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Raposa Vermelha e Urso Branco

by jose guilherme vereza em 30 de setembro de 2009 | 14:35

Quando todos saíam do escritório, começava a sua hora extra. Solitário, afrouxava a gravata diante da tela do computador.
- Raposa Vermelha, vc tá aí?
- Urso Branco! Até que enfim vc apareceu!
- Tinha muita gente por perto. Está sozinha?
- Completamente. Só sua, toda nua.
- Vc é uma poetisa.
- E vc é meu muso. Rs rs rs.
- Existe muso?
- Sei lá… mas que você me inspira, me inspira.
- O que fez hoje?
- Ôpa! Não interessa. Nada da nossa vida nos interessa, certo?
- Já sei. Combinamos isso desde a primeira mensagem. Nada de fotos, nada de web cam. Mas não resisto saber de vc. Vai que escapa alguma informação excitante.
- Quer saber? Cheguei cedo do trabalho, fui à academia, depois ao salão. Massagem, pés, mãos, depilação…
- Virilha?
- Claro!
- Ah, não, não exagera… pelo menos deixou o triângulo de bom tamanho e bom contorno?
- Pra que vc quer saber?
- Não quero saber. Quero imaginar.
- Então imagina. Felpuda, ruivinha, natural.
- Vc me enlouquece.
- Gosto disso. Te enlouquecer.
- Agora, falando sério…
- Estou falando sério, seríssima.
- Para de me zoar… não está na hora de a gente se conhecer? De verdade?
- Que é isso? Um pedido de casamento? Uma proposta de acasalamento além web?
- Mais ou menos por aí… quero mais do que websexo.
-… mais, mais, mais… yes, yes, yeess…
- Vc não me leva a sério. O que mais posso fazer, prometer, jurar? Ajoelhar no mouse?
- Jura que sou sua única na Internet?
- Juro.
- Não mente para mim.
- Não minto para vc.
- Então prova. Quero ver vc encarar a realidade: amanhã, meio dia e meia, na suíte 42 do Crazy Love.
- Vc está me excitando. Continua…
- Hora do almoço, vc vai me almoçar todinha.
- Continua…
- Eu chego antes e espero vc na cama. No escuro, breu total, janela fechada, black out, nem abajur.
- Nem abajur?
- A gente vai se sentir sem se ver… a gente vai gozar muuuuito sem se conhecer…
- Não para, não para…
- A gente vai se derreter em carinhos e carícias, vai gemer sem dar uma palavra, vai recomeçar tudo de novo quantas vezes quiser… até que…
- Diz, diz…
- Até que vc vai para o chuveiro, tudo no escuro, se veste no banheiro mesmo e vai embora. Deixa que eu pago a conta. Não tenho frescura.
- Acabou?
- Exatamente para não acabar, que a gente vai fazer isso. Já pensou se a gente se conhece? Onde fica a poesia, a imaginação, o tesão?
- Feito. Raposa Vermelha e Urso Branco. Amanhã meio dia e meio no Crazy Love.

Quase não dormiu à noite. Por momentos, varreu com um olhar comovido a mulher que ressonava profundamente ao seu lado. Maldosa, semi vestida por um camisetão, nada por baixo, deixava ao relento a relva bem cuidada protegendo as pétalas delicadas, como se clamassem em silêncio por um sexo devido, sempre adiado pelas circunstâncias do cotidiano. Gostava dela. Mas pela primeira vez estava por cometer a tal da traição. Tantos anos de afeto e carinho, companheirismo e cumplicidade, não iriam resistir à tentação de um tesão aventureiro na Internet.

*****
Ao terceiro toque na porta, ouviu uma voz dissimulada, abafada, indefinida.

- Entra e não fala nada.

Lembrou do amigo que tinha caído no conto do travesti misterioso. Mas em vez de recuar, foi em frente. Impulsionado por uma excitação travessa, partiu a tatear o escuro, em direção ao desconhecido, encontrando entre topadas e esbarrões, a cama, enfim, que emanava um suspirar ofegante de um corpo completamente nu à sua espera. O urgente despir foi acompanhado de um estridente I just call to say I love you, de um Steve Wonder mais que apropriado – trilha sonora premeditada, que emendou aleatoriamente Jose Feliciano e Ray Charles, só para lembrar que a cegueira não exclui o desejo, muito pelo contrario, é capaz botar mais lenha na fogueira.

E assim, fartou-se de andanças, lambanças e entranças pelas reentrâncias e saliências da Raposa Vermelha, reconhecendo em cada detalhe de sua geografia a amante imaginada, especialmente o seu pompom felpudo supostamente ruivo, por onde se esbaldou como um urso no mel. Perderam-se pela tarde, entraram-se pela quase noite. E conforme o combinado, saiu de lá incógnito, ao som de Cry me a river – arremate irretocável de um Ray Charles encomendado – e com a certeza de que a imaginação, a Internet e o fetiche do amor às cegas fazem uma combinação explosiva de prazer.

O sábio acerto de que tudo aconteceria no escuro e sem palavras deu a impressão de um encontro químico, íntimo, entrosado, um encaixe surpreendetemente perfeito e capaz de incitar uma vontade imensa de repetir a dose. Tanto que ao deixar o motel, teclou ansioso o celular esperto. E arriscou:
- Raposa Vermelha, vc está aí? Foi bom pra vc?
Não tardou a resposta.
- Amei, Urso Branco. Quero mais, mais e mais.
- Amanhã. Mesma hora, mesmo lugar, ok?

*****

Chegou em casa de rabo entre as pernas. Sentimentos transversos faziam do seu peito uma pororoca amazônica. Jantou calado, com o pensamento distante, digerindo uma felicidade secreta, ouvindo nas entranhas I just call to say I love you e Cry me a river. Nem se deu conta do incomum sorriso da mulher. Muito menos percebeu quando ela saiu da mesa esbaforida, para atender ao toque de celular da sua melhor amiga e confidente, a quem cochichou:
- Não posso falar agora, Cris. Estamos acabando de jantar. Deu tudo certo: Urso Branco é o máximo. Amanhã tem mais.

Na fila

by jose guilherme vereza em 23 de setembro de 2009 | 15:09

Encontraram-se no aeroporto.

- Você por aqui?

- Coincidência boa.

- Semana passada, fila do consulado americano, certo?

- Era eu mesma, atrás de você. Muito prazer: Rosana.

- Muito prazer: Leo. Conseguiu o visto?

- Consegui. Na verdade, não estava ali por causa de visto.

- Como assim? Você é como eu? Gosta de filas?

- Sou antropóloga. Estudo o comportamento das pessoas em filas. A passividade, a indiferença, a ansiedade, o respeito, o desrespeito, fila tem de tudo.

- Também sou um observador do ser humano. Escrevo livros de bolso ordinários. Olho para as pessoas e fico imaginando um monte de histórias.

- Sabia que até as Olimpíadas de Pequim não existia fila na China?

- Li sobre isso. Imagina. Uma muvuca de chineses querendo entrar no coletivo de uma vez só.

- E você? Vai viajar para onde? Leonardo, não?

- Infelizmente o Leo é de Leovaldo, mas deixa pra lá. Vou viajar para lugar nenhum. Vou até o check-in e volto.

- Eu também tenho essa mania. Achei que era a única doida no mundo. Encontrei minha alma gêmea.

- Olha aquele executivo apressadinho. Vai comer o celular.

- E aquela ali, com cara de artista plástica deprimida. Que tal?

- Aquele tem cara de mágico de festa de criança.

- Onde?

- Atrás do baixinho, tipo corretor de seguros e bandeirinha nas horas vagas. Está de óculos escuros porque levou um soco do atacante. Impedimento mal marcado.

- Ih …aquela acabou de botar botox.

- É, Rosana, a boquinha arreganhada não nega.

- Ali. A mulher riponga com criança no colo querendo furar fila. É mole?

- Não vai colar. O menino deve ter uns dez anos. A Janis Joplin esperta vai voltar pro fim da fila.

- Ôpa! Chegou a nossa vez. Meia volta!

- Sai você na frente, Rosana, por favor.

- Obrigada pela gentileza. E agora, vai para onde?

- Banco e você?

- Previdência.

- Essa é das boas. Ótima fila.

- São pessoas idosas, curvadas e humildes, carcomidas pela vida, sem esperança, sem futuro, só passado. Me sinto bem quando estou perto delas.

- O que você faz, distribui sanduíches?

- Converso. Aliás, ouço mais do que falo. O que essas pessoas querem é atenção, falar com alguém, reclamar, resmungar, contar suas vidas.

- Boa menina. Invejo seu espírito generoso. Mudando rumo da prosa, topa um cinema à noite? Tem um novo do Woody Allen.

- O filme é bom, já vi. Mas a fila é ótima.

- Combinado.

Rosana chega esbaforida.

- Desculpe a demora, Leo. Passei em uma noite de autógrafos. Fila com vinho branco vagabundo.

- Relaxa. A lotação está esgotada. Só na última sessão.

- Maravilha. Temos fila de sobra.

- E depois, boa menina?

- Fila de restaurante!

- Topo! Tem um japa que inaugurou ali na praça. Restaurante da moda. Vive cheio.

- É esse.

Leo consegue falar com a recepcionista com cara de gueixa.

- Mesa para dois, por favor.

- Cinquenta minutos de espera, senhor.

- Sem problema. Pode colocar meu nome no fim da fila.

Rosana está embevecida.

- Você é o máximo, Leo.

- Temos todo tempo do mundo.

- Coitado daquele sujeito sozinho. Sabe, tenho uma dó danada de quem numa sexta-feira sai para jantar sem ninguém.

- Que nada, Rosana, ele vai encher a carranca de saquê e mexer com a garçonete nissei. O sushiman, que tem caso com a garçonete, vai passar a faca na orelha dele. E servir com shoyo no papel laminado.

- Você é mau, Leo. Me mata de rir.

- Olha o casal ali. Ela impaciente, ele com cara de saco cheio. Não trocam uma palavra.

- Por que se arrumam e saem para jantar com essas caras amarradas? Casamento arrastado. Não tem mais assunto. Nem para brigar.

- Mas jantar fora sexta-feira é sagrado.

- Pois é, amigo. Tem louco para tudo.

- Ao contrário dos entediados, aquele casalzinho não para de se beijar.

- Também reparei, Leo. Beijos demorados, intensos. Só de olhar, fico excitada. Por que não vão direto para um motel?

- O que você disse, boa menina?

- Sei lá…beijos intensos… excitada… motel… sei lá.

- Você me deu ideia. Depois de uma barca de afrodisíacos japoneses…

- Assim, sem mais nem menos?

- Por que não? Sexta-feira os motéis estão cheios. Fila automotiva que não acaba mais. Dá tempo de sobra pra gente se conhecer.

- Você e seus argumentos. Temos muita fila para pensar no seu caso.

O carro para. Os dois recostam o banco e se viram um para o outro. Ela tira a sandália, dobra as pernas, subindo acidentalmente a saia.

- Pronto. Quarenta minutos até pegar a chave da suíte.

- Melhor impossível, Leo.

- Acho engraçado ver os carros saindo.

- Reparou? Saiu um casal de óculos escuros. À uma hora da manhã. Pode?

- Lá vem mais um. Ó, é a mulher quem dirige.

- Vai ver que ela é quem paga o motel. Safado.

- Olha no retrovisor, Rosana. O casal de trás não para de gesticular. Estão brigando?

- Nada mais reconciliador que um motel.

- Ou não. Vão entrar e brigar até ela enfiar o garfo na jugular dele. Ela vai esconder o corpo no porta mala e sair sozinha cantando pneu.

- Olha lá. O carro da frente. O cara também está sozinho. Cadê a mulher?

- A mulher está com a cabeça abaixada, Rosana. Não dá pra ver. Repara como o braço dele sobe e desce.

- Meu Deus, como sou tolinha!

- Tolinha… tolinha… que nada! Você deve ter uma fila de caras rastejantes, um atrás do outro, esperando a vez.

- Eu, hein? Acho que você nem tem fila. Tem uma muvuca igual na China, só de fêmea sedenta se estapeando, se pisoteando, para ver quem chega primeiro.

- Fêmea sedenta é bom. Gosto disso.

- Precisa falar assim? Tão pertinho da minha boca?

- Pre-ciiiii-sa, vem cá, fê-me-a se-den-ta.

- Enfim.

Foi Rosana quem retomou a palavra. Aos suspiros, ao pé do ouvido.

- Hummmm beijo gostoso, abraço gostoso, mão gostosa, gosto gostoso.

- Desconfiava disso desde a fila do consulado, boa menina.

- A fila andou.

- A minha ou a sua?

- A nossa! Olha pra frente, Leo! Não tem ninguém. O cara de trás está piscando farol.

- Inveja.

- Stress.

- Gente maluca.

- Não sabem aproveitar a vida.

E ali mesmo, na cancela do motel, encostaram o carro no recuo da calçada à meia luz, deixando passar uma fila imensa de casais convencionais e apressados. Nem se perturbaram com os olhares curiosos.

Rapidinhas

by jose guilherme vereza em 9 de setembro de 2009 | 15:06

Cinco nano contos de amor para quem tem pressa. Possessividade, fetiche, marasmo, desamor, cumplicidade, paixão, carência, sordidez. Variações de temas que só o fascinante, múltiplo e controverso ser humano é capaz de oferecer. Coisas que a vida nos apresenta a três por dois. Coisas que não dão em poste. Dão em gente.

Antero e Elisa

- Prova teu amor por mim, Antero.

– Como quiseres, Elisa.

– Enfia-te de cabeça na banheira cheia. Por 30 segundos.

– Mas eu só tenho um pulmão, Elisa. Tu sabes. O outro foi carcomido pela tísica.

– Então não me amas.

– Já que insistes, não negarei a prova.

E Antero mergulhou.

Aos vinte segundos, soltou borbulhas.

Aos vinte e cinco, esbugalhou os olhos.

Ao trigésimo, Elisa teve a prova de que Antero

não amaria mais ninguém.

Breno e Brenda

Breno se apaixonou por Brenda.

Bastou um olhar da cabeça aos pés, ocultos por um sapatinho de sola baixa.

Não se despiram no primeiro encontro porque ela relutou.

Breno acabou preferindo assim.

Dia seguinte, procurou Son Wi, o nissei fera em shiatsu,

que lhe ensinou truques de dedos contra pés.

Breno adorava pés.

Procurava alguém que adorasse pés.

Não tinha sido feliz com Lúcia, Flávia, Luzia,

nem com Fernanda.

Talvez pudesse ser com Brenda.

E tome de aulas com Son Wi.

Até que um dia, enfim.

Despiram-se no apartamento de Breno. Depois de alguns Proseccos, Stings e Piazzolas.

Breno não esqueceu de Son Wi.

Danação. Não contava com um joanete.

Amílcar e Jurema

Amílcar e Jurema arrastavam um casamento.

- A partir de agora, só falo com você em inglês, Amílcar.

- Tá maluca, Jurema? Você não sabe nem dizer “good morning”.

- O que quer dizer isso?

- “Bom dia”, sua burra.

- Então nem “bom dia” eu digo mais.

Aos silêncios, chegaram às bodas de ouro.

Beto e Júlio

Beto e Julio, casal gay, enganaram-se de cruzeiro.

No lugar de um transatlântico feérico,

encontraram um navio da terceira idade.

Só velhos. Muita cadeira de rodas.

Muita dentadura se perdendo no oceano.

Muito bingo e dança até as 9h da noite. E só.

Beto e Júlio não suportaram o quinto de dia de alto mar e marasmo.

Saíram de madrugada batendo de camarote em camarote:

- Iceberg! Iceberg! Iceberg!

Enfim, o cruzeiro balançou. Teve até helicóptero da guarda costeira.

Marilice e o trem

Marilice não gostava de pegar trem.

Dizia que homens abrutalhados esfregavam seus colossos nas suas abundâncias.

Um dia, Marilice arrumou um emprego mais conveniente.

Menos trabalho, mais salário.

Até passou a andar de van.

Pegava no começo da linha e ia até o final do ponto.

Sentadinha. Sem que ninguém a importunasse.

Sem que ninguém prestasse atenção nas suas abundâncias.

Marilice não estava feliz.

Voltou ao trem.

Mirinha, Almira e Dona Almira

by jose guilherme vereza em 1 de setembro de 2009 | 21:00

D. Almira não é fácil. Comanda com mão de ferro o pessoal de um escritório de consultoria contábil. Manda e desmanda nos boys, na turma da faxina, no rapaz do cafezinho, no menino do almoxarifado, nas moças da copa, nos nerds do CPD.

Os fornecedores se pelam de medo de D. Almira. Enlouqueceu vários, com requintes de crueldade e humilhação. Levou o lavador de carpetes às lágrimas porque não conseguia tirar uma mancha de café do chão do corredor. Fez um eletricista tremer de choque até ter certeza de que o bocal da lâmpada estava mesmo em curto. Espinafrou o entregador da padaria por causa de um sanduíche borrachento.

‘Enigmática e empedernida, a chefe finge não se dar conta dos motivos que fazem o rapaz aparecer sempre na sua sala

É cheia de manias impiedosas. Sempre deixa quem tem pressa esperar além da conta por uma assinatura sua em algum protocolo de entrega. D. Almira tem problema com assinatura. Jamais consegue fazer uma igual à outra. Na hora de assinar, brotam cachoeiras de suores nas axilas, típica somatização de uma crise nervosa de identidade desapercebida. É sofrido escrever seu próprio nome. Neura secreta adquirida quando, ao demitir um funcionário, o rapaz dirigiu-lhe impropérios. Além de disparar um desaforo acachapante, um dedo em alguma ferida não cicatrizada.

- Ninguém gosta da senhora, D. Almira. Nem mesmo a senhora gosta da senhora.

Não que seja um pote de feiúra, longe disso. Seu corpo de senhora bem conservada é vestido geralmente de saias justas aos razoáveis quadris e de blusas de bom gosto. Abotoadas em meio decote, abrigam um par de seios tão generosos quanto discretos. Talvez devesse ter provocado grandes arroubos na juventude. Mas de tão misteriosa e obstinada pelo trabalho, jamais deixou algum charme fluir ou escapar fagulhas sobre sua vida particular.

Seu ar severo não permite intimidades nem afetos. Impõe medo aos subordinados, cerimônia aos colegas e respeito aos superiores.

Um dia, é contratado Torquato. Rapaz reservado, tão tímido nas primeiras aparências quanto atrevido no fundo da alma escondida. Contrariando qualquer lógica das idades, em vez de abrir suas secretas penas de pavão para funcionárias jovens e viçosas, Torquato perde-se numa paixão louca e platônica por D. Almira.

Enigmática e empedernida, a chefe finge não se dar conta dos motivos que fazem o rapaz aparecer sempre na sua sala, com uma retórica rebuscada, papinhos dos mais ultrapassados e inócuos.

- D. Almira, seus olhos são meigos. Não condizem com seu rosto circunspecto.

Ou:

- D. Almira, seu perfume tão deliciosamente leve é muito maldoso. No meio da noite, me aparece no ar que respiro.

E deita falação.

- D. Almira, um dia hei de descobrir as chaves dos portões de seu fortificado castelo. Certamente, serei o súdito mais feliz do mundo.

Esgotado o estoque de gentilezas verbais, Torquato resolve inventar. Manda uma flecha certeira:

- D. Almira, sua assinatura é linda. Tem formas sutis e variadas, cada uma mais expressiva que a outra. A senhora deve ser uma mulher cheia de virtudes ocultas.

D.Almira, enfim, dá um sinal.


- Confesso que estava uma tanto constrangida com seu assédio. Mas vou dar-lhe uma chance. Surpreenda-me, Torquato. E pode me chamar de Almira.

Torquato passa a noite em claro. Nunca havia experimentado algo tão excitante e desafiador. A voz de Almira ecoa pelos mesmos ares por onde flana seu malicioso perfume: "Surpreenda-me, Torquato. Surpreenda-me, Torquato". E levanta o rapaz querendo correr todos os riscos.

Ao longo da semana, descobre que Almira mora só, em um pequeno apartamento térreo e avarandado, numa rua bucólica e arborizada. Ousado, aproveitando uma distração de Almira, consegue roubar as chaves de suas portas, fazer cópias e deixá-las no mesmo lugar onde as achou, sem que ninguém percebesse.

Até que chega o dia.

‘Torquato, pela fresta da cortina, assiste surgir entre nuvens tênues e a penumbra de um abajur modesto uma Almira nua

Alegando indisposição, Torquato sai mais cedo do trabalho. Passa num florista e escolhe as mais apaixonadas rosas. De banho tomado e flores na mão, entra sorrateiro no prédio. Abre a porta e se assusta: um histérico poodle tem acessos de latidos, arranhando suas calças, roendo seus sapatos. Sem ter o que pensar, Torquato chuta o cachorro para a cozinha, invade o quarto até a varanda, onde se esconde como uma tábua atrás da cortina. O tempo passa tão devagar que o cachorro possesso dorme com a língua de fora.

Tarde da noite, chaves na porta.

Enfim, ela. Cansada, mete-se num banho que beira à eternidade. O vapor se alastra pela porta entreaberta do banheiro e se apodera do pequeno apartamento. Até que Torquato, pela fresta da cortina, assiste surgir entre nuvens tênues e a penumbra de um abajur modesto uma Almira nua, de identidade desconhecida, ternura irreconhecível e personalidade inimaginável.

-Rick, Rick, vem com sua Mirinha, vem…

Torquato petrifica.

Consegue enxergar Almira se entregar à cama com ares de suprema felicidade, deixando o poodle se aconchegar pelo seu corpo e se perder em pequenos rosnados e fungações frenéticas.

Da tocaia da varanda, enquanto as rosas murcham, Torquato salta para a rua, por onde corre sem olhar para trás. Até no emprego nunca mais apareceu.



perfil

José Guilherme Vereza é publicitário, consultor, professor, escritor, blogueiro. Também é botafoguense, ex-tijucano, sempre lebloniano, neopaulistano. Tem mulher, duas filhas, babá, cozinheira, passadeira. E faxineira que vem quinzenalmente. Tem dois filhos homens, que sempre chegam com uma nora e namoradas diversas. Além delas, tem mãe, madrasta, irmã, nora, cinco cunhadas, duas sobrinhas, uma sogra-avó, uma sogra-madrasta, 37 primas, várias alunas e um milhão de amigas. Pode-se dizer que é um Ph.D. em TPM.