Seu pai quer ver o jogo, disse minha mãe no outro lado da linha. Como eu nem sequer sabia que ia ter jogo, perguntei: Que jogo? E minha mãe, da sala, gritou para o meu pai, na cozinha: Que jogo é esse, meu bem? E alguns segundos depois ela: México e Itália. Vai ser a que horas?, perguntei. E ela gritou: Meu bem, vai ser a que horas? E depois no telefone: Às quatro.
Do sofá, perguntei ao meu marido, na varanda: Quer ver o jogo do México? E ele respondeu: Quero ver o jogo da Itália. E demorei alguns segundos para me dar conta de que era o mesmo jogo. Meus pais, que não vinham aqui em casa há algum tempo e não conheciam os quadros novos, os azulejos, e a mini árvore, chegariam em pouco tempo para vermos o jogo.
Começamos então a arrumar a casa, lavando louças, passando a vassoura e colocando objetos em seu devido lugar- alguns foram escondidos dentro do armário. Por que você não convida a sua madrinha ?, perguntou meu marido. Para ver o jogo?, eu. E ele: Você disse que queria se aproximar dela. Melhor não, está em cima da hora, eu disse, mas em seguida lhe dei um beijo e peguei o telefone, disquei o número de cabeça e, quando a minha madrinha atendeu, fiz o convite. Ela então perguntou: Que jogo? E eu: o jogo da Itália, Itália e México. Começa às quatro. E ela, recém-operada, disse que viria, sim, com certeza, ela poderia estar de cama que levantaria e viria, não se recusaria a ver o jogo comigo. Desliguei o telefone, gritei o apelido do meu marido e mostrei as minhas pernas que estavam arrepiadas.
Quando minha mãe avisou que estava chegando, o jogo já tinha começado há dez minutos. Peguei o primeiro elevador para ajudá-los a saltar do táxi, os abracei e segurei as sacolas que traziam, uma delas com um garrafa de vinho branco que tomamos até o fim e outra com bombons que eu levaria para o trabalho no dia seguinte.
Quase na metade do jogo chegou a minha madrinha e ela tem olhos azuis. Dividimos algumas cervejas que congelavam no copo. É melhor congelada do que morna, não é, minha madrinha? Ela confirmou e encheu a tulipa, que é o tipo de copo que ela considera ideal. Aí comemos pães, amêndoas e pasteis, de frango e de bacalhau, enquanto mostrei a eles os quadros novos, a mini árvore, contei a receita que tinha inventado na noite anterior, e a minha madrinha passou a mão nos azulejos. Foi nessa hora que ela recebeu um telefonema, que já atendeu explicando que não podia se estender. “Aqui está bom à beça”, ela disse, o que me deixou muito feliz, embora tenha fingido que não escutei.
O jogo acabou antes das cervejas e parece que foram três gols, a maioria da Itália, talvez um de pênalti, não tenho certeza. Só sei que, quando fui dormir, fiquei pensando por que às vezes a gente precisa de uma desculpa para ter um momento de genuína felicidade.







