» A barba e o banhoJose Guilherme Vereza

A barba e o banho

by jose guilherme vereza em 25 de agosto de 2010 | 8:38

Toda vez que faz a barba,

Onofre Badia toma coragem.

Se acha bonito e confiante,

joga no bicho, acerta um milhão.

Dá voltas ao mundo, entra em campo,

faz gol da vitória, fala em público,

compra carro zero, zera prestações,

chuta o chefe, xinga o guarda,

zomba do médico, enche a cara,

come torresmo e baba de moça,

Elege seu candidato, muda o governo,

escreve artigos, protesta na porta do quartel,

briga com o síndico, denuncia o bandido,

o político corrupto, o lixo na rua

e a dona do cachorro porcalhão,

Namora a vizinha atriz,

desfila com a vizinha atriz,

faz questão de que todos saibam

que está namorando a vizinha atriz.

Provoca ciumeira na vizinha Cristina Pri,

termina o namoro com a vizinha atriz.

Consegue, enfim, um sorriso da vizinha Cristina Pri,

anota o telefone da vizinha Cristina Pri,

jura ligar para vizinha Cristina Pri.

Enche o peito, prende a respiração, dispara o coração,

 - coragem, irmão -, deixa o telefone tocar cinco vezes.

Até desistir.

Enxugando o rosto já liso e macio,

Onofre Badia reza.

Para barba crescer logo.

 

 

Toda vez que entra no banho,

Cristina Pri vira expedita,

baixa o santo da determinação.

E resolve tudo. A solução da equação,

a idéia da reunião, a próxima viagem,

quem vai dormir com quem,

o destino dos claudicantes,

a escalada dos miseráveis,

a sentença dos patifes, o caso da Palestina,

a obviedade dos enigmas,

o mistério das profundezas,

o voto, o imbróglio,

o problema, o dilema,

o presente da amiga, o menu da festa,

o lugar das flores, a pauta do seminário,

a ordem da entrada, a hora da saída,

o futuro do Brasil.

Enquanto a água cai, é decidida e resoluta.

Jura para espumas e ladrilhos que,

dessa vez, tudo será diferente.

Se resolve atender aos sorrisos do vizinho Onofre Badia,

decide, então, planejar.  

O flerte, o olhar, o beijo.

O toque, o abraço, o encaixe perfeito.

A roupa despida, o corpo oferecido.

O passeio das mãos, os pelos ensaboados, a respiração.

O vai e vem, o entra e sai, a dança sem fim.

O suspiro, o gemido, o ái.

Nem se dá conta do telefone que toca.

Cinco vezes, até desistir.

Fim do banho. Torneiras torcidas,

pingos escassos, toalha na mão.

A vida esfregando lá fora.

 

E assim são Onofre Badia e Cristina Pri.

A cada barba, a cada banho, o sonho de ser o que não é.

 

 



Últimos comentários (1)

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  1. Olímpica fez um comentário:

    25 de agosto de 2010 | 18:50 #

    ZéGui, uma maravilha isso! Acho que todos nós, vez que outra, desejamos ser outros tantos.

    Agora, ao contrário da Cristina, no banho é que todas as minhas fichas caem.

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perfil

José Guilherme Vereza é publicitário, consultor, professor, escritor, blogueiro. Também é botafoguense, ex-tijucano, sempre lebloniano, neopaulistano. Tem mulher, duas filhas, babá, cozinheira, passadeira. E faxineira que vem quinzenalmente. Tem dois filhos homens, que sempre chegam com uma nora e namoradas diversas. Além delas, tem mãe, madrasta, irmã, nora, cinco cunhadas, duas sobrinhas, uma sogra-avó, uma sogra-madrasta, 37 primas, várias alunas e um milhão de amigas. Pode-se dizer que é um Ph.D. em TPM.