- Peguei minha namorada me traindo na Internet.
- Como assim?
- De madrugada. Acordei de repente, fui até a porta da sala e fiquei espiando. Ela e o notebook.
- Vendo homem nu?
- Não. Em vez de estar comigo, estava no MSN. Pode?
- E por que a ciumeira?
- Três amigas e dois caras. Trocavam baixarias, charadinhas, perguntinhas idiotas. Conforme iam errando, acertando, tiravam uma peça de roupa.
- Genial isso!
- Não brinca que é sério.
- E sua namorada?
- Estava só de calcinha. Colocou a mão entre as pernas, começou a mexer os quadris, suspirar baixinho…
- Aí é forte. Excitação imaginária com estímulos tecnológicos. Como ela reagiu quando você apareceu?
- Ficou uma arara. Disse que eu estava me metendo na vida dela. Me acusou de invasor de privacidade. Disse que Internet não era traição.
- E você?
- Arranquei o mouse.
- Só isso?
- Puxei os fiozinhos, desconectei o modem.
- E ela?
- Ameaçou sumir com o cartão chip da TV a cabo. Disse que eu também nunca mais ia ver futebol. Pode?
- Pegou pesado. Você partiu para a ignorância?
- Sou civilizado. Discutimos asperamente, mas sem violência. O que fiz foi suspender a parafernália tecnológica lá no apartamento. Nada de Internet. Nem com fio, sem nem fio, nem no celular.
- Parece a história do cara que pegou a mulher com o primo no sofá. Nunca mais sofá em casa.
- É mais ou menos isso.
- São os novos tempos: você está se sentindo um "webcorno".
- Não acho a menor graça.
- Tranquilo. Melhor ser um traído virtual do que real. Imagine se a namorada resolve encontrar os amigos do MSN num bar de verdade.
No bar.
- Oi, eu sou a Francis. Aquela do ícone da gatinha com laço lilás na orelha.
- Muito prazer: Manfredo. Aquele do desenho do Thor. E você?
- Glória. Não está me reconhecendo? Na foto sou eu mesma, de verdade.
- Mas você é morena.
- A foto é do tempo em que eu era loura, a cara da Carolina Dieckmann. Não acham?
- Bota tempo nisso.
- Saquei a ex-loura. É por isso que é Glória Dieck.
- Não seria melhor Moby Dick?
Silêncio, silêncio, silêncio.
- Cheguei! Muito prazer, sou o Valtinho.
- O Mickey Mouse!!!!
- Que bom que moramos na mesma cidade! Vamos nos apresentar: eu sou a ex-loura Glória Dieck.
- Francis, a gatinha com laço lilás na orelha.
- Manfredo, Thor.
- Valtinho, Mickey Mouse.
- Maria, Virgin Mary…
- Como?
- O que foi? Nunca viram uma virgem? Sou Maria e virgem. Trauma de colégio de freiras, ninguém acredita?
Silêncio, silêncio, silêncio.
- Bem, vocês lembram do nosso último fórum essa madrugada?
- Thor mandou todas as charadas para a Gatinha. Deixou ela só de calcinha.
- É mesmo, Gatinha. De repente, você parou de digitar… Foi tão bom pra você assim?
- Calma, Thor, a menina estava com as mãos ocupadas.
Silêncio, silêncio, silêncio.
- Então, cadê o garçom? Vamos beber o quê?
- Suco de laranja.
- Coca com gelo e limão.
- Zero.
- Mineral sem gás.
- O quê??? Ninguém bebe? Chope? Capirinha? Uísque, vodka, fogo paulista, um champanhe para comemorar o encontro?
- Tô tomando antibiótico.
- Nada a ver.
- Não gosto de álcool mesmo.
- Eu estou de carro. Politicamente correta.
- E Virgin Mary? Tá de retiro?
Silêncio, silêncio, silêncio.
- Quer saber? Estou sentindo falta do meu mouse.
- E eu do meu notebook.
- Eu da minha tela.
- Eu da intimidade do meu Blackberry.
- E eu do meu namorado real.
Silêncio, silêncio, silêncio.
- Galera, vamos combinar uma coisa: todo mundo corre pra casa, se conecta e a gente volta a conversar do nosso jeito. Vamos deletar esse encontro, ok?
- Concordo. Tudo é muito estranho.
- Gatinha, recomeça de onde a gente parou: você só de calcinha e o Thor pergunta em que lugar o homem e a mulher têm o cabelo mais enroladinho. Você vai ficar doidinha de novo, subindo pelas paredes. Topa? Se errar, nuazinha. Combinado?
- Tô fora. Sem internet hoje. Estou DR com meu namorado.
- DR?
- Discutindo a Relação, Mickey Mouse. As mulheres de carne e osso têm dessas coisas.
- Ih, Gatinha, essa DR tem cara de que vai acabar em sexo real.
Na cama. Carícias pós-sexo.
- Amor, vou desligar a câmera. Só está aparecendo a sola dos nossos pés. Parece que a gente é defunto estendido no chão.
- Você é louca. E eu mais louco ainda, por ser louco por você.
- Eu é que sou louca por você. Meu homem real, de verdade. O que eu fiz ontem de madrugada foi pensando em você, bobo.
- Não lembra essa história. "Gatinha com laço lilás na orelha" é o cacete. Você é Francis, minha Francis. E pronto.
- Amor, depois de tanta gostosura que a gente acabou de fazer, você não vai me perdoar mesmo, não?
- Claro que perdoei. Até liguei a câmera digital na televisão para você se excitar vendo a gente. Mas não gosto dessas suas manias descoladas, dessas baixarias digitais.
- Tá vendo? Você não perdoou, não…
- Que foi? Que carinha é essa?
- Ah, amor… prova que gosta de mim do jeito que eu sou.
- Que foi? Diz logo…
- Liga de novo os fiozinhos do modem, preciso entrar na Internet.
- Tá bom, você sempre vence.
- Me dá mais uma ajudinha…
- O que é dessa vez?
- Pensa e me diz: em que lugar o homem e a mulher têm o cabelo mais enroladinho?
