Quando todos saíam do escritório, começava a sua hora extra. Solitário, afrouxava a gravata diante da tela do computador.
- Raposa Vermelha, vc tá aí?
- Urso Branco! Até que enfim vc apareceu!
- Tinha muita gente por perto. Está sozinha?
- Completamente. Só sua, toda nua.
- Vc é uma poetisa.
- E vc é meu muso. Rs rs rs.
- Existe muso?
- Sei lá… mas que você me inspira, me inspira.
- O que fez hoje?
- Ôpa! Não interessa. Nada da nossa vida nos interessa, certo?
- Já sei. Combinamos isso desde a primeira mensagem. Nada de fotos, nada de web cam. Mas não resisto saber de vc. Vai que escapa alguma informação excitante.
- Quer saber? Cheguei cedo do trabalho, fui à academia, depois ao salão. Massagem, pés, mãos, depilação…
- Virilha?
- Claro!
- Ah, não, não exagera… pelo menos deixou o triângulo de bom tamanho e bom contorno?
- Pra que vc quer saber?
- Não quero saber. Quero imaginar.
- Então imagina. Felpuda, ruivinha, natural.
- Vc me enlouquece.
- Gosto disso. Te enlouquecer.
- Agora, falando sério…
- Estou falando sério, seríssima.
- Para de me zoar… não está na hora de a gente se conhecer? De verdade?
- Que é isso? Um pedido de casamento? Uma proposta de acasalamento além web?
- Mais ou menos por aí… quero mais do que websexo.
-… mais, mais, mais… yes, yes, yeess…
- Vc não me leva a sério. O que mais posso fazer, prometer, jurar? Ajoelhar no mouse?
- Jura que sou sua única na Internet?
- Juro.
- Não mente para mim.
- Não minto para vc.
- Então prova. Quero ver vc encarar a realidade: amanhã, meio dia e meia, na suíte 42 do Crazy Love.
- Vc está me excitando. Continua…
- Hora do almoço, vc vai me almoçar todinha.
- Continua…
- Eu chego antes e espero vc na cama. No escuro, breu total, janela fechada, black out, nem abajur.
- Nem abajur?
- A gente vai se sentir sem se ver… a gente vai gozar muuuuito sem se conhecer…
- Não para, não para…
- A gente vai se derreter em carinhos e carícias, vai gemer sem dar uma palavra, vai recomeçar tudo de novo quantas vezes quiser… até que…
- Diz, diz…
- Até que vc vai para o chuveiro, tudo no escuro, se veste no banheiro mesmo e vai embora. Deixa que eu pago a conta. Não tenho frescura.
- Acabou?
- Exatamente para não acabar, que a gente vai fazer isso. Já pensou se a gente se conhece? Onde fica a poesia, a imaginação, o tesão?
- Feito. Raposa Vermelha e Urso Branco. Amanhã meio dia e meio no Crazy Love.
Quase não dormiu à noite. Por momentos, varreu com um olhar comovido a mulher que ressonava profundamente ao seu lado. Maldosa, semi vestida por um camisetão, nada por baixo, deixava ao relento a relva bem cuidada protegendo as pétalas delicadas, como se clamassem em silêncio por um sexo devido, sempre adiado pelas circunstâncias do cotidiano. Gostava dela. Mas pela primeira vez estava por cometer a tal da traição. Tantos anos de afeto e carinho, companheirismo e cumplicidade, não iriam resistir à tentação de um tesão aventureiro na Internet.
*****
Ao terceiro toque na porta, ouviu uma voz dissimulada, abafada, indefinida.
- Entra e não fala nada.
Lembrou do amigo que tinha caído no conto do travesti misterioso. Mas em vez de recuar, foi em frente. Impulsionado por uma excitação travessa, partiu a tatear o escuro, em direção ao desconhecido, encontrando entre topadas e esbarrões, a cama, enfim, que emanava um suspirar ofegante de um corpo completamente nu à sua espera. O urgente despir foi acompanhado de um estridente I just call to say I love you, de um Steve Wonder mais que apropriado – trilha sonora premeditada, que emendou aleatoriamente Jose Feliciano e Ray Charles, só para lembrar que a cegueira não exclui o desejo, muito pelo contrario, é capaz botar mais lenha na fogueira.
E assim, fartou-se de andanças, lambanças e entranças pelas reentrâncias e saliências da Raposa Vermelha, reconhecendo em cada detalhe de sua geografia a amante imaginada, especialmente o seu pompom felpudo supostamente ruivo, por onde se esbaldou como um urso no mel. Perderam-se pela tarde, entraram-se pela quase noite. E conforme o combinado, saiu de lá incógnito, ao som de Cry me a river – arremate irretocável de um Ray Charles encomendado – e com a certeza de que a imaginação, a Internet e o fetiche do amor às cegas fazem uma combinação explosiva de prazer.
O sábio acerto de que tudo aconteceria no escuro e sem palavras deu a impressão de um encontro químico, íntimo, entrosado, um encaixe surpreendetemente perfeito e capaz de incitar uma vontade imensa de repetir a dose. Tanto que ao deixar o motel, teclou ansioso o celular esperto. E arriscou:
- Raposa Vermelha, vc está aí? Foi bom pra vc?
Não tardou a resposta.
- Amei, Urso Branco. Quero mais, mais e mais.
- Amanhã. Mesma hora, mesmo lugar, ok?
*****
Chegou em casa de rabo entre as pernas. Sentimentos transversos faziam do seu peito uma pororoca amazônica. Jantou calado, com o pensamento distante, digerindo uma felicidade secreta, ouvindo nas entranhas I just call to say I love you e Cry me a river. Nem se deu conta do incomum sorriso da mulher. Muito menos percebeu quando ela saiu da mesa esbaforida, para atender ao toque de celular da sua melhor amiga e confidente, a quem cochichou:
- Não posso falar agora, Cris. Estamos acabando de jantar. Deu tudo certo: Urso Branco é o máximo. Amanhã tem mais.
