Vivemos juntos por muitos e muitos anos.
Felizes, tranqüilos, companheiros.
Do seu calor materno, nasceram meus quatro filhos. Da sua alma fraterna, um milhão de amigos.
Com sua inspiração, conquistei uma vida de ofício produtiva, criativa, saudável e prazerosa.
Dormindo e acordando juntos todos os dias, sonhamos e realizamos coisas, choramos e morremos de rir, vivemos êxtases e decepções normais de toda relação.
Nunca imaginei que um dia poderíamos nos separar.
E nos separamos.
Fazer o quê? Não que tivéssemos motivos cruciais, a vida quis assim, paciência, mas fomos levados pelo destino a repartir o dia a dia longe um do outro.
Hoje estamos distantes.
Nada que me tenha feito esquecê-la. Muito pelo contrário. Ainda fecho os olhos, ouço suas canções. E sonho com seus contornos perfeitos, sua beleza morena e dourada. Passeio a imaginação por sua nudez sincera, me embrenho em sua mata densa, respiro seu cheiro de tesão, sinto sua pulsação crescente e sua gargalhada feliz.
Seu charme alto astral se apossou das minhas entranhas e agradeço aos deuses de todas as raças – ela me ensinou assim – o privilégio de ter incorporado o seu bom humor, seu desprendimento e seu compromisso com a alegria no meu jeito de tocar a vida.
Tivemos alguns encontros recentes. Fortuitos, admito.
Aconteceu uma meia dúzia de vezes desde que nos separamos. E confesso que em todas essas vezes, tremi.
As pernas bambearam, as mãos suaram, a respiração fraquejou e o coração chorou.
Não a reconheci maltrapilha e maltratada, mal vestida e rabugenta, estressada e amedrontada, sofrida e mal amada, com estranhos comportamentos apequenados, estacionando carros com quatro rodas nas calçadas, fechando cruzamentos, furando filas e sinais, arranjando confusão.
Apesar dos desencontros, jamais deixei de amá-la.
E por isso mesmo nossos reencontros me foram tão difíceis, atormentados pela saudade e pelo desengano.
Mas eis que neste fim de semana, como um raio que reacende um grande amor, os ventos mudaram.
Ela me apareceu. Linda como sempre foi. Generosa e insinuante. Exuberante como ninguém. Surpreendente como ela só. Renascida, encantada e encantadora. Com seu sorriso que me abraça e seu abraço que me acalma. Exalando prazer por todos os poros. Alto astral como merece. Feliz como nasceu para ser.
E mais uma vez, chorei. Por ela, por mim e por nós.
E mais uma vez, gritei eu te amo.
Porque mais uma vez, ela me mostrou sua força meiga e sedutora, capaz de deixar qualquer um embevecido, especialmente a mim – neo paulistano postiço -, de peito estufado e nariz em pé, orgulhoso de ter nascido, crescido e me embalado em seus braços.
Ela é a minha cidade.
Rio, maravilhosa deusa olímpica, minha paixão.