Numa festa de réveillon, o prognata se apaixonou pela dentuça. E vice-versa. Foi amor à primeira vista, nos últimos momentos do ano que ia embora. Conversaram futilidades, profundidades, papos-cabeça, bobagens de matar e morrer de tanto rir.
Deram-se as mãos, saltitaram pela pista, dançaram de rostos colados. Quando explodiu meia-noite, jogaram champanhe um no outro, fizeram tim-tim, beberam as taças num gole só e, olhos nos olhos, tentaram um beijo ardente.
Tentaram. Mas não conseguiram.
Era dente contra dente. Nada se encaixou.
‘Beijo tem que ter dignidade
Lábios se desencontraram. Línguas se engalfinharam. Queixos não se entendiam. Narizes se abalroavam. Uma lambança. De deixar tudo babado em volta das bocas.
O prognata ainda tinha um bigodinho sem vergonha. A dentuça, um batom ordinário, com sabor de cereja com canela.
Não deu certo o quase namoro. Nem esperaram o ano clarear.
Mal se despediram e nunca mais se falaram.
Beijo tem que ter dignidade.
* * *
Todo fim de ano é assim.
Cristina abre o chuveiro pouco antes da meia-noite e decide resolver a vida no último banho do ano. Nada escapa da sua lista de planos, desejos, decisões e resoluções.
A solução dos problemas, a idéia para a reunião, as férias com os amigos, quem vai dormir com quem, o destino dos claudicantes, a escalada dos miseráveis, a sentença dos patifes, o caso da Palestina, o aquecimento global, o paradeiro de Osama, a obviedade dos enigmas, o mistério das profundezas, o voto, o imbróglio, a equação, o dilema, o presente da Ana, o lugar para malhar, o fim do namoro, a questão do decoro, a reforma do armário, as roupas para os pobres, limpar as gavetas, arrumar a estante, encaixotar livros relidos, jogar papéis fora, zerar prestações, comprar carro à vista, novo celular, atualizar lista de telefones, homens variados a seus pés, o basta no cigarro, um jeito no pigarro, a plástica na pálpebra, o botox, o silicone, luzes no cabelo, a lipoaspiração, a boca fechada, picanha nunca mais, suco de clorofila, segurar o chocolate, dar um tempo na pílula, um filho de produção independente, alternativa adotar criança, meditar no Tibet, uma nova diarista, marcar o dentista, Richard Gere de ginecologista, experimentar um psicanalista, apartamento próprio, chega de aluguel, praia a pé, visitar o avô, não brigar mais com a mãe, entrar no mestrado, aprender violão, denunciar o vizinho baterista, encarar o chefe, largar o escritório, chutar o balde, o pau da barraca, escarpin nunca mais, havaianas para todo o sempre, reinventar a vida, dessa vez uma nova mulher.
Até que, invariavelmente, deseja fazer cinema. Ser atriz em cenas inesquecíveis. Sente um medo súbito: pressente vultos na cortina, de faca na mão. Tchiiin, tchiiin, tchiiin!
E fecha o chuveiro. Rápido. Fica tudo adiado.
Até o próximo último banho do ano que vem.
* * *
Edna Teresinha vestiu-se de branco no Ano Novo.
Às 23h58 abriu as portas do armário. Um espelho contra o outro.
Colocou-se no meio. Olhou para um lado, olhou para o outro.
Viu infinitas pessoas. Todas de branco.
Meia noite, estourou champanhe.
E fez a festa.