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Gatinha com laço lilás na orelha

by jose guilherme vereza em 30 de junho de 2009 | 21:00

- Peguei minha namorada me traindo na Internet.

- Como assim?

- De madrugada. Acordei de repente, fui até a porta da sala e fiquei espiando. Ela e o notebook.

- Vendo homem nu?

- Não. Em vez de estar comigo, estava no MSN. Pode?

- E por que a ciumeira?

- Três amigas e dois caras. Trocavam baixarias, charadinhas, perguntinhas idiotas. Conforme iam errando, acertando, tiravam uma peça de roupa.

- Genial isso!

- Não brinca que é sério.

- E sua namorada?

- Estava só de calcinha. Colocou a mão entre as pernas, começou a mexer os quadris, suspirar baixinho…

- Aí é forte. Excitação imaginária com estímulos tecnológicos. Como ela reagiu quando você apareceu?

- Ficou uma arara. Disse que eu estava me metendo na vida dela. Me acusou de invasor de privacidade. Disse que Internet não era traição.

- E você?

- Arranquei o mouse.

- Só isso?

- Puxei os fiozinhos, desconectei o modem.

- E ela?

- Ameaçou sumir com o cartão chip da TV a cabo. Disse que eu também nunca mais ia ver futebol. Pode?

- Pegou pesado. Você partiu para a ignorância?

- Sou civilizado. Discutimos asperamente, mas sem violência. O que fiz foi suspender a parafernália tecnológica lá no apartamento. Nada de Internet. Nem com fio, sem nem fio, nem no celular.

- Parece a história do cara que pegou a mulher com o primo no sofá. Nunca mais sofá em casa.

- É mais ou menos isso.

- São os novos tempos: você está se sentindo um "webcorno".

- Não acho a menor graça.

- Tranquilo. Melhor ser um traído virtual do que real. Imagine se a namorada resolve encontrar os amigos do MSN num bar de verdade.

No bar.

- Oi, eu sou a Francis. Aquela do ícone da gatinha com laço lilás na orelha.

- Muito prazer: Manfredo. Aquele do desenho do Thor. E você?

- Glória. Não está me reconhecendo? Na foto sou eu mesma, de verdade.

- Mas você é morena.

- A foto é do tempo em que eu era loura, a cara da Carolina Dieckmann. Não acham?

- Bota tempo nisso.

- Saquei a ex-loura. É por isso que é Glória Dieck.

- Não seria melhor Moby Dick?

Silêncio, silêncio, silêncio.

- Cheguei! Muito prazer, sou o Valtinho.

- O Mickey Mouse!!!!

- Que bom que moramos na mesma cidade! Vamos nos apresentar: eu sou a ex-loura Glória Dieck.

- Francis, a gatinha com laço lilás na orelha.

- Manfredo, Thor.

- Valtinho, Mickey Mouse.

- Maria, Virgin Mary…

- Como?

- O que foi? Nunca viram uma virgem? Sou Maria e virgem. Trauma de colégio de freiras, ninguém acredita?

Silêncio, silêncio, silêncio.

- Bem, vocês lembram do nosso último fórum essa madrugada?

- Thor mandou todas as charadas para a Gatinha. Deixou ela só de calcinha.

- É mesmo, Gatinha. De repente, você parou de digitar… Foi tão bom pra você assim?

- Calma, Thor, a menina estava com as mãos ocupadas.

Silêncio, silêncio, silêncio.

- Então, cadê o garçom? Vamos beber o quê?

- Suco de laranja.

- Coca com gelo e limão.

- Zero.

- Mineral sem gás.

- O quê??? Ninguém bebe? Chope? Capirinha? Uísque, vodka, fogo paulista, um champanhe para comemorar o encontro?

- Tô tomando antibiótico.

- Nada a ver.

- Não gosto de álcool mesmo.

- Eu estou de carro. Politicamente correta.

- E Virgin Mary? Tá de retiro?

Silêncio, silêncio, silêncio.

- Quer saber? Estou sentindo falta do meu mouse.

- E eu do meu notebook.

- Eu da minha tela.

- Eu da intimidade do meu Blackberry.

- E eu do meu namorado real.

Silêncio, silêncio, silêncio.

- Galera, vamos combinar uma coisa: todo mundo corre pra casa, se conecta e a gente volta a conversar do nosso jeito. Vamos deletar esse encontro, ok?

- Concordo. Tudo é muito estranho.

- Gatinha, recomeça de onde a gente parou: você só de calcinha e o Thor pergunta em que lugar o homem e a mulher têm o cabelo mais enroladinho. Você vai ficar doidinha de novo, subindo pelas paredes. Topa? Se errar, nuazinha. Combinado?

- Tô fora. Sem internet hoje. Estou DR com meu namorado.

- DR?

- Discutindo a Relação, Mickey Mouse. As mulheres de carne e osso têm dessas coisas.

- Ih, Gatinha, essa DR tem cara de que vai acabar em sexo real.

Na cama. Carícias pós-sexo.

- Amor, vou desligar a câmera. Só está aparecendo a sola dos nossos pés. Parece que a gente é defunto estendido no chão.

- Você é louca. E eu mais louco ainda, por ser louco por você.

- Eu é que sou louca por você. Meu homem real, de verdade. O que eu fiz ontem de madrugada foi pensando em você, bobo.

- Não lembra essa história. "Gatinha com laço lilás na orelha" é o cacete. Você é Francis, minha Francis. E pronto.

- Amor, depois de tanta gostosura que a gente acabou de fazer, você não vai me perdoar mesmo, não?

- Claro que perdoei. Até liguei a câmera digital na televisão para você se excitar vendo a gente. Mas não gosto dessas suas manias descoladas, dessas baixarias digitais.

- Tá vendo? Você não perdoou, não…

- Que foi? Que carinha é essa?

- Ah, amor… prova que gosta de mim do jeito que eu sou.

- Que foi? Diz logo…

- Liga de novo os fiozinhos do modem, preciso entrar na Internet.

- Tá bom, você sempre vence.

- Me dá mais uma ajudinha…

- O que é dessa vez?

- Pensa e me diz: em que lugar o homem e a mulher têm o cabelo mais enroladinho?

I love you baby!

by jose guilherme vereza em 23 de junho de 2009 | 21:00

Foram talhados um para o outro. O primeiro sinal do encaixe se deu numa festa de casamento, naquele adiantado da hora em que a noiva já jogou o buquê para a prima dentuça, tirou os sapatos, arregaçou o vestido, e o noivo, de gravata enrolada na testa, empurra o trenzinho obsceno de padrinhos e madrinhas. Enquanto o Prosecco corre solto, pajens e daminhas caem de sono no colo dos avós. E o DJ ataca de I can´t take my eyes out of you.

No meio da pista, Rômulo e Joyce se esbarram.

- Legal essa música, hein?
- Fala mais alto!
- Mais alto! Mais alto!

Joyce ri de Rômulo. No ritmo de I looove you baaaaaaby, saem de fininho já de mãos dadas em direção à varanda. Entre trocas de palavras fúteis, tentativas de breves beijos, surge a clássica pergunta em casamentos.

- Você conhece o noivo ou a noiva?
- Não conheço nenhum dos dois. Sou prima do fotógrafo, que sempre me leva em festas.
- Incrível. Também não conheço uma pessoa aqui. É só vestir esse terno preto, essa gravata prata, colocar um cravo na lapela, passar um gel no cabelo e pronto. Ninguém tem coragem de perguntar meu nome na porta.

‘O casal passou a desfrutar gratuitamente dos prazeres em motéis diversos, sem nunca ter desmanchado lençóis, sempre com a tática do cúmplice absorvente

E Rômulo e Joyce perceberam-se almas gêmeas.

Não se despiram na primeira noite, mas repetiram os encontros em outras bodas, vernissages, noites de autógrafos, inaugurações chiques em shoppings. Onde houvesse bons comes e bons bebes, estavam os dois, espertos pombinhos, esbanjando alegria, afinidade e cara de pau.

A primeira vez no motel foi emblemática.

Estacionaram o carro na garagem e ali mesmo mergulharam-se.

Beijos ardentes, abraços e amassos, barras de saias levantadas, dedos curiosos, passeios de línguas, sucções mútuas, bancos abaixados, galopes crescentes, cuidados com o freio de mão, pélvis acelerados, prazeres intensos aos relâmpagos.

Saciados, sobem a escada da suíte e Rômulo pega o telefone.

- É o gerente quem está falando?
- Pois não…
- Acabei de encontrar um absorvente no chão do banheiro. Vocês não arrumam o quarto com asseio. Que higiene é essa?
- O senhor me perdoe, vamos providenciar uma outra suíte.
- Absolutamente. Estamos com nojo desta pocilga, queremos ir embora agora e denunciar nos jornais!
- Desculpe nossa falha, senhor. Vamos liberar sua saída sem lhe cobrar nada.

E assim o casal passou a desfrutar gratuitamente dos prazeres em motéis diversos, sem nunca ter desmanchado lençóis, sempre com a tática do cúmplice absorvente, com raras variações de calcinhas úmidas na maçaneta do armário ou meias-calças suadas enroscadas nos pés das cabeceiras.

Vida que segue, foram cumprindo o destino natural dos casais companheiros, só que unidos e identificados entre si por hábitos de ética duvidosa. Não chegavam a ser desonestos no trabalho, estelionatários ou fugitivos da lei. Mas a atração por reles espertezas não tinha limite. Jamais resistiriam à chance de se dar bem. Se parar o carro com quatro rodas na calçada era conveniente, por que não? Se furar fila significasse ganho de tempo, por que não? Andar pelo acostamento na estrada engarrafada, fechar cruzamento, levar saleiro de restaurantes, tudo isso enchia o casal de um orgulho conivente e secreto. Como é tola a humanidade, pensavam.

‘a volta jururu para casa, Joyce teve a idéia de acionar um advogado e processar o hotel por propaganda enganosa, já que o sol anunciado não cumpriu sua promessa.

Uma vez decidiram ir para uma pousada paradisíaca. Fim de semana dos sonhos, estimulado pelo anúncio ensolarado do resort, com coqueiros verdes, areia branca, drinks à borda da piscina e céu infinitamente azul. Na hora H, a danação torrencial: choveu sem trégua do check-in ao check-out. Na volta jururu para casa, Joyce teve a idéia de acionar um advogado e processar o hotel por propaganda enganosa, já que o sol anunciado não cumpriu sua promessa. A pendenga não durou muito. O próprio jurídico do resort, temendo que a ação virasse moda, ofereceu um fim de semana de graça, com tudo incluído, desde que o céu azul comparecesse em tempo integral. O acordo foi aceito e os dois esbanjaram champanhe francesa e lagostas grelhadas na beira da piscina.

E assim Rômulo e Joyce vão levando a vida e se achando o máximo.

Neste momento estão de malas prontas para Cancun. Leram nos cadernos de viagens que a gripe suína abalou o turismo no México, que os preços desabaram e que as promoções começam a beirar a bizarrice. O hotel escolhido por Rômulo e Joyce não poderia ter sido mais tentador: desafiando a pandemia, promete temporadas gratuitas para quem voltar para casa com febre e dor no corpo.

Claro que a trama está tecida. Eles vão sadios e voltam antes do tempo programado, espirrando, tossindo, falseando calafrios. Um médico cupincha de infância de Rômulo já estaria a espera no aeroporto com o atestado na mão. E se tudo der certo, até o fim do ano, os pombinhos estarão de volta ao sol mexicano comemorando dez anos de amoroso e produtivo relacionamento. Não duvidem que, entre sons de mariachis e goles de Margueritas, em plena preguiça horizontal na beira do mar turquesa, levantem os óculos escuros, pisquem os olhos um para o outro e lembrem, em uníssono, do dia em que se conheceram.

- I love you, baby!

Inimigos para sempre

by jose guilherme vereza em 17 de junho de 2009 | 5:00

Sentaram-se na sala de espera do dentista. Eram os únicos.

- Walter?

- Moacir?

- Está me reconhecendo?

- Áiiiiffff! Infelizmente: Moacir Dantas Tomé.

- O mesmo digo eu: Walter Bentes Avelino.

- Que coincidência dos infernos. Depois de tantos anos, ficar lado a lado com você.

- O pior: na antessala do dentista. Muito azar. Minha dor de dente é maior que a vontade de ir embora.

- Áááiiiinfff! Só de falar bate vento. Molar superior esquerdo. Ou escapo de ver a sua cara. Ou escapo de um tratamento de canal.

- Seja homem uma vez na vida, Walter. Encare a minha presença, o barulho do motorzinho e o vucovuco do ferrinho no dente.

- Ááááiiinnfff! Não me ofenda, Moacir. O tempo passou. Agora o que temos em comum é dor de dente.

- Peraí, não começa, Walter. Nunca tivemos nada em comum.

- Não foi o que você pensou há tantos anos, Moacir.

- Você é ressentido mesmo. E injusto. E sempre mal informado.

- Mal informado, é? Quer dizer que, depois de tanto tempo, você nega que assediava minha secretária? Sabendo que eu era seu chefe e que ela era minha amante?

- Não nego. Mas também não tivemos caso algum. Já se passaram 22 anos, Walter. De lá pra cá, eu e você juramos nunca mais nos encontrar. Por que isso atormenta tanto sua alma diminuta?

- Porque a Belinha é minha mulher! Mãe dos meus filhos!

- Você se casou com ela?

- Casei, e daí?

- Patife! Casou com a amante do trabalho, largou a mulher!

- Patife é você, que foi visto entrando num motel… depois do expediente… áiiinnff!

- Prova.

- Detetive. Tive acesso a fotos. Você, num Fusca, com uma morena de cabelo chanel parecida com a Belinha. Parando na portaria, pegando a chave, entrando na suíte 34. Você saltando, olhando para um lado e para o outro, fechando a porta de esteira com cara de songamonga.

- Mau detetive, se quer saber. Considere a hipótese de não ter sido a Belinha. E, se eu tivesse saído com uma garota de programa que era a cara da Belinha?

- Mais uma ofensa: Belinha nunca teve cara de piranha.

- Considere que a piranha tinha cara de Belinha. Considere que poderia ter sido um fetiche meu. Transar com uma sósia da amante do chefe, do todo-poderoso Walter Bentes Avelino, arrá!

- Foi por isso que botei você no olho da rua. De um jeito ou de outro, você foi punido pela intenção.

- Talvez sim, talvez não.

- Como talvez não?

- E se tivesse sido a Belinha mesmo?

- Belinha nunca teria dado bola para um subalterno.

- E me demitiu por quê? Me humilhou por quê? Espalhou que eu vivia espiando meninos no banheiro, disse que eu era a desonra da firma. Por quê?

- Já disse. Você foi castigado pela sua intenção atrevida.

- E se eu e Belinha tivéssemos vivido um tórrido romance clandestino? Será que não foi isso? Pense bem: eu e sua amante numa fornicação selvagem, arrasadora e enlouquecida, de explodir em gemidos, juras roucas de amor, súplicas ao tempo que se estanque, êxtases e mais êxtases até cansar, até enjoar. Não enjoar dela, claro, mas de ver sua cara coitada de homem casado, adúltero, macho otário, traído pela própria amante.

- Para de me atormentar! Áááiinnnfff! O detetive não me garantiu que era ela. Era pa-re-ci-da com ela! Você é que é um delirante covarde e incompetente com as mulheres.

- Talvez sim, talvez não.

- Como assim?

- Bom, meu caro Walter, se quiser saber mesmo, chegue em casa hoje e diga à Belinha que me encontrou no dentista. Se ela disser: “O Moacir? Há quanto tempo?”, pense o que quiser. Se ele disser que não se lembra de nenhum Moacir, piorou. Mas se ela silenciar, desconversar, fizer cara de bidê, tire suas conclusões. A gente nunca sabe quando uma mulher está ou não está fingindo. Diferentemente dos homens que gaguejam, a mulher faz cara de que nem está aí para a suspeita. A dúvida continua.

- Você é um desgraçado!

- Desgraçado e vingativo. Precisava o destino resolver nos colocar nesta sala de espera para eu dizer essas verdades. Ou melhor, colocar mais dúvidas na sua testa.

- Você é bem filho daquela madame que espalhou doença para o batalhão inteiro dos fuzileiros navais!

- Que é isso, Walter? Olha o que um ciúme requentado é capaz de fazer! Perdeu a compostura? Deixa minha santa mãe no céu! Com licença, a atendente já está me chamando, cheguei primeiro.

- Vai, traste! Quero ouvir seus urros de dor! Verme! Purulento!

- Com certeza não vou sentir nada. Já ganhei o dia, meu caro Walter. Sabendo que o próximo é você, vou acabar com o estoque da anestesia.

Mar de amor

by jose guilherme vereza em 9 de junho de 2009 | 21:00

Lá vem o Dia dos Namorados com seus trejeitos de ternura e fofura, fazendo a gente ter desejos de trocar mimos e flores, ouvir passarinhos e sininhos, beijar muito, abraçar muito, fazer muito sexo com quem se ama.
É o amoooor.

De uns tempos para cá, o marketing fez com que 12 de junho chegasse mais perto do Natal e do Dias das Mães, como datas supremas de se abrir a carteira, preencher cheques ou passar o cartão de crédito em nome do carinho sincero que tempos pelas nossas pessoas. E não vejo nenhum mal nisso. Celebrar o afeto é gostoso demais.

É prato cheio para quem tem o privilégio de se expressar sobre amor e sexo toda semana. Mesmo fazendo vista grossa para os apelos do comércio e dos anúncios de perfume e motel, há que se aproveitar esse dia com toda intensidade, como não houvesse amanhã. E roubo esta frase de Renato Russo de propósito.

Ando arrasado com o acidente do Air France, que se juntou sem pedir licença à estupidez do acidente de Trancoso. Foi um strike. Meus destroços ainda estão boiando. Incrível a força que as tragédias monumentais exercem dentro da gente. São capazes de nos deixar chapados e deprimidos, mesmo que nossa área imediata de relacionamento e afetos tenha sido preservada.

‘As tragédias nos fazem ter a certeza de que a única coisa urgente nessa vida é estar com a família e com os amigos queridos. O resto é resto

O que importa? De repente, viramos amigos de pessoas que nem conhecemos. Sentimos por elas como se tivéssemos compartilhado suas vidas e suas histórias. Vivemos a dor coletiva, como se fossem propriedades particulares. Assim é.

Pode-se até vestir a casca da racionalidade e deixar cair a ficha de que tragédias acontecem a três por dois. Ali na esquina, no Nordeste, em Santa Catarina, na Conchinchina. Pensamos o quanto sofrem os sem nada, que têm seus "nadas" subtraídos por catástrofes anunciadas pela negligência e pelo descaso. Infelizmente isso não é novidade. Infelizmente nos acostumamos com as guerras, as tsunamis não naturais, as desgraças intencionais como parte do roteiro mal costurado da história da humanidade.

Acontece que somos brutalmente assaltados pelo legítimo e cruel sentimento de nos identificarmos com fatos que poderiam ter acontecido com a gente ou com nossos próximos. É um defeito do ser humano, paciência. E o murundu é sincero e inevitável. A obsessão pelo assunto nos persegue. Somos alugados pela curiosidade mórbida, pela dor solidária, pela incredulidade e pelas perguntas sem respostas.

Por que? Por que com eles e não comigo? Quantas vezes não desaparecemos pelos nossos caminhos? Logo Rio-Paris, a rota mais sonhada pelos românticos e amorosos? Punição? Provação? Por que o piloto encarou a nuvem? Por que a nuvem? Por que aquela nuvem por onde tantos atravessaram incólumes? De quem é a culpa? E se tivesse sido assim? E se tivesse sido assado?

Mas a vida não tem "se", nem respostas para tudo. O que procuramos de lanterna na mão, binóculos, radares e sonares de última geração é a caixa preta de motivos para aliviar a dor e encontrar forças para abraçar, mesmo que em pensamento, aqueles sobreviventes que ficaram do lado de cá ou do lado de lá do Atlântico, amputados de seus amores.

A namorada do maestro. O marido que foi antes com a filhinha de três anos para esperar a mulher e o filho de cinco anos. O amigo da estudante do mestrado. O chefe do chefe de gabinete. O funcionário do bom patrão. Os clientes do dentista de sorriso bonito. As donas dos rostos que o cirurgião plástico moldou. Os alunos do professor. A mãe que não chegou a tempo de se despedir da filha no aeroporto. As interfaces da assessora de imprensa. Os filhos que levaram seus pais idosos a uma lua de mel nas margens do Sena. Os amigos dos recém casados ainda de ressaca da bela festa do casamento. A família aflita da menina marinheira de primeira viagem à Europa. Os filhos dos viajantes calejados. Os colegas e parentes da tripulação experiente. As equipes dos executivos em pleno caso de amor com suas carreiras. As princesas de seus príncipes. Os maridos e as mulheres, os namorados e as namoradas, os companheiros e companheiras de tantas vidas vividas e de vidas por viver que o oceano impiedoso engoliu. Há que se imaginar que o mar deve estar mais doce, de tanta energia amorosa que ele tomou para si.

Por tudo isso, às portas de mais um 12 de junho, com privilégio vivo e com saúde, cercado de amor e carinho, redigo um pensamento sábio de minha amiga Andréa Lobato: "As tragédias nos fazem ter a certeza de que a única coisa urgente nessa vida é estar com a família e com os amigos queridos. O resto é resto".

Feliz Dia dos Namorados. Aproveitem ao máximo. Celebrem a vida e o amor. Pratiquem sexo até dizer chega, virar pro lado e babar no travesseiro o sono dos justos. E se, por acaso, você não esteja com alguém para enroscar os pezinhos, faça um brinde assim mesmo. À saudade do que se viveu. Ou à esperança do que se há de viver.

E mais:

Confira aqui o especial de Dia dos Namorados "Missão: Quase Impossível". E participe da promoção O MEU ESTÁ BEM TREINADO para ganhar prêmios para você e seu amor!

Três mulheres e meia

by jose guilherme vereza em 2 de junho de 2009 | 21:00

Quatro nomes, quatro personagens, quatro histórias.
Não que sejam de verdade ou que necessitem do alerta de que qualquer semelhança seja mera coincidência.
Mas foram inspiradas nas realidades grotescas e absurdas,
singelas e comoventes, audíveis e fotogênicas,
que a vida vai desfilando sem cerimônia na nossa frente.
Talvez você conheça alguém parecido com alguma delas,
não exatamente assim, um pouco mais assado e por aí vai.
Talvez você já tenha ouvido falar de casos semelhantes,
as tais lendas urbanas que passam de boca em boca,
de ouvido em ouvido, ora com protagonistas diferentes,
ora com geografias diversas – e que você jura que aconteceu de verdade com a amiga do primo daquela moça que estava na sala de espera do dentista da sua irmã.
Não importa. Mirtes, Rita, Abigail e Renato são criaturas inventadas sem nenhuma pretensão ou apelo a reflexões – mas quem quiser encucar, fique à vontade.
Não são irmãos ou irmãs, e têm a mesma origem.
São filhos e filhas legítimos da curiosidade abelhuda,
viciada em se embriagar da fonte fascinante,
surpreendente e controversa chamada ser humano.

Mirtes

Mirtes desafiava o tempo.
Venceu estrias e celulites, pés de galinha e pelancas.
Silicones, laser, cremes para isso, cremes para aquilo.
Botox, massagens, hidroginásticas. Pílulas e mais pílulas.
Rejuvenescimento celular.
Medicina ortomolecular. Recomposições hormonais.
Ginástica de todas as modalidades.
Até pompoarismo.
Reconstituiu hímen, aparou os grandes lábios, implantou pelos recônditos.
Esticou tudo que podia.
Só não fez plástica na saudade.
Foi-se de tristeza.

Rita

Hora do adeus ao marido, Rita fez como manda o figurino.
Assistiu ao caixão baixar na sepultura de mãos dadas com o filho.
Lágrimas, discretas atrás dos óculos pretos,
estancaram-se. Delicadas presenças de um lencinho bordado.
Até que viu um coveiro chorando.
Falou baixinho para o filho:
- Beto, olha lá como seu pai era querido.
E se debulhou em prantos sinceros, explosivos, restauradores.
Saiu carregada, esperneando de tanto chorar e gritar o nome do defunto. Perdeu brincos e um sapato.
Já no estacionamento do cemitério, Beto deixou a mãe, aos soluços, nos braços de um tio.
Só um instantinho.
Foi acertar a gorjeta que tinha combinado com o coveiro.

Abigail

O negócio de Abigail sempre foi vender o corpo.
Aos 15 anos, raspou a cabeça. Vendeu as madeixas para um fabricante de peruca.
Aos 18, vendeu tudo numa noite. Para um empresário.
Aos 19, para uma revista. Frente e verso.
Aos 21, entrou para uma agência. Foi batizada de Bibi.
Aos 23, quem comprou foi a dona de um bordel.
Aos 36, aposentou-se como Bibizona.
Zanzou pelas ruas. Sem domicílio. Sem freguesia.
Nem boca conseguia vender.
Aos 45, vendeu um rim.

Renato (a)

Nasceu Renato, mas queria ser Renata.
Cresceu Renato, com jeito de Renata.
Amadureceu Renato, quase Renata.
Nada de cirurgia. Só hormônios. E muita frustração.
Sonhava menstruar.
Sonhava com príncipes encantados.
Sonhava parir.
Até que um dia, câncer na mama.
Enfim, Renata.
Morreu feliz.
Não contaram que isso também dava em homem.



perfil

José Guilherme Vereza é publicitário, consultor, professor, escritor, blogueiro. Também é botafoguense, ex-tijucano, sempre lebloniano, neopaulistano. Tem mulher, duas filhas, babá, cozinheira, passadeira. E faxineira que vem quinzenalmente. Tem dois filhos homens, que sempre chegam com uma nora e namoradas diversas. Além delas, tem mãe, madrasta, irmã, nora, cinco cunhadas, duas sobrinhas, uma sogra-avó, uma sogra-madrasta, 37 primas, várias alunas e um milhão de amigas. Pode-se dizer que é um Ph.D. em TPM.