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O desembarque

by jose guilherme vereza em 29 de junho de 2011 | 9:58

O avião pousou com tal suavidade, que o comissário soltou um comentário típico de quem era
um entusiasta pela própria profissão: touché. Logo ele, pensei, tão acostumado com subidas e descidas
é capaz de se encantar com um toque suave no planeta.
A partir daí, os agradecimentos de sempre, as recomendações de permanecerem sentados
até o completo estacionamento da aeronave e muito cuidado ao abrir os compartimentos
de pequenas bagagens sobre as poltronas.
Doze horas de vôo acabavam. Braços espreguiçavam, bocejos se multiplicavam.
Liberados os cintos de segurança e tudo vira uma final no Maracanã lotado.
Pessoas se agitam no menor espaço, pegam suas bugigangas, catam seus pertences de mão,
maletas passam sobre cabeças que se abaixam, excusez moi, desculpe, obrigado, merci.
Perfilados, todos esperam a ordem do início da marcha.
À minha esquerda, já no corredor, uma belezura de uns vinte e poucos anos,
cabelos castanhos claros mal presos a uma piranha desalinhada, semi abraçada por uma echarpe chique,
bolsa bonita à tiracolo, segura com uma das mãos a alça comprida de  uma mala de rodinhas cor de rosa,
última forma em design, mais fashion e elegante impossível. Tem os olhos fixos no seu celular.
Seus dedos da outra mão e de unhas bem feitas estão nervosos. De esguelha, vejo que está lendo emails.
E vejo também: subitamente seu rosto contrai, as narinas dilatam,
as sobrancelhas fortes e delineadas se enviesam, a boca fechada é mordida pelos dentes,
e uma lágrima jorra de seus olhos verdes.
Discreta, não emite som. Percebe que eu havia percebido o momento.
Também discreto, desvio ligeiro os olhos à janelinha distante,
supostamente distraído pelas manobras do pessoal de terra em torno do avião.
Indócil curiosidade. Volto a olhar a menina, que, agora, leva as costas das mãos aos olhos,
enxugando vestígios de uma emoção repentina.
Finjo que não vejo. Só finjo. Minhas antenas captam a criatura tão mais emocionada quanto discreta,
repetindo as contrações faciais, mordendo os lábios, suspirando baixinho,
deixando o rosto molhado e fungando o nariz. E já que o diabo da fila não anda, penso em gritar
para as pessoas abrirem passagem para ela. A moça precisa chegar antes.
Penso também em perguntar se ela está bem, mas sei lá, estava na cara que ela não estava bem,
e o que eu poderia fazer se é que eu poderia fazer alguma coisa? Sou péssimo nesses momentos.
Poderia soar intrometido, parecer abusado, galanteador com prazo vencido, intruso,
penso em ajudá-la carregando sua mala design cor de rosa, mas só penso. A curiosidade incorrigível me paralisa.
A fila anda e ela segue em frente, smartphone entre os dedos, cabelos castanhos claros desalinhados,
merci, au revoir, obrigado, bon journée, até que alcança a porta do avião e seus passos aceleram aeroporto adentro.
Fila da Polícia Federal. Imensa. Vai e vem serpenteando o salão gigantesco,
fazendo as pessoas passarem zumbis umas pelas outras dezenas de vezes.
Claro que não tiro o olho daquela fonte inspiradora de vida, assim como ela só tira os olhos verdes do smartphone
para ajeitar a alça da bolsa bonita, que teima em cair do ombro. Está mais calma, pelo menos aparente.
Tem um olhar evidentemente triste e cabisbaixo. Segue seu zig zag no automático, resignada pelos caprichos
dos trâmites, incapazes de perceber que alguém naquela multidão está passando maus bocados,
triste por algum motivo grave e contundente.
Continuo a discreta espreita e ainda percebo uns e outros constrangidos espasmos de emoção no rosto da moça.
Pronto. Brota um manancial para afogar o meu imaginário.
Quem deve ter morrido? Menina, volta correndo porque seu pai está muito mal.
Claro, o smartphone deve ter dito coisa pior.
Pode não ser o pai. Pode ser a mãe, a avó, o avô, irmão, amigo, amiga, o namorado.
Mas por que morreria o namorado? Um acidente, talvez.
Trágico demais. Pode ter sido a notícia de uma doença de um querido,
a confirmação de uma gravidez indesejada, o que fazer com o futuro? O que dizer à família?
Pode ter sido o fim do namoro, o amor é a coisa mais triste quando se desfaz.
Mas súbito assim? Por um frio e covarde email? Deve ser um mané esse cara.
Ou teria sido a melhor amiga que confirmou estar namorando exatamente namorado mané
enquanto ela vagava pelas margens do Sena? Sena? Teria ela deixado um amor avassalador em Paris?
As lágrimas bem poderiam ser um coquetel de paixão e saudade, alimentada por um email romântico e sincero.
Ái como dói uma separação. Ái como é gostoso chorar por amor correspondido.
Enquanto a fila anda a passos indolentes, observo a menina com traços de mulher -  ou vice-versa -,
se distanciando e se aproximando lentamente de onde estou, num vai e vem recorrente,
onde vão e vem infinitos pensamentos, dos mais tristes aos mais prosaicas e bobinhos.
Chego a imaginar que seu poodle pode ter fugido de casa, ou que sua calopsita possa ter sofrido um enfarte,
mas por respeito à gravidade do seu rosto, dispenso tais possibilidades.
Finalmente ela chega ao guichê muito antes de mim.
Apresenta seu passaporte atabalhoada, conversa alguma coisa com a policial, que,
suponho, lhe deseja boas vindas educadamente. Sem querer, atraso a fila para acompanhar o que se segue.
Estico o pescoço o mais que posso, girafa de binóculo, vejo a criatura aflita correr em direção à alfândega.
Algo de muito sério deve ter acontecido. Não passou pela esteira de malas, não despachou bagagem maior.
Passa ao largo do freeshop. Mais estranheza. Que motivo tão forte levaria uma mulher tão charmosa e bem cuidada
a não passar pelos perfumes, cosméticos e outras delicadezas de um freeshop?
Sortuda, não é parada pelos fiscais. Lá longe, de onde estou, vejo a porta do desembarque se abrir.
E a criatura aflita puxando sua malinha cor de rosa design, seu cabelo castanho claro desalinhado, sua echarpe esvoaçante,
desaparecer na multidão. Deixando um rastro de inquieto mistério, derramando infinita poesia.

O amor é soberano

by jose guilherme vereza em 8 de junho de 2011 | 8:47

No filme O que é isso companheiro?, um grupo de guerrilheiros urbanos está às voltas com o cativeiro do embaixador americano que acabaram de sequestrar. Rio de Janeiro, 1969. Adrenalina a mil, negociações clandestinas pra lá e pra cá, ainda tinham tempo de discutir política entre si. Só pensavam nisso, como bem convinha à situação. Lá pelas tantas, o personagem Fernando Gabeira não se contem e tasca um beijo na boca da bonitinha companheira de luta armada. Ela responde com espanto: o que é isso companheiro?
Gabeira se flagra começando a se apaixonar pela moça, mas não havia o menor espaço para o amor, naquelas circunstâncias totalmente críticas e na beira do limite. Pobre moça. Estava apaixonadamente absorvida pela causa que nem se dava conta que a essência do ser humano é o amor puro e instintivo, o mesmo que rege a vida, ou melhor, faz a vida acontecer.
Aproxima-se o Dia dos Namorados. Penso quantos amores enrustidos e não declarados existem por aí, exatamente eclipsados pela rotina, pelo dia a dia, por causas particulares que o caos contemporâneo impõe. Haja insegurança, incerteza de futuro, uma prova decisiva amanhã, um emprego por um fio, questões domésticas adolescentes ou adultas,
fracassos, frustrações, prazeres efêmeros, necessidades de sucesso, busca pela felicidade, filhos a cuidar, contas a pagar, contas a prestar, vida a sobreviver. Como se não bastassem as mazelas interiores de cada um, haja dilemas e debates exteriores compartilhados, que entram na nossa vida sem pedir licença e se instalam na nossa sala, tirando os sapatos, abrindo os braços com jornal na mão, lap tops e ipads no colo, e esticando as pernas diante da televisão. E tome de escorregadas e estabacos de Palocci,
injustiça e leviandade dos bombeiros do Rio de Janeiro, picuinhas da oposição sem projeto, os livros do MEC, a fanfarronice do ex-presidente posando para Caras, o olhar bandeira do outro ex-presidente para as drogas, o que fazer com a maconha, a conquista dos gays, a fobia da homofobia, a ameaça da volta da inflação, as vergonhas dos políticos, os estádios que não ficam prontos, os aeroportos que não decolam, a seleção do Mano que não decola, Obama que mata Osama e quer reviver as fronteiras originais da Palestina, as revoltas árabes, o perigo nuclear, a bolsa que balança o mundo, a ditadura fashion, a eficácia das UPPs, o novo código florestal do comunista que agrada os senhores das terras e maltrata o planeta, a chatice do politicamente correto, os ritmos alucinantes da informação e da cobrança por achar alguma coisa,  tomar partido, participar, interagir, agir.
É tanta coisa, mas tanta coisa a nos ocupar e preocupar, exigindo posições, opiniões, atitudes, presença, compromissos, engajamento, que suspeito que um gesto individual de amor por alguém, quando lembrado, por mais discreto que seja, por mais piegas que seja, para muita gente possa parecer o cúmulo da alienação.
O que é isso companheiro? como frase título de livro e filme contém esta simbologia. Como é que alguém pode dizer eu te amo, com tantas inquietações, contradições, barbaridades, sandices e indignações transbordantes? Os apelos publicitários, alguns bem bobinhos por sinal, que nos fazem não esquecer a data, funcionam como um sininho de alerta para quem está no turbilhão da tsunami dos fatos. Olha, pessoal. Dá pra parar um pouquinho e se entregar ao amor, pelos menos, só por uma noite? Um instantinho só? Se essa carapuça lhe serve, vai fundo, companheiro, ou companheira: abra seu coração sem medo do ridículo, sem medo de não parecer original e criativo. Nada vai mudar o mundo que nos rodeia com uma atitude sincera individual, mas quem arriscar um bom e velho eu te amo à mulher, ao marido, ao namorado, ao noivo, ao parceiro, ao caso, ao bofe,
enfim, a quem você elegeu ou em quem você está mirando, pode receber de volta uma descarga deliciosa de energia.
(Mesmo os que estão literalmente na saudade, pensem que só existe saudade de coisas, momentos e pessoas que valeram a pena).
E aí, sim, lembrando que o amor existe, o amor puro e sincero, instintivo e carnal, eterno enquanto dure, aí sim, o Dia dos Namorados e seus dias seguintes passam a ser recarregadores de emoções, vitaminas na auto estima, turbos para seguir vivendo.
O mundo não vai melhorar nem piorar por um simples gesto de carinho. Você é que vai melhorar.



perfil

José Guilherme Vereza é publicitário, consultor, professor, escritor, blogueiro. Também é botafoguense, ex-tijucano, sempre lebloniano, neopaulistano. Tem mulher, duas filhas, babá, cozinheira, passadeira. E faxineira que vem quinzenalmente. Tem dois filhos homens, que sempre chegam com uma nora e namoradas diversas. Além delas, tem mãe, madrasta, irmã, nora, cinco cunhadas, duas sobrinhas, uma sogra-avó, uma sogra-madrasta, 37 primas, várias alunas e um milhão de amigas. Pode-se dizer que é um Ph.D. em TPM.