» desejoJose Guilherme Vereza

Uma vez Vanessa

Vanessa chega no chopp com os amigos, sempre sozinha – e, segundo ela, sempre bem acompanhada…

by jose guilherme vereza em 7 de março de 2010 | 23:52

Bem poderia se chamar Gabriela, pelo seu cheiro de cravo, sua cor de canela.

Bem poderia ter nascido na Tailândia ou Havaí, e hospedar flores coloridas nos cabelos fartos e estonteantes.

Aqui,uma licença a Machado: cabelos de ressaca, cujas ondas tragam incautos às ilusões e fazem marmanjos rastejar. + Leia mais

Homens bonitos

by jose guilherme vereza em 28 de outubro de 2009 | 0:00

Quando o piloto australiano Marc Webber subiu no pódio do GP de Interlagos, Carlos Afonso comentou com a mulher:
- Que homem bonito.
- Bonito não, lindo!

Amargou um ciuminho secreto e barato, mas manteve a fleuma e devolveu com soberba.

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Por um instante

by jose guilherme vereza em 12 de maio de 2009 | 21:00

Marlene entrou pela porta dos fundos do apartamento carregada de sacolas de supermercado. Ligada no piloto automático, perguntou a Nilcimar, sem olhar para a empregada.
- Alguém ligou, Nil?
- Ligou, sim senhora. Adriane da Sex Shop.
Por um instante, Marlene não entendeu. Olhou fixo para Nilcimar.
- É isso mesmo, Dona Marlene. Adriane da Sex Shop ligou para o Dr. Ricardo.
Por um instante, Marlene desconversou.
- Me ajuda arrumar as compras, Nil. Estou muito cansada. Essa lombar está me matando.

Marlene entrou no quarto e se jogou na cama. Sandálias foram arremessadas à distância. Pernas sobre o travesseiro latejavam. Por um instante, quis matar Ricardo. Como pode? Ele estaria aprontando com uma vendedora de Sex Shop. Patife. É por isso que não procurava mais a mulher. É por isso que andava caladão, pelos cantos. Casamento ramerrame, marido que vira irmão. Tudo muito companheiro, tudo muito previsível, tudo muito sem graça.

Por um instante, Marlene teve um raio de imaginação. Amanhã seria seu aniversário de casamento. Claro. Ricardo estaria inventando uma surpresa. Por um instante, Marlene se viu dentro de uma lingerie de enfermeira. Calcinha cavada, triângulo minimalista na frente, fio imperceptível atrás, seios exibidos por uma transparência branca, uma cinta liga sobre os joelhos com uma rosa vermelha costurada em cetim, um termômetro preso entre os dentes de uma boca semiaberta pelos lábios carnudos e carmins.

‘ Por um instante, amou Ricardo como há muito não amava. Sentiu um homem inteiro e amoroso, criativo e surpreendente, meigo e feroz

Por um instante, Marlene vislumbrou Ricardo vestido de bombeiro. Quase nu. Mangueira pulsante na mão, machadinha entre os dentes. Cueca viril, de volumoso conteúdo. Cáqui e vermelha. No ponto mais proeminente da sunga libidinosa, um brasão de tochas cruzadas alimentando uma chama única, ereta em direção aos céus.

Por um instante, Marlene sentiu a chama percorrendo as pernas desejosas até o encontro das coxas, a esta altura, já com a ponta da calcinha à mostra, saia levantada, pensamento às alturas. Por um instante, Marlene imaginou vibradores anatômicos visitando sua geografia recôndita, vagando pela relva bem cuidada, passeando por todas as bordas e profundezas.

Por um instante, lembrou das amigas dizendo maravilhas do admirável mundo das sex shops, com seus rabbits autossuficientes, brinquedinhos amorosos, chicotes, gargantilhas tacheadas e algemas de falsas peles de onça, morangos de mentirinha para serem chupados a dois, colares de pompoarismo, anéis para potências eternas, géis de menta, fluidos lubrificantes de hortelã.

‘Recompôs-se de imediato e viu-se de pé, mesmo que ainda ofegante, diante da aparição indiscreta da empregada

Por um instante, fez de suas mãos o fetiche imaginário. Fiel e comportada, viajou com o próprio marido engalanado de soldado do fogo, carrasco dentro de si, arfando e sugando seus lóbulos e mamilos, sussurrando promessas indizíveis, elogios impublicáveis, excitações vulgares.Por um instante, amou Ricardo como há muito não amava. Sentiu um homem inteiro e amoroso, criativo e surpreendente, meigo e feroz. E ainda por cima, romântico como nunca foi, capaz de celebrar em grande estilo a esquecida data do aniversário de casamento.

Por um instante, Marlene quase chegou lá. Interrompida pela falta de traquejo de Nil, recompôs-se de imediato e viu-se de pé, mesmo que ainda ofegante, diante da aparição indiscreta da empregada.
- Dona Marlene, é a moça da Sex Shop no telefone. Dessa vez quer falar com a senhora.

Por um instante, Marlene pensou em não atender. Fosse o que fosse, não queria estragar a surpresa de Ricardo. Muito menos saber que não era nada do que imaginava e que ele estaria de fato comprando produtos bizarros para relacionamentos além lar. Por um instante, Marlene tomou coragem. E atendeu ao telefone.

- Dona Marlene, aqui é da Flex Shop.
- Flex Shop?
- É sim. Flex Shop Eletrodomésticos. Seu marido, Dr. Ricardo, comprou uma máquina de lavar roupa e mandou perguntar à senhora a que horas nosso técnico pode fazer a instalação.

Por um instante, Marlene quis bater em Nil.
E no instante seguinte, Marlene voltou a ser Marlene.

O mergulho

by jose guilherme vereza em 17 de março de 2009 | 21:00

Que coragem que nada.

Bastou Maria Eulália ouvir dizer da maior atração do novo parque de diversões da cidade, um bungee jump de 130 metros de altura, para despertar sua inquieta curiosidade pelo desconhecido. Decidiu pelo mergulho e pronto, ninguém precisou saber disso. Foi num dia comum, logo que o parque abriu suas portas, entre dez e onze da manhã. Olhou a lonjura do topo da torre até doer o pescoço. Fez sinal da cruz, pegou o elevador – uma gaiola que subia rangendo e deixando a cidade em miniatura. Lá em cima, deixou-se amarrar.

E nem pestanejou.

A primeira sensação foi o vento cortando o rosto, criando rugas e pregas com sobras de pele. Os olhos foram obrigados pela obviedade da Física a ficarem bem fechados, o que impedia qualquer espiadela para ver o que estava acontecendo em volta. Tentou movimentar pernas e braços, mas percebeu que não tinha controle sobre nada. Era um crucifixo estático voando de cabeça para baixo.

Enfim, o nada.

Os ares de uma liberdade jamais provada foram batendo no seu corpo, numa velocidade fria e vertical. Veio também a certeza plena e incontestável de que não podia deixar escapar a única chance na vida de se sentir dona absoluta de si mesma.

E Maria Eulália viajou.

Primeiro foi à Europa, onde se entupiu de vinho, museus e perfumes. Depois, à África negra, quando as savanas e as hienas pareciam jardins e bichinhos de estimação. Achou chato. Partiu logo depois para a Oceania, aportou em Hong Kong, deslumbrou-se com os néons de Tóquio, foi direto para Nova York, onde encheu sacolas e o saco de tanto passar cartão de crédito. Cansou. Preferiu sensações mais intimistas.

Como por exemplo, a felicidade secreta de ser reconhecida, rica, famosa, respeitada. Experimentou também o aconchego de uma família amorosa, com a completude de um raro marido, filhos, empregada de forno e fogão, faxineira, passadeira, carro do ano na garagem e cachorro que não faz cocô no tapete.

‘Experimentou o Kama Sutra em praias, poltronas de primeira classe de avião, últimas filas de cinemas, caçambas de roda gigante, bancos de fusquinha.

Dos filhos, deu pra ver bem as suas caras.

Eram lindos, sadios e inteligentes. Os primeiros já eram adultos formados pela vida e pela melhor das universidades. A caçulinha, uma coisa linda e espevitada, olhos azuis e pele dourada, preferiu outras trilhas: foi finalista no Big Brother e acabou posando nua na Playboy. Que se danem os vizinhos. Naqueles instantes intermináveis e vertiginosos, Maria Eulália era senhora absoluta das suas opiniões, caprichos e desejos, e em nome deles mergulhou mais ainda. Comeu pato assado com carambola, strogonoff de salsichão, bebeu vinho branco com picanha, cuspiu arroz trufado e pediu doce de abóbora de sobremesa. Mostrou a língua pro maitre metido a besta e arrotou.

Gostosos momentos.

Resolveu variar os sabores. Da mesa do restaurante granfino, saiu à cata dos meninos que não namorou nos tempos da escola e, mesmo podendo encontrar todos, preferiu um só, exatamente aquele de quem nunca tinha recebido ao menos um picolé. E foi fundo. Urrou de gozar por todos os poros. Revisitou seus âmagos o mais que pode, tantas vezes quis. Enjoou do rapaz, asco súbito. Pegou outro, mais outro e mais outro, tantos que enfileiravam-se aos seus pés. Recebeu flores de cada um deles, a cada dia seguinte. Experimentou o Kama Sutra em praias, poltronas de primeira classe de avião, últimas filas de cinemas, caçambas de roda gigante, bancos de fusquinha. E ainda inventou novas formas de amar e ser amada.

Quando se sentiu realizada e feliz, fez uma força imensa para abrir os olhos, enfrentando o vento que castigava as bochechas, lhe comprimia os peitos, e eternizava um sorriso sincero e restaurador. Tinha que espiar só um pouquinho o que de fato e de real se passava em sua volta.

Dos sonhos, restavam apenas alguns centímetros.

Nem teve tempo de sentir saudade.

Foi puxada subitamente para cima pelo feixe de elásticos e nylon, preso aos pés e à cintura. E como um iô-iô perdendo a sua força, lembrou que tinha esquecido a panela de feijão no fogo.

Talvez queimasse o almoço.

Talvez apanhasse do marido.

Eu desejo a você

by jose guilherme vereza em 10 de março de 2009 | 21:00

Tenho trauma de conselhos. Não dou. Não vendo. Não empresto. Às vezes até considero, mas isso não vem ao caso. Aproveitando a esteira de 8 de março, transformo o que seriam conselhos idiotas do alto de um pedestal – que não subo de jeito nenhum -, em desejos sinceros do fundo do coração para as mulheres que tanto respeito, admiro, invejo, preciso e me encanto.

Cada uma pode escolher o desejo que melhor convier. Ou vários. Ou todos. Ou alguns. Ou nenhum. O importante é que meu desejo de desejar fique cristalino e sirva, no mínimo, de reflexão. Ou de risada. Ou de indignação. Você escolhe. Na lista que se segue, coloque antes da frase, do verbo ou da palavra um "eu desejo que você:" ou "eu desejo a você:". Combinado? Vamos aos desejos.

Viva. Muito. Faça exames de saúde. Faça check ups. Faça preventivo. Faça exercícios. Sempre. Seja bela. Sinta-se bela. Seja gorda. Seja magra. Cuidado com a anorexia. Coma carne. Seja vegetariana. Beba muita água. Use protetor solar. Passe fio dental. Toque em seus seios. Toque em seu coração. Ame. Muito. Encontre um amor companheiro, não importa o sexo. Sexo. Goze. Muito. Por amor ou só por tesão. Tome cuidado. Tome pílula. Use camisinha. Mande o parceiro ao médico. Proteja-se. Fuja da gravidez indesejada. Seja tolerante. Seja compreensiva. Seja exigente. Exija carinho, respeito, e mais e mais e mais e mais, yes, yes, yes, yeeeesssss.

‘Tenha horror a ditaduras. Seja ética. Vote em quem mereça seu voto. Procure o Procon. Reclame de seus direitos. Cumpra seus deveres. Duvide de certos deveres. Respeite a constituição.

Saiba dizer não. Saiba dizer sim. Saiba dizer não sei. Denuncie agressores. Conte com as Delegacias da Mulher. Pense sobre o aborto. Se for contra, seja contra. Se for a favor, seja a favor. Acredite em Deus. Acredite nos deuses. Acredite no seu Deus. Acredite em nenhum Deus. Acredite na ciência. Acredite em duendes. Acredite que vai. Acredite que não vai. Acredite em você. Acredite na humanidade. Acredite que você tenha dúvidas. Tenha amigas. Tenha amigos. Considere inimigos. Considere inimigas. Saiba perder. Saiba vencer. Saiba nem querer jogar. Seja criança. Seja adolescente. Seja adulta. Cometa loucuras. Respeite a sinalização. Tenha filhos. Adote filhos. Não tenha filhos. Adote um cachorro. Compre um batom. Troque o óleo do carro. Calibre os pneus. Seja criativa. Seja produtiva. Apaixone-se. Case-se.

Entenda de futebol. Adore futebol. Desligue a televisão na hora do futebol. Coma chocolate. Faça regime. Brigue com o namorado. Arranje outro namorado. Não fume. Respeite quem fuma. Beba com moderação. Se for dirigir, nem beba. Segure a raiva. Bote a raiva para fora. Faça o teste do bafômetro. Não molhe a mão do guarda. Diga não à corrupção. Diga não á violência. Não aceite bala de estranhos. Não aceite a bala perdida. Exija segurança. Exija saúde. Exija educação. Exija compostura dos políticos. Tenha horror a ditaduras. Seja ética. Vote em quem mereça seu voto. Procure o Procon. Reclame de seus direitos. Cumpra seus deveres. Duvide de certos deveres. Respeite a Constituição. Faça alguma coisa para mudar a Constituição.

‘Fique confiante. Fique desconfiada. Fique magoada. Fique radiante. Fique sensibilizada. Fique fria. Fique quente. Fique inquieta. Fique bem.

Aprenda a cozinhar. Não queira nem cozinhar. Peça ao marido para fazer a cama. Ponha o namorado para lavar pratos. Arrume uma mesa de jantar. Desarrume uma cama fazendo sexo. Sexo? De novo? Sempre. Muito. Com prazer, carinho, desprendimento e segurança. Seja independente. Saiba usar o cartão de crédito. Tenha cuidado com juros. Não compre nada que não possa comprar. Compre tudo que queira – e possa – comprar. Defenda seus filhos. Defenda os filhos dos seus filhos. Defenda os filhos dos filhos dos outros.

Defenda o planeta. Não jogue lixo fora da lixeira. Exija lixeiras. Recicle o lixo. Não desperdice água. Economize energia. Torça por energias alternativas. Invente energias alternativas. Leia jornal. Critique jornal. Leia livros. Escreva livros. Vá ao cinema. Faça cinema. Vá ao teatro. Faça teatro. Veja mais televisão. Veja menos televisão. Veja novela. Deteste novela. Use a Internet. Opine. Discorde. Concorde. Bata palmas. Chore. Fique irritada. Fique triste. Fique confiante. Fique desconfiada. Fique magoada. Fique radiante. Fique sensibilizada. Fique fria. Fique quente. Fique inquieta. Fique bem. Fique feliz. Do jeito que você é. Seja qual for o seu jeito. Seja qual for o seu desejo.

Réveillons

by jose guilherme vereza em 30 de dezembro de 2008 | 21:00

Numa festa de réveillon, o prognata se apaixonou pela dentuça. E vice-versa. Foi amor à primeira vista, nos últimos momentos do ano que ia embora. Conversaram futilidades, profundidades, papos-cabeça, bobagens de matar e morrer de tanto rir.

Deram-se as mãos, saltitaram pela pista, dançaram de rostos colados. Quando explodiu meia-noite, jogaram champanhe um no outro, fizeram tim-tim, beberam as taças num gole só e, olhos nos olhos, tentaram um beijo ardente.

Tentaram. Mas não conseguiram.

Era dente contra dente. Nada se encaixou.

‘Beijo tem que ter dignidade

Lábios se desencontraram. Línguas se engalfinharam. Queixos não se entendiam. Narizes se abalroavam. Uma lambança. De deixar tudo babado em volta das bocas.

O prognata ainda tinha um bigodinho sem vergonha. A dentuça, um batom ordinário, com sabor de cereja com canela.

Não deu certo o quase namoro. Nem esperaram o ano clarear.

Mal se despediram e nunca mais se falaram.

Beijo tem que ter dignidade.

* * *

Todo fim de ano é assim.

Cristina abre o chuveiro pouco antes da meia-noite e decide resolver a vida no último banho do ano. Nada escapa da sua lista de planos, desejos, decisões e resoluções.

A solução dos problemas, a idéia para a reunião, as férias com os amigos, quem vai dormir com quem, o destino dos claudicantes, a escalada dos miseráveis, a sentença dos patifes, o caso da Palestina, o aquecimento global, o paradeiro de Osama, a obviedade dos enigmas, o mistério das profundezas, o voto, o imbróglio, a equação, o dilema, o presente da Ana, o lugar para malhar, o fim do namoro, a questão do decoro, a reforma do armário, as roupas para os pobres, limpar as gavetas, arrumar a estante, encaixotar livros relidos, jogar papéis fora, zerar prestações, comprar carro à vista, novo celular, atualizar lista de telefones, homens variados a seus pés, o basta no cigarro, um jeito no pigarro, a plástica na pálpebra, o botox, o silicone, luzes no cabelo, a lipoaspiração, a boca fechada, picanha nunca mais, suco de clorofila, segurar o chocolate, dar um tempo na pílula, um filho de produção independente, alternativa adotar criança, meditar no Tibet, uma nova diarista, marcar o dentista, Richard Gere de ginecologista, experimentar um psicanalista, apartamento próprio, chega de aluguel, praia a pé, visitar o avô, não brigar mais com a mãe, entrar no mestrado, aprender violão, denunciar o vizinho baterista, encarar o chefe, largar o escritório, chutar o balde, o pau da barraca, escarpin nunca mais, havaianas para todo o sempre, reinventar a vida, dessa vez uma nova mulher.

Até que, invariavelmente, deseja fazer cinema. Ser atriz em cenas inesquecíveis. Sente um medo súbito: pressente vultos na cortina, de faca na mão. Tchiiin, tchiiin, tchiiin!

E fecha o chuveiro. Rápido. Fica tudo adiado.

Até o próximo último banho do ano que vem.

* * *

Edna Teresinha vestiu-se de branco no Ano Novo.

Às 23h58 abriu as portas do armário. Um espelho contra o outro.

Colocou-se no meio. Olhou para um lado, olhou para o outro.

Viu infinitas pessoas. Todas de branco.

Meia noite, estourou champanhe.

E fez a festa.

Êxtase

by jose guilherme vereza em 25 de novembro de 2008 | 21:00

Julio comprou um binóculo. Só para assistir mais de perto o que o edifício em frente ao seu oferecia de tipos e situações.

A estréia do binóculo foi desastrosa. Viu uma senhora mudando a roupa e ao perceber que estava sendo observada, a velha abriu-se num exibicionismo agressivo e constrangedor.

‘Passada a ressaca, resgatou o binóculo entre as folhagens do jardim do prédio, sem um arranhão na lente. Sinal de que a qualquer momento, a função poderia recomeçar. Não com a velha na mira, mas com outras atrações

Julio atirou o binóculo pela janela. Jurou a si mesmo extirpar o vício que colocava remorso, vergonha e fraqueza juntos, embolados na boca do estômago. O ato impulsivo de puro arrependimento fazia parte de um ritual que tinha início em palpitações, excitações, ansiedade, clímax e desaguava, sempre, em ânsias indigestas. Aos engulhos, livrou-se da imagem da velha.

Mas Julio não se emendava.

Passada a ressaca, resgatou o binóculo entre as folhagens do jardim do prédio, sem um arranhão na lente. Sinal de que a qualquer momento, a função poderia recomeçar. Não com a velha na mira, mas com outras atrações.

Descobriu um paraplégico que gostava de bolinar a enfermeira. Dessa vez não se tratava de alguém que avançara na idade, mas de um quase quarentão bonitão, condenado pelo destino a rodar pra lá e pra cá com sua cadeira num cubículo pouco mais digno que uma jaula no zoológico.

A enfermeira aparecia toda terça-feira para ajudar nas tarefas básicas: arrumação, refeições, banho e satisfações íntimas sempre indiscretas. Não cuidavam os amantes de preservar a privacidade e cometiam o sexo possível em grandes performances a poucos metros de lentes curiosas.

Era tudo tão evidente que Julio percebia o ronronar da mulher sentada de cócoras em cada braço da cadeira, movimentando seu pélvis de cima para baixo bem no rosto do homem. Os braços potentes do paraplégico empurravam o corpo da enfermeira já totalmente nua para si, mãos enterradas nos glúteos, como que quisesse se deixar asfixiar e acabar para sempre aquela busca incessante pelo que não existia mais.

Julio não se contentava em ver o que via. Imaginava. Classificou o paraplégico como um potencial suicida, que sonhava morrer gloriosamente tentando dar marcha à ré à vida, retornando ao lugar de onde nunca deveria ter saído.

Um dia, quem apareceu na porta de Julio?

A enfermeira.

- Com licença, o senhor não é o sujeito que fica de binóculo espiando o que eu faço com meu cliente?

Julio se encheu de coragem.

– Sou eu mesmo. Aliás, era eu mesmo. Joguei o binóculo no lixo. Nada acontecia de novo naquelas janelas.

- Pois é. Por causa disso, meu cliente está deprimido. Não se interessa mais por mim…

- Lamento… mas espiar os outros não estava me fazendo bem.

A mulher começou a soluçar.

- Na verdade, não sou enfermeira. Nem ele é meu cliente, nem paraplégico. Somos casados e alugamos de um amigo aquela quitinete, toda terça-feira.

Julio silenciou. Nem uma pálpebra mexeu. A mulher se desculpou, agradeceu e saiu enxugando as lágrimas.

Terça seguinte, Julio comprou outro binóculo. E diante das suas lentes, viu um casal exuberante, fazendo o amor dos amores, em cima de uma cadeira de rodas. Com direito a uma cúmplice piscada de olhos da enfermeira. Ou melhor, da mulher em êxtase.



perfil

José Guilherme Vereza é publicitário, consultor, professor, escritor, blogueiro. Também é botafoguense, ex-tijucano, sempre lebloniano, neopaulistano. Tem mulher, duas filhas, babá, cozinheira, passadeira. E faxineira que vem quinzenalmente. Tem dois filhos homens, que sempre chegam com uma nora e namoradas diversas. Além delas, tem mãe, madrasta, irmã, nora, cinco cunhadas, duas sobrinhas, uma sogra-avó, uma sogra-madrasta, 37 primas, várias alunas e um milhão de amigas. Pode-se dizer que é um Ph.D. em TPM.