanacaiado em 1 de abril de 2013 | 23:16

disney

 

Da primeira vez que fiquei nua, toda nua, na frente de um homem não me lembro. Mas como bem disse a Ivana, foi aos poucos.

Primeiro, o sutiã. Quando a mãe do meu primeiro namorado saiu, nos deixando sozinhos à tarde, em uma casa de vila na Rua dos Araújos, fiquei de sutiã no meio da sala. Sutiã e calça jeans. O sutiã era branco. Três dias depois permiti que ele visse um peito. Depois contei para as minhas amigas. Demorou mais algum tempo até que ele pudesse ver o outro peito e finalmente os dois de uma vez só, quando o sutiã, rosa, ficou em cima da almofada do sofá, em junho de 1992, um dia antes de eu viajar para Disney, e no avião reviver aqueles momentos de contrair o abdome, um misto de excitação e culpa, muita culpa.

Tirar a calça jeans deu trabalho. Mesmo que a luz estivesse apagada, eu pedia que o meu namorado fechasse os olhos. Se era à tarde, enquanto a mãe dele dava aulas de piano, pedia que puxasse as cortinas. E, com a mesma intensidade, pedia que ele gostasse de mim e que ficasse comigo pelo resto da vida. O excesso de pudor, por um lado, e de romantismo, por outro, típicos do primeiro amor, podiam parecer frescura ou – dependendo do olhar -  frescor, mas sem dúvida e sem que fosse essa a intenção alimentou um desejo feroz, o qual nunca é má ideia experimentar.

O dia em que deixei a calcinha escorregar pelas pernas e fiquei pelada na frente de um homem pela primeira vez infelizmente não consta das minhas lembranças. Não que não tenha sido importante. Mas aconteceu depois de tantas traves, que era tirar tudo ou ser virgem para sempre, ainda que tenha levado uma eternidade até que eu de fato deixasse de ser uma, em outubro do ano seguinte, no Dia das Crianças.

 

Leia também:

O Caracol, o Beija-flor e o Cumprimento das damas

 

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Onde a sua pele é mais clara

by rosanacaiado em 25 de março de 2013 | 17:54

chuveiro desenho

Você no chuveiro.

A luz está acesa e a ducha, forte.

A sua mão, os seus dedos, as suas unhas curtas, os seus dedos curtos, a sua mão espalmada na parede, no alto, o seu braço estendido para cima, o braço esquerdo, a mão esquerda espalmada no ladrilho.

A curva das suas costas. Os lugares onde a sua pele é mais clara. As suas pernas.

Eu estou na porta do banheiro. Você está de lado para mim, de olhos fechados, mas não é por isso que não me vê.

Você olha para cima.

Depois pisca e olha para baixo.

De olhos apertados, para cima.

Você desliza a mão esquerda pelos azulejos, pousa o antebraço esquerdo nos azulejos e a testa, no antebraço. As suas costas se inclinam para a frente. A ducha acerta a sua nuca e parte dos seus ombros. Vejo quando você dobra um pouco as pernas, só um pouco. Acelera.

Você deixa escapar um gemido contido,

tão diferente de quando está comigo,

sofrido.

Continua no balanço, agora lento, e esse momento é tão bom.

Eu sinto calor.

E você olha para o lado, para a porta do banheiro, mas não estou lá.

 

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perfil

Rosana Caiado Ferreira nasceu no Rio de Janeiro em 1977. Formada em Comunicação Social, é escritora e roteirista. Participou do livro "Como se não houvesse amanhã" (Editora Record) com um conto escrito a partir da música “Eduardo e Mônica”. Mantém o blog Complete a frase. Para entrar em contato, escreva um email para rosanacaiado@gmail.com