Tenho sido perguntada insistentemente sobre quais os limites para a beleza e a vaidade. Até onde podemos ir, afinal? Podemos modificar impunemente nossos corpos até não guardarmos quase nada de nossos traços originais? Como definir o que é realmente feio ou bonito, a despeito de modismos e circunstâncias?
Se considerarmos o destino do gênero humano, desde que surgimos na Terra nosso instinto tem sido vencer a Natureza, sobrepujar as dificuldades, sobreviver, adiar o envelhecimento e a morte. É o mesmo instinto que fez com que evoluíssemos desde o tempo das cavernas.
Não se peca ao sonhar, ao ambicionar. A medicina alongou nossa vida e tenta lhe dar mais e mais qualidade. É natural que as pessoas queiram aproveitar esta vida mais comprida e melhor, com aparência correspondente, com idade indefinida, aspecto físico que não as divida em faixas etárias rígidas e preconceituosas. Se as mulheres estão tendo seus filhos após os 40 anos, é compreensível que os queiram buscar na escola aos 50 sem que sejam confundidas com avós. Executivos brilhantes de 65 anos querem se mostrar bem dispostos e dinâmicos aos olhos de seus subalternos e superiores. Jovens com narizes inestéticos não querem esperar que as manhãs douradas da juventude passem para enfim corrigi-los nas cinzentas tardes da maturidade!
Ao ser humano é permitido, sim, querer, pedir, sonhar, criar, ousar – ou Deus não nos teria dado esta faculdade! Cabe ao médico, dermatologista, cirurgião plástico orientar pessoas para que a busca de beleza não as torne caricatas, datadas, deformadas em vulgares transformações, incapazes de atingir o "esplendor da ordem", como Aristóteles já definiu a beleza.
Cabe também às famílias, aos educadores e à imprensa mostrar que a busca da beleza é positiva, desde que não se torne obsessiva, cega, insensata e egoísta, roubando o indivíduo do milagre diário da vida, do cotidiano, do prestar atenção às pessoas, do prazer e da dor de se estar vivo, descentralizando-se de si mesmo. Isto nos reverte em entusiasmo e alegria – sinais de triunfo! "A beleza é um acordo entre o conteúdo e a forma", nos ensinou Ibsen, o dramaturgo norueguês do século XIX.
Freqüentemente, os tais "limites" são ultrapassados justamente em pacientes que transformam a busca da beleza na questão primordial de suas existências, olvidando aspectos inestimáveis como o trabalho, a dignidade, solidariedade, coragem, compaixão, responsabilidade. Essas frágeis criaturas podem cair em mãos em que falta a autoridade para coibir o que será danoso. Surgem, assim, as pessoas marcadas por traços caricaturais, estiramentos excessivos da pele, lábios e bochechas anormalmente infladas, cicatrizes decorrentes de cirurgias desnecessárias, corpos que acompanham a moda passageira e regional lançada por alguma novela e que parecerão ridículos ou mutilados em poucos anos.
Os símbolos de status e objetos de desejo mudaram muito nos últimos 30 anos. Em grande parte das sociedades urbanas ocidentais é mais importante parecer jovem que parecer rico, diferentemente do que no passado recente da década de 50.
Liberaram-se as formalidades no vestuário, no comportamento, no linguajar e costumes, mas enrijeceram-se as exigências físicas. Uma mulher de 40 anos, de classe média, mãe de três filhos, não poderá mais se dar ao luxo de ostentar dez quilos a mais sem que seja duramente criticada. As mulheres são particularmente vulneráveis às influências da mídia, da TV, da propaganda e precisam ser protegidas com especial cuidado, já que o comovente e inato "desejo de agradar" feminino pode levá-las a desfechos irreversíveis.
Não há "excesso de toxina botulínica" ou "número limite de plásticas". O que existe são pessoas desorientadas, submetendo-se às mãos de profissionais inábeis ou destituídos do senso estético e refinamento que só a cultura e o conhecimento podem dar. Não só o conhecimento técnico, mas a cultura geral, noções aprofundadas de História e Arte.
Médicos experientes, treinados e cultos serão os anjos guardiões contra tudo o que for grotesco, vulgar, perigoso, padronizado! Estes mesmos médicos terão também um olhar no futuro, avaliarão as conseqüências de seus atos e avanços, não só para o indivíduo, mas para a Humanidade.
Não teremos todas as respostas, é claro, mas nos sentaremos juntos nos congressos de Medicina, de Ciência e Ética e humildemente confessaremos uns aos outros nossas dúvidas e inquietações. E assim teremos dado mais um passo, num caminho sem limites!