» 2010 » setembroJose Guilherme Vereza

A mais perfeita sintonia

by jose guilherme vereza em 29 de setembro de 2010 | 8:20

Mario e Maria eram tão afinados, cúmplices e solidários que diziam menstruar juntos.  

O casal vivia um amor simbiótico, como se um ser indivisível fosse.

Mesmo em corpos diferentes,  suas almas se confundiam num grude só.  

Gostavam dos mesmos gostos, destilavam os mesmos ódios,

cantavam as mesmas músicas, dançavam os mesmos ritmos,

rezavam pelos mesmos santos, liam os mesmos livros,

bebiam dos mesmos copos, torciam pelo mesmo time,

comungavam das mesmas opiniões, esbaldavam-se das mesmas delícias,

gozavam o mesmo gozo.

Quando choravam, choravam os dois. Quando riam, riam na mesma hora.

Não divergiam, não discutiam, não discordavam. A harmonia era soberana, na bonança e na tristeza,

no tufão e na calmaria, no vigor e na doença. Quando sentiam dor de cabeça dividiam as aspirinas.

Xingavam pela topada do outro, espirravam em dueto,  tossiam em raro sincronismo.

Até TPM repartiam, com humores alterados, dores somatizadas,  fantasmas compartilhados.

Não tinham filhos por opção. Egoístas, não se enxergavam amando mais do que a si próprios.

 

Até que chegou Violeta, filha da prima distante,  para uns tempos de estudo na cidade.

Foi morar com eles. Menina já mulher, iluminada e especial, cativante e esplendorosa,

meio tímida, meio atirada,  meio anjo, meio diabo.

Certa noite, partilhando da mesma insônia de Maria, Mario puxou o assunto.

- Amor, tenho que te contar uma coisa. É papo brabo.

- Desembucha, homem.

- Essa menina Violeta, sei não, Maria, essa convivência inusitada está mexendo comigo.

Nunca imaginei que isso fosse acontecer com a gente. Ela me tira do sério, me cutuca as vontades.

- Não me diga que está se apaixonando por ela, Mario?

- Como você percebeu?

- Porque também estou, querido. Completamente. É coisa forte e perturbadora.

 

Antes que o sol nascesse, Mario e Maria foram ao quarto ao lado. E fitaram Violeta nua,

semi embrulhada nos lençóis, cabelos castanhos emaranhados sobre o rosto, pernas abertas fazendo um quatro,

mão sobre a relva do sexo exposto, provocando um ligeiro movimento pélvico ritmado por delicados suspiros.

Sinal de que boa coisa ali se sonhava.

Mario e Maria assistiram ao ressonar de Violeta, abraçados, pulsantes

e desejosos de que aquilo não acabasse nunca.

Mas eis que Violeta acorda de supetão. Senta-se na cama, tira os cabelos do rosto,

tenta cobrir com travesseiro os seios em riste. A menina ronrona com sua pureza maldosa.

- Mario, Maria… fiquem aqui comigo. Estou tendo sonhos estranhos…

 

E assim inauguraram os três uma vida a dois. 

Passaram a dividir cama, mesa, banho e óbvias gostosuras.

Riam, se divertiam, faziam-se de gato e sapato, dormiam abraçadinhos, preparavam comidinhas,

assistiam DVD, saiam para dançar, passear, tomar chope no botequim.

Tinham planos para o futuro, casa de campo, viagem a Europa, um filho, talvez, por que não?

Um homem e duas barrigas, era só escolher.

 

Mas um dia Violeta não chegou.

Mesa posta para três, um silêncio foi servido na hora do jantar.

Meia noite, noite e meia, madrugada, sol nascendo.

Da janela, quatro olhos desassossegados entre persianas trêmulas e respirações suspensas,

avistam um carro na entrada do edifício.  Violeta exuberante, vestido esvoaçante,

cabelos desajeitados, sandálias de salto na mão, sorriso de quero mais,

se despede de um vulto alto e forte, supostamente bonitão.

Um beijo eterno e contundente, facada em dois corações.

 

Naquele instante flagrante, Mario e Maria experimentaram, mais do que nunca,

a perfeição suprema da sintonia. Quatro orelhas arderam,

quatro pernas bambearam no mesmo chão que se abria.

Duas gargantas, um nó. Um soco num peito só.

Pela primeira vez na vida, conheceram o ciúme.  

De corroer os estômagos siameses, suar as mãos entrelaçadas.

Nos corações gêmeos e nas testas parelhas, a mesma dor da traição.

 

 

 

A arte de Fausto Olívio

by jose guilherme vereza em 15 de setembro de 2010 | 8:00

Fausto Olívio sempre foi um homem feminino.

Não que desmunhecasse ou tivesse preferências homossexuais.

Muito pelo contrário. Transitou por grandes amores héteros,

viveu romances arrebatadores, frequentou as entranhas de belas mulheres,

daquelas que muito marmanjo clássico nem ousava merecer chegar perto.

Mas desde pequeno, bocas de Matilde:

- Sei não, esse menino é meio maricas.

 

Fausto Olívio não gostava de futebol.

Dizia ser rude e violento correr atrás de bolas, roçar canelas

ou encostar nos músculos suados dos meninos.

Por isso, tinha a pecha de pintinho doce na vila,

mimadinho e delicado, ou coisa de pouca machesa.

Tudo inveja dos moleques suarentos,

nhaquentos repulsivos às menininhas em flor,

que rodeavam Fausto Olívio com olhares cúmplices

e suspiros das maiores profundezas.

 

Se não gostava de bonecas, era doido por panelinhas.

Picava plantinha, amassava florzinha, misturava com aguinha.

- Tá pronta a comidinha, quem vai querer?

E não havia, entre elas, menina que não raspasse as panelas.

 

E Fausto Olívio foi crescendo, sempre com seu jeito fofinho,

desses ursinhos que dá vontade de dormir abraçadinho.

Tomou corpo o rapaz de homem feito e bonitão.

Mesmo ser se dado a esportes, tinha músculos bem definidos,

porte de garanhão e volume no calção.

Mas do macho que se espera macho, provedor e donatário,

ciumento e proprietário,

era pura ilusão.

 

Do que ele gostava mesmo era de estar com as meninas.

Vaidoso e bon vivant, bom de papo e confidente,

com seu chame diferente,

recitava poesia, falava prosas bonitas,

trocavam segredos e opiniões.

 

Desenhava as amigas como ninguém.

Até no papel de pão, fotografava com lápis a alma e expressão das moças,

ousando às vezes imaginá-las nuas, com detalhes de curvas e traços,

púbis e pelos, jeitos e olhares.

Nunca levou um tapa na cara por causa disso.

Era a ousadia quase sempre premiada.

Seguiam-se, não raro, beijos, abraços, afagos,

entregas intensas noite adentro.

 

Sabia as músicas que cada uma gostava

e arriscava o que podia num plangente violão.

Fausto Olívio cozinhava para as mulheres.

Do omelete ao cassoulet, do assado ao guisado,

no forno, nas trempes ou no fogão,

era um mestre em encontrar o

Ponto G nas papilas gustativas.

 

E haja encantamento.

 

Conhecia a alma feminina, a essência da mulher,

os mistérios das fêmeas, tudo por intenção ou intuição,

tanto fazia, o resultado é que nunca vivia sozinho,

micado ou abandonado.  

 

E assim, Fausto Olívio foi enfileirando uma a uma.

Primeiro as da vila da infância. Depois as do colégio,

em seguida as da Escola de Belas Artes

e da vida que fervia ao seu redor.

Até que se ajeitou firme com uma atriz,

um tico mais velha que ele, com quem casou e mudou.

 

Tiverem um casal de filhos,  

uma casa com fogão de lenha, atelier e jardim.

Como casamento convencional chegou a durar muito.

Mas sem aviso nem sinais,

a atriz, de danado coração,

tomou um desvio sem volta,

deixando Fausto Olívio triste, sem chão.

Chorou, gemeu, urrou de dor e saudade.

Quis morrer, parar de comer, não parar de beber.

Mas nada é tão sedutor do que um homem de alma aberta,

assumida sensibilidade, artista e apaixonado,

carente e abandonado.

 

Choveu de tudo no seu jardim.

Amigas da meninice, colegas da Belas Artes,

musas dos primeiros rabiscos, parceiras de excentricidades,

transeuntes de suas esquinas.

Todas a ex reais, platônicas e virtuais aparecerem em seu socorro.

Sem falar naquelas que o tempo reservou

para encantos mais recentes.

 

Fausto Olívio não se casou de novo.

Mas nunca se sentiu sozinho. Teve genro, nora e neto.

E uma infinidade de mulheres ao estalar dos dedos.

 

Fim de semana passado, Fausto Olívio fez 70 anos.

Abriu os portões do jardim.

Foi para o fogão de lenha e se esbaldou nos caldeirões.

Vinho a rodo, champanhe até dizer chega, vodkas polonesas,

pinga, cerveja, até absinto, o néctar dos artistas atrevidos.

A festa corria solta, música sem parar.

De homem, um filho, um genro, um neto e só.

No mais, o gênero feminino em peso:

noras, primas, colegas,

artistas, amigas e todas as ex

que os tais 70 anos guardaram,

em segredo, ou escancarados,

nada importava naquele momento

de tantas namoradas, amantes,

casinhos e paixões,

mulheres que pintou,

musas que desnudou,

amores vividos ou a viver.

Nada faltou de afeto, carinho e delírio

naquela tarde de domingo.

 

Já era noite quando o neto tomou a palavra.

Tlim tlim, garfo batendo no copo, segura esse baticum:

- Quero fazer um brinde ao meu avô.

Mas antes, uma pergunta:

vovô, qual o segredo desta vida plena,

de tantos amores e amores reunidos?

 

Fausto Olívio levantou-se. Com ele, a taça de vinho,

já cansada de tanto trabalhar:

- Meu querido neto,  

a arte de amar e ser amado por uma mulher,

é… é… é… nunca gozar antes dela!

 

Houve um silêncio constrangedor.

Apenas um solitário e estridente:

- É por isso que eu te amo!

No mais, muitas se entreolharam de cabeças baixas,

respirações suspensas e sorrisos de soslaios.

O neto, expedito, gritou um Viva ao vovô!

e emendou um urgente Parabéns pra você.

 

Logo depois de cortar o bolo,

suspenderam as bebidas.  

Uma ressaca de segunda feira

começava a despontar.

 

 

 

 

 

À sombra de Chanel

by jose guilherme vereza em 8 de setembro de 2010 | 11:27

“O melhor do amor é fazer amor. Pena que precisamos de um homem para isso.” A citação é de Coco Chanel, no auge de sua crise pos adolescente, onde homens a confundiam com bonequinha exibida, cantando musiquinhas pueris nos cabarés franceses. Coco não ficou presa às suas palavras impulsivas por muito tempo, tanto que conseguiu na vida ter alguns casos de amor ardentes, entregando-se a homens cordiais e extraordinários, chorando por eles, sentindo saudade deles, urrando de sentimentos tidos como menores, como ciúmes, mágoas e invejas. Apesar das fraquezas ditas de mulherzinha, teve coragem para se virar sozinha. Perdeu o amor da sua vida num desastre de automóvel.  Teve um caso com um oficial alemão na França ocupada, o que lhe rendeu um isolamento da sua emergente carreira de estilista. Foi amante do igualmente desassossegado músico Igor Stravinsky, com quem viveu uma relação intensa e nada convencional. Coco jamais se casou. 

Se por fora era bela viola, decidida e destemida, por dentro era um pão bolorento de inseguranças e sequelas de uma infância em orfanato.

Mesmo sem a força da mídia de hoje, Chanel influenciou o inconsciente de algumas mulheres mundo afora. Elvira Pimentel foi uma delas. Nascida em berço de ouro de uma família dona de um casarão em Botafogo, viu seu esplendor ruir nas mãos cheias de cartas do seu pai viciado em jogatina. Passou a adolescência numa vila da Tijuca, dividindo quarto e vida com primos nada abastados, resultado de um mau negócio do pai numa roleta, que logo depois, perderia a última rodada para uma cirrose hepática impiedosa.

Elvira sentiu o baque, mas não perdeu a pose. Aluna inquieta dos bordados dos tempos do Sion, desenvolveu seu talento fazendo bicos alinhavando vestidos de noiva de uma infinidade de normalistas tijucanas prometidas a garbosos cadetes das Agulhas Negras. Todas recorriam às rendas e bordados de Dona Tita, a costureira fina vizinha da vila, que acolheu a prendada órfã como aprendiz, função que durou menos de dois anos, tempo suficiente para que sua astúcia e sua vocação por independência ajudassem a botar as suas manguinhas de fora. O estopim se deu quando a indomável auxiliar  se deixou seduzir por um alto funcionário do Banco do Brasil, pai de uma das noivas de Dona Tita, homem maduro e poderoso, com quem Elvira decidiu entregar suas virtudes. Foi um escândalo na vila. A menina foi enxotada para um quitinete em Copacabana, onde, aí, sim, sentiu na carne as dores da independência precoce.

Guerreira, empregou-se num magazine de moda feminina,  onde chuleava vestidos e costumes prèt-a- porter. Incorrigível, Elvira se enrabichou com o gerente da loja, outro casado na sua vida. O caso foi relâmpago, mas não escandaloso. O gerente ficou tão triste com o fim do affair quanto culpado em relação à família. Transferiu-se da cidade,  deixando, vejam só, pavimentado o caminho para Elvira tornar-se a mais talentosa costureira de Copacabana. Seus cortes e  personalidade começavam a se alinhavar.

Era o início da década de 60, quando o Brasil, recém bicampeão do mundo de futebol e berçário da bossa nova, mostrava-se criativo, inteligente, promissor e feliz. Elvira embarcou na onda do otimismo, da ousadia e da vida levada com arte, sensibilidade e poesia. Frequentava rodas musicais, bebia uísque e Cuba Libre, soltava altas gargalhadas e espargia sua personalidade jogando fumaça na cara de homens que se atreviam empavonar para os seus lados.

Seus preceitos seletivos eram implacáveis. Não ia com qualquer um, mas nunca desprezava uma boa noite de sexo, quando percebia algum predicado no candidato.

O que odiava era ter que cortejar um homem no dia seguinte. Temia flores e ameaça de compromissos. Sua liberdade era tão preciosa que chutou o balde do magazine e mergulhou numa vida de figurinista freelancer do teatro.

Foi quando conheceu Leila Diniz, com quem se identificou à primeira vista. Ficaram amigas e por ela, Elvira descobriu a sordidez, até então inimaginável.

Na esteira do golpe militar de 1964, Leila Diniz foi vista como uma ameaça à moral e aos bons costumes. Desapareceu por uns tempos, deixando amigos mais do que apreensivos: suspeitos. E Elvira foi convidada a dar depoimentos a fardados pouco gentis. Não chegou a levar choque no clitóris, mas passou dias numa cela escura ouvindo pingo d água. Saiu de lá sem ter aberto o bico, em paz com sua consciência e envolvida com um fato que mudaria sua vida. Por ironia do destino, permitiu que um major que assistia seus depoimentos se encantasse por ela, exatamente um daqueles cadetes que na noite de núpcias despira sua noiva de um delicado vestido de Dona Tita.  Com o oficial de coração mole, Elvira viveu um romance tórrido e clandestino. Tinha o homem a seus pés. Cínica e cerebral, usou de todos os recursos para fazer com que o amante babão aliviasse da tortura algumas mulheres que passaram por seus porões. Para disfarçar o cinismo de caso em si, só um cinismo maior: convenceu o major a  apresentá-la a sua mulher, que vagamente se lembrou das provas na casa de Dona Tita, quando a menina recém saída do Sion era apenas uma tímida e comportada espetadora de alfinetes. Elvira passou a vestir não só a esposa do amante, mas um bom número de esposas do oficialato, com suas imitações do estilo Chanel. Nos dez anos seguintes, seu ateliê cresceu. Vestia senhoras oficiais e extra oficiais de ministros e políticos biônicos que infestavam o Brasil. Numa viagem a Paris, participando da comitiva de um influente mecenas do regime militar, tentou visitar a verdadeira Coco Chanel. Não foi recebida.

Elvira morreu muito antes de a ditadura começar a ruir por dentro.

De sua semelhança com o estilo excêntrico da imperatriz francesa da moda e seus amores estapafúrdios, ficaram apenas traços. Um deles dá o que pensar: Elvira jamais costurou botão na camisa de um homem.

 

 

Tensões pré eleitorais

by jose guilherme vereza em 1 de setembro de 2010 | 7:24

Encontraram-se na roda de samba no bar da praça. Tudo foi muito rápido.

Olhares e sorrisos, certezas de que já se conheciam pelos corredores da faculdade onde faziam pós graduação. Há muito se deviam. Desejos contidos, flertes silenciosos, investigações terceirizadas sobre os nomes da cada um. Funcionou.  Stella da Sociologia? Fabio da Economia? Muito prazer. E mais não disseram. Latinhas de cerveja  fazendo tim tim, batuques na mesa. Gingados e requebros, palavras poucas, gestos eloquentes, muita mão boba. Como o ambiente exigia respeito, foram se beijar no lado de fora. Depois da eternidade de línguas sôfregas e curiosas, resolveram andar pela rua. Mãos dadas, baticuns no coração.

 

- Stella da Sociologia. Legal te encontrar aqui.

- Quer saber, Fabio? Foi de caso pensado.

- Bem pensado.

- Sabia que você curtia um samba de raiz.

- Bem informada, hein? E você, curte samba de raiz?

- Claro, seu convencido! Não vim aqui só por você. Se fosse uma Rave nem aparecia.

- Festa Rave nem pensar.

- Hummmm, afinidades musicais. Isso é bom.

- Ah, não….

- Que foi, Fabio?

- Olha lá. Militante a essa hora.

 

Um casal com a camisa PT distribui panfletos com a cara da Dilma. Stella guarda na bolsa. Fabio joga na lixeira.

 

- Você não vai votar na Dilma, Fabio?

- Não. Algum problema?

- Por enquant, nenhum problema. Mas seu candidato vai perder.

- Você sabe qual é meu candidato?

-  Só pode ser o Serra. Marina não parece que faz sua cabeça de economista.

- Quem não faz minha cabeça é a Dilma.

- Mas não voto apenas na Dilma. Voto num Brasil novo, que o mundo inteiro está apostando. Voto num Brasil que está dando certo. Voto num governo com quase 80% de aprovação.

- Tá vendo? Você vota na Dilma porque o Lula mandou.

- Visão simplista e radical. Dilma foi uma ministra firme, tem idéias próprias.

- Tem. É estatizante, atrasada, quer controlar a mídia, tem rabo preso com a cambada do mensalão, rancorosa, raivosa.

- E o Serra? Centralizador, administrador autoritário, elitista, tem rabo preso com os poderosos da mídia, antipático.

- Ah, Dilma é muito simpática, Stella. Simpática só pras ditaduras populistas da America Latina.

- Daqui a pouco você está dizendo que ela é bandida, foi terrorista e matou um soldado.

- Peraí, Stella.Você não me conhece. Não mistura as coisas. Tenho maior respeito por quem pegou em armas para lutar contra a ditadura.

- Quantos anos você tem?

- Não importa. Não vivi a época de chumbo, mas estudo, penso, leio. Gabeira seqüestrou embaixador, foi preso, torturado, exilado e evoluiu. Serra e FHC foram exilados, sofreram perseguições e evoluíram. A esquerda que a Dilma representa não evoluiu.

- Mas ela vai ganhar. É o povão quem quer. O povão que ascendeu socialmente, o povão que encontrou sua  representatividade, o povão que a elite nunca considerou e que agora tem que considerar.

-Fala sério, você acha que com apoio de Sarney, Collor e toda a coronelada do nordeste, a Dilma vai considerar o povão, o Brasil, o brasileiro?

- São alianças democráticas que garantem governabilidade.

- Falou a cientista política.

- Preconceito seu. Cientista político, do jeito que você fala, é FHC. Bom de papo, fala nove línguas. E ruim de voto.

- Sem FHC, Lula não seria o Lula que é. Você se esqueceu do Plano Real? Lembra de uma coisa chamada inflação?

- Ah é? Onde estão os gênios do Plano Real? Batendo cabeça, tentando não perder mais uma eleição. Só falta você dizer que o povo não sabe votar.

- De novo, você não me conhece. O fato de eu não votar na sua candidata não faz de mim um anti democrata, um golpista. Paciência. Aceito que o Brasil vá ter um fantoche na presidência, uma boneca inflável que o Lula sopra.

- Metáfora superficial, preconceituosa e ofensiva.

- Ofendi as bonecas infláveis?

- Cuidado com as palavras!

- Vai me censurar?Fazer dossiês contra mim?

- Você é grosso! Tucaninho mauricinho! Elite arrogante! Direita disfarçada de liberal! Raso! Burguesinho derrotado!

 

As veias saltaram. Os dois viraram estátuas no meio da praça. Olhos nos olhos, nariz com nariz. Mudos e tensos. Foi Fábio quem quebrou o silêncio, segurando delicadamente o queixo de Stella.

 

- Você fica linda raivosa e antipática. Se a Dilma fosse bonita assim, talvez…

-  Desculpe, Fabio. A gente mal se conhece e já estamos quebrando o pau por causa de política.  Estamos dando voltas na praça a madrugada toda, e não vamos chegar a lugar nenhum.  

- Estamos perdendo tempo?

- Talvez. Olha lá, Fabio. O pessoal do bar está indo embora.

- Verdade. O samba acabou.

-  Se fosse uma Rave a gente estaria fazendo sexo atrás do galpão.

-  Tá vendo, Stella. Pelo menos estamos pensando alguma coisa em comum.

-  A tal da afinidade musical?

- Outras afinidades… que soam como música. Vem cá, vem…

 

Fábio e Stella saíram da praça aos beijos e abraços direto para um motel. Assistiram ao sol nascer da varanda de frente para o mar, repetiram doses e doses de amor o dia inteiro. Despediram-se com o piscar de olhos dos apaixonados, engrenaram semana seguinte um namoro tão gostoso, quanto fogoso e ardente, com muita briga por conta  de eleições. Vai explicar: descobriram que discutir Dilma e Serra tinha um quê de afrodisíaco.

 

 

 



perfil

José Guilherme Vereza é publicitário, consultor, professor, escritor, blogueiro. Também é botafoguense, ex-tijucano, sempre lebloniano, neopaulistano. Tem mulher, duas filhas, babá, cozinheira, passadeira. E faxineira que vem quinzenalmente. Tem dois filhos homens, que sempre chegam com uma nora e namoradas diversas. Além delas, tem mãe, madrasta, irmã, nora, cinco cunhadas, duas sobrinhas, uma sogra-avó, uma sogra-madrasta, 37 primas, várias alunas e um milhão de amigas. Pode-se dizer que é um Ph.D. em TPM.