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A paixão de Horácio

by jose guilherme vereza em 27 de abril de 2011 | 0:06

Ártemis Plaka, a suprema soprano, no Municipal.
Assim anunciou-se. Assim tremeu o coração de Horácio,
fã apaixonado pela diva grega.
De sonhar com sua beleza pura.
De imitar seus gestos embriagantes.
De colar retratos no espelho do armário.
De postergar amores menores em nome de uma fantasia lírica.

Com antecedência de séculos, Horácio comprou duas poltronas
na primeira fila. Uma para ele, outra para a amiga Leda.
Caso desmaiasse.

Chegou o dia. Camisa social nova, blazer resgatado das naftalinas,
barba escanhoada, cabelos empastados de gel.
Quem sabe ela olharia para ele?
Quem sabe ela sorriria para ele?
Quem sabe ela cantaria só para ele?
Quem sabe ela ouviria bravo! como se fosse só dele?
Quem sabe depois do espetáculo ignorariam a segurança,
o solene e o protocolo?
Quem sabe flores no camarim se transformariam
em champanhe em camarins mais íntimos?
Quem sabe ela se desse ao tiete como as tietes se dão aos roqueiros?

Não careceria tradutor. O sotaque a la grega do inglês de Horácio
seria mais um ponto de sedução. Fora, claro, o despejar de encantos e elogios,
próprios de quem conhece o universo da estrela tanto quanto a própria estrela. 
E experimentariam noite adentro solfejos ferozes,
tremores e ondulações nuas, mordiscares errantes,
gostos novos em bocas aflitas, mãos atrevidas,
línguas arqueólogas, cheiros estrangeiros à flor das peles.
Pelos embaralhados de tanto roçar
dançariam soltos pelos lençóis.
E explodiriam os dois em suspiros suaves,
como se aplaudissem exaustos um ao outro.

O que faria com Leda, a fiel escudeira, companheira, alcoviteira,
fornecedora de coragem? Um taxi de luxo providencial na porta do teatro
e a promessa de que contaria tudo em detalhes.
A cama  com Artemis só mereceria ser a dois. Mas os segredos, a três.

Chegou a noite.
Suavam as mãos de Horácio.
Ferviam as maçãs do rosto de Horácio.
Tremiam a pálpebras de Horácio.
O ensaio desencontrado dos violinos soava como prólogo
de um amor à primeira vista.
Da parte dela, claro, porque ele já veio devidamente enfeitiçado.

Brota na ribalta a suprema soprano.
Não se percebe respiração no peito de Horácio.
Leda olha para o amigo, que arregala os óculos de aro fino
e se empertiga como um perdigueiro que vislumbra a perdiz.

Ártemis é a delicadeza comprovada.
Canta a primeira ária a metros de um Horácio petrificado.
Só o fosso da orquestra separava aqueles corpos.
Só um fiapo imaginário separava o desejo do êxtase.
O tempo do sonho encosta na beira do possível.
Por que não?

E a diva vai cantando, cantando, cantando.
E a ópera vai seguindo pelas mãos do maestro elegante.
E Horácio vai murchando, murchando, murchando.
A gola engomada da camisa social nova desaba lentamente,
junto com o olhar perdido atrás dos óculos de aro fino.

Como assim?

- Vamos embora, Leda.
- Tá passando mal, Horácio?
- Não. Olha quantos dentes de ouro ela tem.
E repara debaixo do braço. Como transpira a infeliz.

Saíram de fininho. Abaixadinhos.
Como convém ao Municipal.

Casamentos

by jose guilherme vereza em 13 de abril de 2011 | 7:26

Na hora do jantar, ela veio com essa conversa:

- Você ouviu, Jurandir, o que a vizinha Arlete fez com o marido?

- Que conversa é essa, Maria Elisa?  Fofocando de novo?

- Ela descobriu que o sem vergonha estava se engraçando com a funcionária. Esperou ele dormir, ferveu a chaleira e despejou água pelando no ouvido do safado.


- História, Maria Elisa. Quem devia levar água fervendo na língua é mulher intriguenta, que só fala da vida dos outros. E quer saber: não suporto mais você, velha mexeriqueira.  Todo dia uma bisbilhotice!


E levantou da mesa direto para cama. Ao longe, ouviu Maria Elisa  tagarelar ao telefone com as amigas. Falou da vizinha, falou da cunhada, falou da manicure, falou, falou, falou até cair no sono. No sofá, com o fone fora do gancho.

Acordado pelo silêncio, Jurandir levantou da cama.

Nem mexeu na mulher que roncava  de roupa e tudo na sala, com a boca aberta e a língua cansada  para fora.

Foi até a cozinha, sem chinelo. Pé ante pé.Aproximou-se do fogão.Tremeu-se todo quando viu a chaleira na trempe.
E desligou a torneirinha do bujão de gás.

 

 

******

 

Amílcar e Jurema arrastavam um casamento.

 

- A partir de agora, só falo com você em inglês, Amílcar.

 

- Ta maluca, Jurema. Você não sabe nem dizer “good morning”.

 

- Quer que quer dizer isso?

 

- “Bom dia”, sua burra.

 

- Então nem “bom dia” eu digo mais.

 

Aos silêncios, chegaram às bodas de ouro.

 

 

******

 

Queria se livrar do marido. Escondeu chumbinho de rato entre as pernas.

Meia noite, ele, bêbado, veio se chegando entre os lençóis.

 

- Abre as pernas, Almerinda. Tô na maior secura.

 

- Venha, Josias, venha. Vem curar sua ressaca no meu poço da felicidade.

 

E tal como um urso lambendo mel, Josias mergulhou fundo no pote de Almerinda.

Nem demorou, começou a fraquejar a respiração. Aos urros teve um espasmo, ali mesmo, sem deixar seu posto.

Almerinda prendeu com as coxas a cabeça do homem estrebuchante.

E, enfim, gozou duplamente.

 

 



perfil

José Guilherme Vereza é publicitário, consultor, professor, escritor, blogueiro. Também é botafoguense, ex-tijucano, sempre lebloniano, neopaulistano. Tem mulher, duas filhas, babá, cozinheira, passadeira. E faxineira que vem quinzenalmente. Tem dois filhos homens, que sempre chegam com uma nora e namoradas diversas. Além delas, tem mãe, madrasta, irmã, nora, cinco cunhadas, duas sobrinhas, uma sogra-avó, uma sogra-madrasta, 37 primas, várias alunas e um milhão de amigas. Pode-se dizer que é um Ph.D. em TPM.