O avião pousou com tal suavidade, que o comissário soltou um comentário típico de quem era
um entusiasta pela própria profissão: touché. Logo ele, pensei, tão acostumado com subidas e descidas
é capaz de se encantar com um toque suave no planeta.
A partir daí, os agradecimentos de sempre, as recomendações de permanecerem sentados
até o completo estacionamento da aeronave e muito cuidado ao abrir os compartimentos
de pequenas bagagens sobre as poltronas.
Doze horas de vôo acabavam. Braços espreguiçavam, bocejos se multiplicavam.
Liberados os cintos de segurança e tudo vira uma final no Maracanã lotado.
Pessoas se agitam no menor espaço, pegam suas bugigangas, catam seus pertences de mão,
maletas passam sobre cabeças que se abaixam, excusez moi, desculpe, obrigado, merci.
Perfilados, todos esperam a ordem do início da marcha.
À minha esquerda, já no corredor, uma belezura de uns vinte e poucos anos,
cabelos castanhos claros mal presos a uma piranha desalinhada, semi abraçada por uma echarpe chique,
bolsa bonita à tiracolo, segura com uma das mãos a alça comprida de uma mala de rodinhas cor de rosa,
última forma em design, mais fashion e elegante impossível. Tem os olhos fixos no seu celular.
Seus dedos da outra mão e de unhas bem feitas estão nervosos. De esguelha, vejo que está lendo emails.
E vejo também: subitamente seu rosto contrai, as narinas dilatam,
as sobrancelhas fortes e delineadas se enviesam, a boca fechada é mordida pelos dentes,
e uma lágrima jorra de seus olhos verdes.
Discreta, não emite som. Percebe que eu havia percebido o momento.
Também discreto, desvio ligeiro os olhos à janelinha distante,
supostamente distraído pelas manobras do pessoal de terra em torno do avião.
Indócil curiosidade. Volto a olhar a menina, que, agora, leva as costas das mãos aos olhos,
enxugando vestígios de uma emoção repentina.
Finjo que não vejo. Só finjo. Minhas antenas captam a criatura tão mais emocionada quanto discreta,
repetindo as contrações faciais, mordendo os lábios, suspirando baixinho,
deixando o rosto molhado e fungando o nariz. E já que o diabo da fila não anda, penso em gritar
para as pessoas abrirem passagem para ela. A moça precisa chegar antes.
Penso também em perguntar se ela está bem, mas sei lá, estava na cara que ela não estava bem,
e o que eu poderia fazer se é que eu poderia fazer alguma coisa? Sou péssimo nesses momentos.
Poderia soar intrometido, parecer abusado, galanteador com prazo vencido, intruso,
penso em ajudá-la carregando sua mala design cor de rosa, mas só penso. A curiosidade incorrigível me paralisa.
A fila anda e ela segue em frente, smartphone entre os dedos, cabelos castanhos claros desalinhados,
merci, au revoir, obrigado, bon journée, até que alcança a porta do avião e seus passos aceleram aeroporto adentro.
Fila da Polícia Federal. Imensa. Vai e vem serpenteando o salão gigantesco,
fazendo as pessoas passarem zumbis umas pelas outras dezenas de vezes.
Claro que não tiro o olho daquela fonte inspiradora de vida, assim como ela só tira os olhos verdes do smartphone
para ajeitar a alça da bolsa bonita, que teima em cair do ombro. Está mais calma, pelo menos aparente.
Tem um olhar evidentemente triste e cabisbaixo. Segue seu zig zag no automático, resignada pelos caprichos
dos trâmites, incapazes de perceber que alguém naquela multidão está passando maus bocados,
triste por algum motivo grave e contundente.
Continuo a discreta espreita e ainda percebo uns e outros constrangidos espasmos de emoção no rosto da moça.
Pronto. Brota um manancial para afogar o meu imaginário.
Quem deve ter morrido? Menina, volta correndo porque seu pai está muito mal.
Claro, o smartphone deve ter dito coisa pior.
Pode não ser o pai. Pode ser a mãe, a avó, o avô, irmão, amigo, amiga, o namorado.
Mas por que morreria o namorado? Um acidente, talvez.
Trágico demais. Pode ter sido a notícia de uma doença de um querido,
a confirmação de uma gravidez indesejada, o que fazer com o futuro? O que dizer à família?
Pode ter sido o fim do namoro, o amor é a coisa mais triste quando se desfaz.
Mas súbito assim? Por um frio e covarde email? Deve ser um mané esse cara.
Ou teria sido a melhor amiga que confirmou estar namorando exatamente namorado mané
enquanto ela vagava pelas margens do Sena? Sena? Teria ela deixado um amor avassalador em Paris?
As lágrimas bem poderiam ser um coquetel de paixão e saudade, alimentada por um email romântico e sincero.
Ái como dói uma separação. Ái como é gostoso chorar por amor correspondido.
Enquanto a fila anda a passos indolentes, observo a menina com traços de mulher - ou vice-versa -,
se distanciando e se aproximando lentamente de onde estou, num vai e vem recorrente,
onde vão e vem infinitos pensamentos, dos mais tristes aos mais prosaicas e bobinhos.
Chego a imaginar que seu poodle pode ter fugido de casa, ou que sua calopsita possa ter sofrido um enfarte,
mas por respeito à gravidade do seu rosto, dispenso tais possibilidades.
Finalmente ela chega ao guichê muito antes de mim.
Apresenta seu passaporte atabalhoada, conversa alguma coisa com a policial, que,
suponho, lhe deseja boas vindas educadamente. Sem querer, atraso a fila para acompanhar o que se segue.
Estico o pescoço o mais que posso, girafa de binóculo, vejo a criatura aflita correr em direção à alfândega.
Algo de muito sério deve ter acontecido. Não passou pela esteira de malas, não despachou bagagem maior.
Passa ao largo do freeshop. Mais estranheza. Que motivo tão forte levaria uma mulher tão charmosa e bem cuidada
a não passar pelos perfumes, cosméticos e outras delicadezas de um freeshop?
Sortuda, não é parada pelos fiscais. Lá longe, de onde estou, vejo a porta do desembarque se abrir.
E a criatura aflita puxando sua malinha cor de rosa design, seu cabelo castanho claro desalinhado, sua echarpe esvoaçante,
desaparecer na multidão. Deixando um rastro de inquieto mistério, derramando infinita poesia.
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franc_regi fez um comentário:
29 de junho de 2011 | 18:04 #
Pequenos detalhes que no fim destilam lindas linhas poéticas…
1148660673 fez um comentário:
30 de junho de 2011 | 22:20 #
Caracaaaaaaaaaaaaa…Fiquei tao curiosa,que será que aconteceu com ela heim…
angel@_77 fez um comentário:
1 de julho de 2011 | 10:30 #
Adoro detalhes, imaginar e criar.
Aquela mala rosa que leva? Joias roubadas na França, documentos que engriminen um chefao do crime, ou provas de um assassinato…de um crime. Bjs
I.B. fez um comentário:
11 de julho de 2011 | 21:36 #
Ah, essa mania bela de bisbilhotar os sentimentos alheios, de especular os pensamentos e suas conjecturas… Roubar as aflições, absorver as alegrias, consentir para com aquela tranquilidade serena de um idoso acompanhando o Caderno das Artes do jornal local em um domingo de manhã. Ou mesmo a inquietação de sabermos que a qualquer momento e em qualquer lugar podemos estar sendo observados por um curioso, ou mais, um escritor silencioso – “girafa de binóculo” – a nos perscrutar os movimentos e as expressões. Ai que delicioso não é se sentir um pouco espiã, esporadicamente um pouco espiada.
Que delicioso ser leitora de histórias simples e maravilhosas assim!
I.B. fez um comentário:
11 de julho de 2011 | 22:31 #
Lindo e admirável texto. Gostei da versão do “abandonado às margens do Sena” – mais trágico e menos triste que um falecimento. Uma lembrança nostálgica gera lágrimas discretas, enquanto uma perda grandiosa geraria prantos “inconteníveis”.
Isis B.
isisbernardes.wordpress.com
Linda97_leonina fez um comentário:
1 de agosto de 2011 | 15:55 #
Adorei o texto. Me fez viajar sem sair do chão.
engenhoca_virginiana fez um comentário:
5 de abril de 2012 | 8:53 #
Parabéns pela riqueza de palavras, é uma pena que em 100% de pessoas, conseguimos extraír uma dúzia de indivíduos com um intecto tão profundo e mágico, linda alma, imaginária, deslumbra-me saber que o ser humano ainda inspira esses contos maravilhosos….
bjx