» O taxistaJose Guilherme Vereza

O taxista

by jose guilherme vereza em 19 de outubro de 2011 | 9:45

Meu nome é Dirceu Batista, parece nome de zagueiro, mas sou taxista pra mais de vinte anos, nunca fui assaltado, nunca bati o taxi,
nunca me envolvi em briga feia de trânsito, sem bem que, por várias vezes tive vontade de matar motoqueiro, guarda abusado
e mulher que deveria estar com  barriga na pia batendo um bolo pro marido e por causa desses tempos modernos vem atrasar minha vida, fechando cruzamento, andando que nem lesma falando no celular, falando nada, olhando pro celular e teclando, teclando, teclando, sem olhar pra frente, sem olhar pro lado, achando que carro tem piloto automático. Mês passado, uma perua encostou no meu para choque trazeiro e ainda xingou, gritando que parei de repente e eu respondi dizendo gentilmente, ô dona, se tem alguém que merecia criar caso era eu, mas como só entortou um pouquinho a minha placa disse pra ela não ficar nervosa senão o pés de galinha iam sair andando. Ela ficou uma arara, o botox quase saiu do lugar, eu insisti educadamente para ela não esquentar a cabeça senão a chapinha ia encrespar, e ela saiu cantando pneu, e eu fiquei me lembrando da minha mulher Marlene, tão chiliquenta quanto, mas que pelo menos não se metia a dirigir para não dar vexame na rua.
Minha mulher sabe muito bem que o lugar ela é na cozinha, aliás, deveria saber mais porque cozinha mal pra diabo, outro dia na mesma janta empapou o arroz, desandou a maionese e esturricou o contra filé, logo aquele contra filé que português fatiou no açougue, deixando a gordurinha saborosa em volta, que derrete na boca quando a gente morde, mas com Marlene, não, Marlene fez da gordurinha  numa beira dura de sola de sapato e ainda e jogou na minha cara que para o marido que eu era devia lamber os beiços. Tive vontade de jogar a gororoba na parede, mas para não traumatizar o menino, preferi engolir mais um sapo
e ir pra cama sem falar nada. Mas mesmo assim, ela continuou a me atazanar, vestindo uma camisola transparente, deitando no meu lado e começando a lamber meu ouvido. Eu fiz que estava no terceiro sono e ela perdeu a paciência dizendo coisas horríveis sobre a minha pessoa, disse que eu tinha jaculação precócil e eu, sem perder a esportiva, respondi que ela estava lendo muita revista de mulherzinha no salão. Ela se enfezou dizendo que não tinha tempo e dinheiro para ir ao salão, até que eu perdi a cabeça e gritei que gozava rápido sim, porque queria logo acabar a canseira. Foi um charivari. Me mandou dormir no sofá da sala, onde durmo até hoje, pensando que alguma coisa muito boa poderia acontecer para eu mudar de vida. Dia desses eu estava parado numa esquina, apareceu uma menina  linda, boa demais, loura bustosa, mini saia justinha nos quadris, carinha de modelo de revista ou estudante universitária, moça fina, cheirosa e bem lavada, que abriu a porta do meu taxi e falou com delicadeza:
Vamos para o Motel Splendor? Claro que sabia onde era o motel e minhas pernas tremeram. Passou pela minha cabeça que aquilo não era uma corrida, mas um convite. Ái meu Deus, do retrovisor eu fui me apaixonando pela dona. Atrás de seus óculos escuros percebia um jeito de menina contemplando as ruas engarrafadas, ou de uma mulher feroz sorrindo para o celular
enquanto teclava freneticamente mordendo os lábios deliciosos. Ái meu Deus. Seus dedos eram bonitos, unhas bem cuidadas, que volta e meia penetravam pelos cabelos desfiados que insistiam em cobrir a testa. Quando chegamos na porta do motel ela botou a cabeça para fora e disse: Tenho encontro com o Dr. Antonio Claudio, ela já chegou? O cara fez que sim e mandou estacionar no pátio, ao lado da suíte máster. Moça fina e cara. Ela saltou, debruçou-se na minha janela e perguntou com a voz rouquinha e baixinha se eu poderia esperar, uma a duas horas no máximo, e diante daquele decote cheio de maldade e não poderia dizer não. Sumiu a deusa pela fresta da garagem, o suficiente para ver um BMW lá dentro. E do lado de fora fiquei eu alfinetado pela imaginação. Desnecessário descrever tudo que pensei, mas só digo que meus tempos de menino foram revividos em grande estilo.
Mais de duas horas se passaram, até que a moça aparece. Cabelos molhados, rostinho de gente feliz. Aproximou-se da minha janela e sussurrou: Obrigado por ter me esperado. Vamos? Não resisti. Obrigado digo eu, dona. Só me pode fazer um favor? Ela sorriu. Claro, o que você quiser. Eu disse: Vem aqui no banco da frente, vem. Ela sorriu mais gostoso ainda. Deu uma volta na frente do taxi, abriu a porta e sentou-se muito bem ao meu lado. Ele se ajeitou para colocar o cinto e percebi de esguelha uma cruzada de pernas matadora, daquelas que por um instante eterno dá para ver a calcinha e alguma penugem dourada fora do lugar. Saí do motel exultante, um pandeiro no peito, mas bem devagar, nem queria passar a segunda marcha. Acho que ela colocou o braço nas costas do meu banco e sorriu para mim. Tudo que queria naquele momento é que  Marlene me visse.

perfil

José Guilherme Vereza é publicitário, consultor, professor, escritor, blogueiro. Também é botafoguense, ex-tijucano, sempre lebloniano, neopaulistano. Tem mulher, duas filhas, babá, cozinheira, passadeira. E faxineira que vem quinzenalmente. Tem dois filhos homens, que sempre chegam com uma nora e namoradas diversas. Além delas, tem mãe, madrasta, irmã, nora, cinco cunhadas, duas sobrinhas, uma sogra-avó, uma sogra-madrasta, 37 primas, várias alunas e um milhão de amigas. Pode-se dizer que é um Ph.D. em TPM.

Erro ao estabelecer uma conexão com o Banco de Dados