» 2009 » outubroJose Guilherme Vereza

Homens bonitos

by jose guilherme vereza em 28 de outubro de 2009 | 0:00

Quando o piloto australiano Marc Webber subiu no pódio do GP de Interlagos, Carlos Afonso comentou com a mulher:
- Que homem bonito.
- Bonito não, lindo!

Amargou um ciuminho secreto e barato, mas manteve a fleuma e devolveu com soberba.

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O plenário

by jose guilherme vereza em 21 de outubro de 2009 | 16:21

Durante décadas, a família se reunia pelos motivos mais relevantes. Sempre depois do jantar, na sala de estar do casarão. O irmão mais velho puxava o assunto.

- Imaginem vocês, Maria Clara está querendo raspar as pernas.

- O que você tem com isso, Carlos Egberto?
- O que eu tenho com isso? Sou seu irmão mais velho e você é uma pirralha querendo ser gente.
- Calma, calma todo mundo. Um de cada vez. Por que essa vontade, Maria Clara?
- Mãe, eu não sou pirralha. Tenho 13 anos. A senhora bem sabe que já fiquei mocinha…
- Tá vendo, mãe? Tá vendo? Revelando intimidades.
- Cala a boca, Carlos Egberto. Você não sabe de nada de mim.

No colégio estão me chamando de Maria Caranguejo.
- Eu prefiro uma irmã caranguejo do que uma fedelha metida a mulherzinha. Você quer é mostrar essas pernas.
- Não chora, Maria Clara. Seu irmão tem razão. É muito cedo para você estar se exibindo. Tudo tem a sua hora, minha filha.
- Mãe, ficar mocinha é ter cabelinho lá embaixo? Isso eu já vi que ela tem… fez xixi de porta aberta, eu vi, eu vi…
- Já pro quarto Osvaldinho!! Obedece a sua mãe! Menino inconveniente!

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A primeira vez

by jose guilherme vereza em 13 de outubro de 2009 | 21:14

No dia em que fizeram 15 anos juntos dispensaram as festas e celebrações populosas. Resolveram voltar às priscas eras, revivendo as primeiras atrações, o primeiro beijo, a primeira vez na cama.

Tudo de fato começou no filme Perfume de Mulher, com Al Pacino, mas como não existia mais o cinema e, sim, uma farmácia, marcaram o ponto do flashback entre displays de analségicos, sabonetes e absorventes.
- O filme era mais romântico, Augusto. E não tinha esse cheiro de acetona no ar.
- Tudo bem, Taninha. Vamos abstrair. Vamos começar do início.

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Por que eu grito eu te amo

by jose guilherme vereza em 8 de outubro de 2009 | 15:31

Vivemos juntos por muitos e muitos anos.
Felizes, tranqüilos, companheiros.
Do seu calor materno, nasceram meus quatro filhos. Da sua alma fraterna, um milhão de amigos.
Com sua inspiração, conquistei uma vida de ofício produtiva, criativa, saudável e prazerosa.
Dormindo e acordando juntos todos os dias, sonhamos e realizamos coisas, choramos e morremos de rir, vivemos êxtases e decepções normais de toda relação.
Nunca imaginei que um dia poderíamos nos separar.
E nos separamos.
Fazer o quê? Não que tivéssemos motivos cruciais, a vida quis assim, paciência, mas fomos levados pelo destino a repartir o dia a dia longe um do outro.
Hoje estamos distantes.
Nada que me tenha feito esquecê-la. Muito pelo contrário. Ainda fecho os olhos, ouço suas canções. E sonho com seus contornos perfeitos, sua beleza morena e dourada. Passeio a imaginação por sua nudez sincera, me embrenho em sua mata densa, respiro seu cheiro de tesão, sinto sua pulsação crescente e sua gargalhada feliz.
Seu charme alto astral se apossou das minhas entranhas e agradeço aos deuses de todas as raças – ela me ensinou assim – o privilégio de ter incorporado o seu bom humor, seu desprendimento e seu compromisso com a alegria no meu jeito de tocar a vida.
Tivemos alguns encontros recentes. Fortuitos, admito.
Aconteceu uma meia dúzia de vezes desde que nos separamos. E confesso que em todas essas vezes, tremi.
As pernas bambearam, as mãos suaram, a respiração fraquejou e o coração chorou.
Não a reconheci maltrapilha e maltratada, mal vestida e rabugenta, estressada e amedrontada, sofrida e mal amada, com estranhos comportamentos apequenados, estacionando carros com quatro rodas nas calçadas, fechando cruzamentos, furando filas e sinais, arranjando confusão.
Apesar dos desencontros, jamais deixei de amá-la.
E por isso mesmo nossos reencontros me foram tão difíceis, atormentados pela saudade e pelo desengano.
Mas eis que neste fim de semana, como um raio que reacende um grande amor, os ventos mudaram.
Ela me apareceu. Linda como sempre foi. Generosa e insinuante. Exuberante como ninguém. Surpreendente como ela só. Renascida, encantada e encantadora. Com seu sorriso que me abraça e seu abraço que me acalma. Exalando prazer por todos os poros. Alto astral como merece. Feliz como nasceu para ser.
E mais uma vez, chorei. Por ela, por mim e por nós.
E mais uma vez, gritei eu te amo.
Porque mais uma vez, ela me mostrou sua força meiga e sedutora, capaz de deixar qualquer um embevecido, especialmente a mim – neo paulistano postiço -, de peito estufado e nariz em pé, orgulhoso de ter nascido, crescido e me embalado em seus braços.
Ela é a minha cidade.
Rio, maravilhosa deusa olímpica, minha paixão.



perfil

José Guilherme Vereza é publicitário, consultor, professor, escritor, blogueiro. Também é botafoguense, ex-tijucano, sempre lebloniano, neopaulistano. Tem mulher, duas filhas, babá, cozinheira, passadeira. E faxineira que vem quinzenalmente. Tem dois filhos homens, que sempre chegam com uma nora e namoradas diversas. Além delas, tem mãe, madrasta, irmã, nora, cinco cunhadas, duas sobrinhas, uma sogra-avó, uma sogra-madrasta, 37 primas, várias alunas e um milhão de amigas. Pode-se dizer que é um Ph.D. em TPM.