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O verão e seus efeitos colaterais

by jose guilherme vereza em 22 de dezembro de 2010 | 8:06

Chega o verão com todo o seu esplendor, trazendo seu calor inclemente e insuportável para quem não pode passar o dia na praia, de preferência, com o mar de agradáveis limpidezes e temperaturas até o pescoço, tal um periscópio curioso direcionado aos corpos dourados e esculturais que passam e repassam num doce balanço a caminho de não importa onde. Nem seus sexos tampouco importam. Ah, esses Adônis, essas Afrodites do estio, sonsos que são a incitar desejos inatingíveis e saudades torturantes dos tempos em que o nada era tudo, o ócio era a única obrigação e a preguiça reinava soberana sobre músculos e neurônios, sim, estes solitários neurônios que já sofrem os efeitos colaterais da estação mais brasileira do ano, aderem ao abominável espírito de boas festas, e por isso mesmo, lagarteiam de pança para cima, pensando apenas numa mísera desculpa plausível pela falta de imaginação para a última crônica do ano – ou conto ou texto ou escrito, como queiram. Oh, preguiça que me desaba como os temporais de fim de tarde e entope meus bueiros não me deixando ir, vir e fluir. Venço os deuses da inércia, me entrego à arte de não querer fazer nada e aglomero palavras sem pudores, bom senso e estilo – ou ao menos uma pontuação digna –, e num último e hercúleo esforço, peço desculpas por me recolher de fininho até o ano que vem, rogo compreensão especial aos heróis e amigos que me honraram com suas leituras e comentários semanais, ao mesmo tempo em que ofereço alívio aos que, por desaviso, ou teimosia, ou concessão, ou generosidade extrema, deram com os olhos nas histórias que cometi ao longo do ano que se esvai. Chega. Fica aqui meu muito obrigado a todos e a jura – ou ameaça – de que em janeiro estarei firme e forte no oficio de encher o saco de vocês com aquela história de “se quiser, se puder”, cujo clichê faço uso e abuso, um tanto por falta de criatividade, mas muito mais por excesso de sinceridade.  Se quiser – e você quererá –, se puder – e você poderá – faça do seu Natal e de todos os instantes de 2011 os mais felizes de todos os seus tempos.  E para concluir, o indefectível “Divirta-se” no final da frase. O ponto derradeiro fica por sua conta. Pode não ter nada, pode ter uma exclamação ou então aqueles três pontinhos, as tais reticências que denotam o infinito, coisa que ficou por terminar, ou que se estende ao bel prazer da sua imaginação. Ok, ok, não deixa de ser também um desejo de perene felicidade.

Ceia de Natal

by jose guilherme vereza em 15 de dezembro de 2010 | 19:36

Desconfiou que atrás daquela barba falsa e das bochechas rosadas havia muito mais que um Papai Noel de shopping. Morgana espremeu-se entre as crianças que faziam fila para tirar foto, até que, ao chegar sua vez, ficou intrigada com a origem daqueles olhos verdes estonteantes. Sem cerimônia, sem medo de parecer ridícula, sentou-se na perna direita do Papai Noel, passou o braço atrás dos ombros vermelhos e aveludados, e encostou rosto com rosto para uma foto. A barba de fios artificiais fez cosquinha no seu nariz. E  Morgana mandou entre os dentes sorridentes, olhando para a câmera para não perder a pose:

- Te conheço de algum lugar.

- Sou Papai Noel. Você não acredita?

As mães aflitas da fila não deram chance ao diálogo. Crianças impacientes. Olhares indignados. Pulando sacolas e pacotes, Morgana saiu de fininho, deixando um rastro de olhar para os olhos verdes de um Papai Noel igualmente embevecido.

 

….

 

Morgana Amaral. 33 anos, recém descasada, sem filhos, ainda às voltas com a arrumação do flat para onde acabara de se mudar.

Como uma gata em beco novo, tudo experimentava até encontrar seu aconchego. Tão logo se separara de um marido monótono e possessivo, deu seu grito de solteirice. Sentiu-se de bem com a vida, auto estima lá em cima, revigorada e energizada. Homens variados – e selecionados – batiam à sua porta.  A cada semana uma novidade.  Um gemido novo, um calor inusitado, um gosto de aventuras na língua, sussurros diferentes no pescoço, visitantes pulsantes nos seus interiores. Até cansar.

- Chega. Pelos menos neste Natal, quero ficar sozinha.

 

E saiu por dezembro a curtir sua solidão. Despiu-se das ansiedades, dos planos, dos projetos de vida nova. Exceção para o que seria a ceia do dia 24 na casa dos pais velhinhos, ele cadeirante de boca torta, a mãe faladeira e prestativa, rainha dos fornos e fogões dos rituais familiares, além da tia agregada e surda, estridente entusiasta de cânticos natalinos. E assim aconteceu.  Cheiro de tender no ar, o calor de derreter miolos, o peru com farofa à mesa, o empadão de bacalhau de receita centenária, o prosecco que poderia estar mais gelado, o amigo oculto decepcionante – este ano não teve livro de Rubem Fonseca -, sobrinhos furiosos rasgando presentes, irmã estressada, cunhado de cara cheia e inconveniente.

- E aí, Morganinha, como é seu primeiro Natal sem o chato do seu ex marido?

 

Bom sinal para ir embora. A chuva molha os presentes e o papel que envolve o prato da rabanada que sobrou. Morgana entra no carro e parte pelas ruas cintilantes para sua primeira noite de Natal sozinha depois de quase oito anos. Sensação esquisita. Nem boa nem má, mas diferente de tudo que viveu ou planejava viver. E antes que caraminholas assaltassem seus pensamentos, dormiu no sofá, embalada pelo prosecco que deixara para gelar e pela reprise do Roberto Carlos na Globo.

 

….

 

Blim blom.

- Que diabo! Numa hora dessas?

Trôpega e sôfrega, Morgana abre a porta sem cuidado. Pisca sem parar, dá tapinhas no rosto, olha de novo. E paralisa.

Atrás daquela barba falsa e da bochecha rosada havia muito mais que um sujeito vestido de Papai Noel que errou de porta. A barriga entreaberta de enchimento e fingimento mal esconde um tanquinho másculo, bem definido e sarado. Os olhos verdes estonteantes fuzilam. O sorriso lindo dá o tiro de misericórdia.

- Ho, ho, ho!

- Desculpe, deve haver algum engano, o senhor não errou de porta?

- Perdi a chave do meu flat, bem aqui ao lado do seu.

Eu só queria pular da sua varanda para a minha.

 

Morgana soltou uma gargalhada interior. A ficha caiu. Seus olhos brilharam ao lembrar os olhos verdes do vizinho eternizados num único encontro no elevador semanas atrás. Sua voz foi firme e cuidadosa. A gata encontrava seu aconchego.

- Isso pode ser muito perigoso, Papai Noel. O senhor não está mais na idade de pular de varanda em varanda. Vem, amanhã a gente arranja um chaveiro.

 

Nada mais se disseram. Naquele instante, trocaram de fantasias.

Ele despiu-se ali mesmo, espalhando a roupa calorenta pela sala, entre caixas de mudança, um prato de rabanada na cadeira, casquinhas de nozes no sofá e uma árvore colorindo a noite de luzinhas intermitentes.

Ela vestiu um sonho travesso.

O feliz Natal, enfim, pleno de celebrações, surpresas e delícias noite adentro,

estava apenas começando.

 

 

 

 

Releitura de uma crônica descabida

by jose guilherme vereza em 1 de dezembro de 2010 | 8:34

Largado pela mulher, – que levou filha, filho

e a cadelinha Tetéia para a morar tudo junto com um taxista -,

Lourival decidiu subir o morro do Alemão.

Foi à noitinha e de Ray-Ban.

Num largo entre quatro vielas,

tinha uma birosca.

Dali mesmo gritou para quem quisesse ouvir:

- Tá todo mundo preso! É a polícia!

Levou rajada de AR-15 de tudo quanto é lado.

- Quem é esse cara?

- Sei lá, merrmão. Some com esse maluco daqui.

Foi jogado num valão.  Todo furado.

E com um sorriso no rosto.

Cara de quem terceirizou o suicídio. 

 

*****

Esta história de amor triste, intitulada A Solução de Lourival,

foi escrita em maio de 2007 e publicada no mesmo ano

no livro 30 Segundos-  Contos Expressos (Publit),

cujo autor é este que agora lhe atazana.

Hoje ela não tem o menor cabimento. É inverossímil.

Não por ser uma história ficcional de trágico, radical e discutível desfecho, mas por se passar nas entranhas do Complexo Alemão, onde as forças da cidadania acabaram de desfazer a hostilidade do cenário em que o atormentado sujeito encerrou sua dor.

Não há motivos – nem bala – para polícia ser recebida a bala, como arquitetou Lourival seu próprio fim.

Claro que essa história poderia acontecer em tantos e tantos outros lugares perigosos de qualquer metrópole, mesmo no Rio, ainda engatinhando nas boas intenções de segurança.

Mas, otimista que sou, inspirado pelas boas novas, em vez de mudar o local do crime, prefiro reimaginar o final da história no mesmo lugar da original.

E Lourival, então, teria outro destino.

Talvez ninguém desse bola para sua maluquice.

Talvez alguém o mandasse dormir, gritasse um cala boca, vagabundo! – essas coisas.

Talvez a própria polícia pudesse abordá-lo, revistá-lo, apalpá-lo, escarafunchá-lo, até vir a descobrir que se tratava apenas de um homem comum, dilacerado e transtornado por uma traição. E mandá-lo para casa afogar as mágoas.

Talvez Lourival tivesse encontrado Norminha, a manicure, que vendo seu estado de desespero, o chamaria para um trago na mesma birosca, no mesmo largo convergente das quatro vielas.

E ofereceria seu ombro amigo e solidário, pois também tinha sido traída e abandonada pelo marido. Os dois, rotos de amor doído, chorariam suas pitangas, destilariam seus ódios, beberiam aos amores e brindariam a vida noite adentro, quando se descobririam feitos um para o outro.

E retomariam juntos os caminhos da dignidade, da esperança e da paz interior.

Boa sorte, Lourival.



perfil

José Guilherme Vereza é publicitário, consultor, professor, escritor, blogueiro. Também é botafoguense, ex-tijucano, sempre lebloniano, neopaulistano. Tem mulher, duas filhas, babá, cozinheira, passadeira. E faxineira que vem quinzenalmente. Tem dois filhos homens, que sempre chegam com uma nora e namoradas diversas. Além delas, tem mãe, madrasta, irmã, nora, cinco cunhadas, duas sobrinhas, uma sogra-avó, uma sogra-madrasta, 37 primas, várias alunas e um milhão de amigas. Pode-se dizer que é um Ph.D. em TPM.