Marlene entrou pela porta dos fundos do apartamento carregada de sacolas de supermercado. Ligada no piloto automático, perguntou a Nilcimar, sem olhar para a empregada.
- Alguém ligou, Nil?
- Ligou, sim senhora. Adriane da Sex Shop.
Por um instante, Marlene não entendeu. Olhou fixo para Nilcimar.
- É isso mesmo, Dona Marlene. Adriane da Sex Shop ligou para o Dr. Ricardo.
Por um instante, Marlene desconversou.
- Me ajuda arrumar as compras, Nil. Estou muito cansada. Essa lombar está me matando.
Marlene entrou no quarto e se jogou na cama. Sandálias foram arremessadas à distância. Pernas sobre o travesseiro latejavam. Por um instante, quis matar Ricardo. Como pode? Ele estaria aprontando com uma vendedora de Sex Shop. Patife. É por isso que não procurava mais a mulher. É por isso que andava caladão, pelos cantos. Casamento ramerrame, marido que vira irmão. Tudo muito companheiro, tudo muito previsível, tudo muito sem graça.
Por um instante, Marlene teve um raio de imaginação. Amanhã seria seu aniversário de casamento. Claro. Ricardo estaria inventando uma surpresa. Por um instante, Marlene se viu dentro de uma lingerie de enfermeira. Calcinha cavada, triângulo minimalista na frente, fio imperceptível atrás, seios exibidos por uma transparência branca, uma cinta liga sobre os joelhos com uma rosa vermelha costurada em cetim, um termômetro preso entre os dentes de uma boca semiaberta pelos lábios carnudos e carmins.
Por um instante, Marlene vislumbrou Ricardo vestido de bombeiro. Quase nu. Mangueira pulsante na mão, machadinha entre os dentes. Cueca viril, de volumoso conteúdo. Cáqui e vermelha. No ponto mais proeminente da sunga libidinosa, um brasão de tochas cruzadas alimentando uma chama única, ereta em direção aos céus.
Por um instante, Marlene sentiu a chama percorrendo as pernas desejosas até o encontro das coxas, a esta altura, já com a ponta da calcinha à mostra, saia levantada, pensamento às alturas. Por um instante, Marlene imaginou vibradores anatômicos visitando sua geografia recôndita, vagando pela relva bem cuidada, passeando por todas as bordas e profundezas.
Por um instante, lembrou das amigas dizendo maravilhas do admirável mundo das sex shops, com seus rabbits autossuficientes, brinquedinhos amorosos, chicotes, gargantilhas tacheadas e algemas de falsas peles de onça, morangos de mentirinha para serem chupados a dois, colares de pompoarismo, anéis para potências eternas, géis de menta, fluidos lubrificantes de hortelã.
Por um instante, fez de suas mãos o fetiche imaginário. Fiel e comportada, viajou com o próprio marido engalanado de soldado do fogo, carrasco dentro de si, arfando e sugando seus lóbulos e mamilos, sussurrando promessas indizíveis, elogios impublicáveis, excitações vulgares.Por um instante, amou Ricardo como há muito não amava. Sentiu um homem inteiro e amoroso, criativo e surpreendente, meigo e feroz. E ainda por cima, romântico como nunca foi, capaz de celebrar em grande estilo a esquecida data do aniversário de casamento.
Por um instante, Marlene quase chegou lá. Interrompida pela falta de traquejo de Nil, recompôs-se de imediato e viu-se de pé, mesmo que ainda ofegante, diante da aparição indiscreta da empregada.
- Dona Marlene, é a moça da Sex Shop no telefone. Dessa vez quer falar com a senhora.
Por um instante, Marlene pensou em não atender. Fosse o que fosse, não queria estragar a surpresa de Ricardo. Muito menos saber que não era nada do que imaginava e que ele estaria de fato comprando produtos bizarros para relacionamentos além lar. Por um instante, Marlene tomou coragem. E atendeu ao telefone.
- Dona Marlene, aqui é da Flex Shop.
- Flex Shop?
- É sim. Flex Shop Eletrodomésticos. Seu marido, Dr. Ricardo, comprou uma máquina de lavar roupa e mandou perguntar à senhora a que horas nosso técnico pode fazer a instalação.
Por um instante, Marlene quis bater em Nil.
E no instante seguinte, Marlene voltou a ser Marlene.

Anônimo fez um comentário:
13 de maio de 2009 | 11:41 #
Adorei!!!
Anônimo fez um comentário:
13 de maio de 2009 | 13:29 #
HAHAHAHAHAHAHAHA MUITO BOMMMM!
AAAAAAAAAAA se eu tenho uma Nil dessa em casa já estava esganada hahahhaa.
Adoro teus textos Parabéns.
Anônimo fez um comentário:
13 de maio de 2009 | 14:09 #
Poxa, que imaginação tem o ser humano, hein..rsrsrsrs…
Anônimo fez um comentário:
13 de maio de 2009 | 16:58 #
kkkkkkkkkkkkkk…. =D
Anônimo fez um comentário:
13 de maio de 2009 | 17:32 #
hauhuahuahuahuahuahuhauhauhau
manero
Anônimo fez um comentário:
14 de maio de 2009 | 11:34 #
Achei fantástico!
Meninas faço niver de casamento dia 28 e me vi como a Marelene .. kkkkk
Que tristeza!!!
15 anos nossa !
Anônimo fez um comentário:
14 de maio de 2009 | 14:07 #
Hahahahhahahahahaa……………..
essa é a pura verdade do casamento mesmo……………………….kkk
Mto bom……………… Parabéns pela matéria!!!
bejooo gentee
Anônimo fez um comentário:
14 de maio de 2009 | 21:47 #
Muito bom!
Surpreendente! =D
Anônimo fez um comentário:
15 de maio de 2009 | 13:36 #
muito show, me surpreendeu!!!Que final hein
Anônimo fez um comentário:
17 de maio de 2009 | 23:42 #
Fal sério… Não se deixe virar uma Marlene não..
Dê uma apimentadinha mulher…
Anônimo fez um comentário:
17 de maio de 2009 | 23:46 #
Olá ZéGui demorei mas me cadastrei, além de uma Nova Amiga depois do nosso encontro Relampago sou fã e apreciadora dos seus textos…
Eu acho que você deveria escrever um livro com eles…
São M-A-R-A-V-I-L-H-O-S-O-S …
E o final foi fantasticos deste ultimo…
Muito sucesso para você.
Grande beijo
Sharleyne WTC
Anônimo fez um comentário:
21 de maio de 2009 | 10:46 #
Realmente surpreendente o final, ri pacas….infelizmente há muitos casais nesta situação, são irmãozinhos. Já falei com meu noivo que já tenho 2 irmãos e não quero mais um…..rs, quero que ele seja um eterno namorado.
Anônimo fez um comentário:
22 de maio de 2009 | 21:12 #
olá! sou nova por aqui, mas já li dois contos seus…. e adoreiii.
muito sucesso.
beijooos
Anônimo fez um comentário:
2 de julho de 2009 | 16:51 #
Amei!
É o pior defeito do sexo feminino: criar grandes expectativas
))
Algo parecido aconteceu com a minha irmã, não foi nenhuma máquina de lavar, e sim uma panela de pressão (???) Ninguém merece!
Anônimo fez um comentário:
2 de julho de 2009 | 17:29 #
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
(CL) (CL) (CL) (CL) (CL) (CL) (CL)