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Dia de glória

by jose guilherme vereza em 28 de abril de 2009 | 21:00

Não só para viabilizar a cultura, a informação e o conhecimento, como também para aumentar nosso poder de decisão sobre as coisas mais simples. Que pasta de dente usar, por exemplo. Ou como combater mosquito. Ou se o absorvente é mini, médio ou grande.

Há quem ainda acuse a propaganda de ser o azeite escorregadio da cruel salada do capitalismo. Mas mesmo que não houvesse capitalismo do jeito que é, mesmo que outros sistemas não tivessem avinagrado, que as utopias não tivessem o destino do brejo, dificilmente não teríamos alguém fazendo uma comunicação para convencer você a fazer alguma coisa. Seja acreditar em um deus, aderir a uma idéia, vestir uma pele de bicho mais quentinha ou mesmo usar um pedaço de pau mais pontudo para fisgar um peixe.

O problema é que a propaganda pode ser boa ou má, ética ou nefasta, invasiva ou respeitosa, construtiva ou perversa, esclarecedora ou enganosa, torturante ou sedutora, dependendo dos seus gestores.

‘Pior do que ter perdido a chance de ter feito uma boa propaganda, inteligente, sensível e decente, o jovem redator perdeu a inocência

Quem cria, quem aprova, quem conduz e quem decide as ações publicitárias são seres humanos. E, portanto, defeituosos ou virtuosos, de acordo com a formação e dos valores éticos de cada um.

Juro que vi. Um exemplo simbólico que atropela a imagem que publicitários autobeijoqueiros atribuem à propaganda, como se nadassem num viveiro de glórias, genialidade, workhoolismo e inteligências superiores. Aconteceu com um ex-estagiário, recém promovido a redator numa agência de propaganda, começando a viver seus primeiros prazeres, frustrações e embates profissionais.

Ao menino foi passada a tarefa de criar o lançamento de um prédio muito bem planejado, diferente das ofertas que o mercado imobiliário despejava na mídia. A oportunidade de fazer um trabalho inteligente e sedutor. E assim o fez. Depois das naturais angústias criativas, já com a idéia debaixo do braço e abençoada pelo seu Diretor de Criação, foi conversar com o Diretor da Conta, que representa o cliente dentro da agência.

O sujeito olhou, olhou, olhou, passou a mão no queixo e disse:

- Nada disso. Tem muita inteligência. Tem que estourar o preço e pronto.


O menino rebateu:

- Mas o preço não é o melhor do empreendimento. A qualidade de vida que ele oferece é o grande diferencial.
- Preço. As pessoas não querem saber de blá-blá-blá. Querem preço e nada mais.
- Mas o preço está aqui, como conclusão deste raciocínio maior, mais envolvente, mais emocionante.
- Preço. Já disse. Só preço. Estoura o preço no anúncio.
- Mas se estourar o preço, a idéia perde a sua argumentação.
Vai ficar um anúncio igual a qualquer outro, sem personalidade, ninguém vai perceber.
- Não tem argumentação. Tem preço. Estoura o preço, menino.
- Então, só para você entender meu ponto de vista, vamos falar de amor. Imagine que você conheceu uma mulher linda, uma delicadeza rara e apaixonante, daquelas com quem você sonha todas as noites, daquelas por quem você morre de tesão, daquelas que vão fazer de você o sujeito mais feliz do mundo. E aí você chega para ela e, antes de se apresentar, sem charme, sem argumentos sedutores e encantadores, vai direto ao ponto e grita: VAMO PRA CAMA JÁ!!!

- É. Mas se eu abrir a carteira e mostrar a grana que eu tenho, ela me dá na hora.

(Silêncio, silêncio, silêncio.)

- Tá vendo, menino? Preço. As pessoas só se importam com preço. Estoura o preço.

Claro, o anúncio saiu bem burro, com o preço bem grandão e nada mais. E foi um sucesso no fim de semana. Vendeu tudo. Pior do que ter perdido a chance de ter feito uma boa propaganda, inteligente, sensível e decente, o jovem redator perdeu a inocência. Descobriu que nessa profissão tão apaixonante, fascinante e instigante, a estupidez também tem seus dias de glória.

A senhora dos solitários

by jose guilherme vereza em 21 de abril de 2009 | 21:00

- Senhora, o Dr. Marcondes avisou que não vem para o jantar.
Anabeth levantou a sobrancelha esquerda, sem tirar os olhos da mesa desabitada dos filhos crescidos e de um marido cada vez mais abduzido pelo mundo dos negócios. Sinalizou em silêncio para que a sopa fosse servida.

***

- Senhora, seu sexto sentido não falhou: aqui está a prova de que seu marido tem uma amante.
Anabeth examinou as fotos entregues por um detetive particular. Marcondes chegava de táxi à porta de um hotel no centro da cidade, acompanhado de uma loura com idade de ser sua filha. Na seqüência, andavam de mãos dadas em direção à portaria. Ela ainda para e dá uma ajeitadinha na sandália de salto.

- Moça fina.

***

- Senhora, aqui estão mais detalhes do affair.

O detetive expõe minúcias da investigação. Marcondes e a loura encontravam-se uma vez por semana neste mesmo lugar. Não se tratava de uma amante que pudesse ameaçar casamentos. Era uma garota de programa, universitária e cara de gente boa, que só queria fazer um negócio: receber sua parte de quem tem muito em troca de algumas horas semanais de sexo e autoestima a quem beirava o ocaso da macheza.

***
Anabeth se sentiu apunhalada entre a cervical e as escápulas. De nada adiantaram anos de plástica e botox, ginásticas localizadas e spinning, silicones, depilações a laser, bronzeamento artificial, luzes e chapinhas. A verdade é que o marido estava prevaricando com uma menina bem mais nova e fogosa, com tudo no lugar, de pele macia e peitos naturais.

Não caiu na história do detetive de que garotas de programa não abalavam casamentos. Para ela, sexo fora de casa com amantes assumidas, ou marafonas, ou casinhos de embriaguez, ou desfrutáveis inconseqüentes, ou mesmo bonecas infláveis, era tudo a mesma coisa. Por outro lado, Anabeth não sabia o que fazer. Chegou a pensar por que diabo procurou um detetive. Não imaginava obedecer seus ímpetos de mulher traída e sair por aí a se esfregar em tórax malhados de academias, sentindo novos invasores de seu corpo, ouvindo sussurros revigorantes.

Anabeth dependia de Marcondes até para mandar a criada comprar pão ali na esquina, numa total sujeição ao provedor da casa que, por sua vez, ao perceber a mulher de cara amarrada – e ser chicoteado por uma culpa algoz -, um dia chegou cedo para o jantar, sem mais nem menos, com um agrado. E que agrado: um solitário da Tiffany´s, encomendado ao seu doleiro contrabandista. Os olhos de Anabeth se encharcaram, tambores rufaram dentro do peito, as maçãs do rosto formigaram, surgiu um sorriso encabulado. Muito menos pelo gesto, muito menos pelo mimo em si, muito mais pela idéia ardilosa que teve, diante do brilho multifacetado da jóia.

***

- Senhora, só para eu entender a sua proposta: a senhora põe um detetive particular na cola do seu marido, descobre que ele anda saindo comigo, consegue meu telefone e liga para mim, pedindo pelo amor de Deus para eu manter este caso eternamente. Certo? Em troca, sem que ninguém saiba, num acordo de mulher para mulher, a senhora promete depositar na minha conta o mesmo que ele me paga, certo? Ou seja, vou receber em dobro para aturar seu marido babando em cima de mim. É isso? Por mim, está feito. Sou uma profissional. Mas acho que a senhora é meio maluca.


***
Um ano depois. Anabeth entra no seu closet e retira do fundo do armário de calcinhas e sutiãs, uma caixa de jóias majestosa e aveludada. Como criança diante de um álbum de figurinhas incompleto, admira embevecida sua coleção de mimos mais recentes: diamantes e solitários Tiffany´s, Boucherons, Harry Winstons, Van Cleefs e Cartiers. Escolhe um deles, gosta, não gosta, põe no dedo anelar esquerdo, estica o braço, movimenta a cabeça, franze os lábios e, enfim, decide-se.

Diante do espelho, leva a mão de unhas bem feitas às têmporas, desajeita os cabelos, sorri enviesada e discreta. Tudo combinando: brincos, anéis, colares e estado de espírito. Está linda. Pronta para sair para jantar com seu marido Marcondes e um casal de amigos. Em grande e perfumado estilo.

Confesso que roubei

by jose guilherme vereza em 14 de abril de 2009 | 21:00

Chamem a Polícia Federal. Esmurrem minha porta, me acordem antes das seis. Não me deixem escovar os dentes, fazer a barba, trocar o pijama. Entrego meus punhos às algemas, me rendo às evidências do meu destino. Passem os braços sobre meus ombros, como quem diz "desculpe, cidadão, estamos apenas cumprindo ordens judiciais". Abaixem minha cabeça, me cubram com um pano de prato, me exponham ao ridículo. Conduzam meu corpo lânguido pelos fundilhos até o camburão, dando cabeçadas em câmeras de TV e ferindo os lábios com as canoplas dos microfones obstinados.

Não me olhem com compaixão, não chamem meus advogados. Confisquem meus celulares, grampeiem meus telefones, devassem a minha vida, vasculhem meus agadês. Quero e mereço a companhia de Dantas, Nicolaus, Cacciolas, Tranchesis, Alvaros, Dados e Madoffs. Gostaria até da companhia de outros tantos que vagam por aí desfilando suas caras de pau, destilando seus deboches. O que fiz é tão abominável quanto sonegar, lavar dinheiro, desviar recursos públicos e privados, superfaturar, prevaricar, fraudar, formar quadrilha, contrabandear, corromper e ser corrompido.

‘Preferi a patifaria intangível, que flana pelas instâncias da subjetividade, errante qual bolinha de fliperama

O que fiz é uma vergonha para minha família, meus amigos, meus colegas e meus editores. Quando mamãe souber pelos jornais vai chorar no cantinho e se perguntar: "Onde foi que eu errei, minha Nossa Senhora do Sacramento?". Meu pai vai me renegar. Minha mulher vai duvidar da sinceridade dos meus sentimentos e da inteireza do meu caráter. Meus filhos vão querer mudar de sobrenome. Minha empregada vai cuspir no feijão. Vou arder no mármore dos infernos, ser amaldiçoado pelas bruxas e ser excomungado pelos bispos endiabrados. O que fiz é pecado mais feio que a preguiça.

Melhor se tivesse assumido a falta de imaginação, ter perdido, honesto, para a pressão do relógio da entrega. Mas não. Movido pelo argumento de que "se tantos podem, por que não posso?", preferi a patifaria intangível, que flana pelas instâncias da subjetividade, errante qual bolinha de fliperama. Mas que diabo? O que foi que eu fiz?

Roubei uma história.

Nada mais abjeto para quem escreve do que se valer de palavras que não são suas. A inveja criativa me levou a este ponto de indignidade. A inércia me derrubou. E não resisti à tentação do assunto. Amor, sexo e traição numa quase fábula simbólica, que mergulha de escafandro na relatividade do que é certo, errado, correto, justo, admissível, inadmissível, esses conceitos abstratos que se alastram pelo nosso dia a dia e que nos deixam doidos, tamanho o fogo cruzado de fatos, informações, opiniões e achismos que a vida nos esfrega a todo instante.

Como um ladrão barato flagrado com a mão na galinha, mostro o produto do meu roubo, dando nome ao dono, origem e fonte de onde fui surrupiar a idéia. Tive o ímpeto de cleptomaníaco, logo que conheci a prosa roubada na peça "Alma Imoral", baseada nos escritos de Nilton Bonder. Quem me apresentou foi a atriz Clarice Niskier, com voz delicada e personalidade firme de quem se despe de pudores e passeia nua em pelos em pleno palco. E vamos à história, com as devidas aspas, direto, sem ‘era uma vez".

"Dois advogados encontram-se na entrada de um motel.
Cada um está com a respectiva mulher. Do outro.
Instantes eternos de constrangimento.
Conseguem, enfim, travar um diálogo.
- Nobre colega, que situação.
- Nobre colega, que situação.

Um deles propõe um acordo.

- Nobre colega, para evitar piores desdobramentos deste infortúnio, sugiro cada um devolver a mulher para o outro. Vamos embora e não falemos mais no assunto. É o correto e o justo.
- Nobre colega, concordo que seja o procedimento mais correto. Mas não é justo.
- E por que não seria justo, nobre colega?
- O nobre colega está saindo. E eu apenas chegando"
.

Pronto. Podem rir, refletir, opinar. Podem parar e pensar se a ética tem lá sua graça ou se a graça tem sua ética. E perdoar este ladrão confesso e resignado, se acharem justo.

A nova beleza

by jose guilherme vereza em 7 de abril de 2009 | 21:00

Ela não é magra, nem anda de nariz em pé marchando de cara amarrada como se estivesse numa passarela. Ela faz ginástica para manter a forma e se sentir saudável. Não molda o corpo em excesso, nem parece se submeter a dietas ditatoriais. Ela é um tanto cadeiruda, está mais para mulher grandona e tem um ligeiro prognatismo. Na raiz, seu cabelo é crespo e sinuoso, mas sob efeito de escovas progressivas e produtos alisantes ganha feições de um Chanel leve e charmoso.

Dona de um jeito próprio de se vestir, pode-se dizer que não é lá o padrão que os estilistas batem palmas dando gritinhos de "poderooosa!". Seus lábios carnudos, sua boca vasta e seus dentes exuberantes, atuando em harmonioso conjunto, produzem um sorriso que irradia personalidade e meiguice. Ela dança com leveza, fala bem em público, tem porte, diz coisas consistentes e é dotada de ótimo senso de humor. Assume o encantamento pelo seu novo endereço, mas não deixa que as filhas entrem numas de que são princesas. Passa a idéia sincera de que é bem resolvida e bem casada. Quando está ao lado do marido longilíneo e elegante, deixa transparecer um casal comum. Que faz sexo, briga por besteira, tem indisposições entre si, acorda de mau humor, reclama das manias de cada um, troca mimos, beija na boca e na bochecha.

‘Michelle Obama entra na nossa casa todos os dias, como uma personagem das novelas contemporâneas de Gilberto Braga

Ela está longe de ser um símbolo sexual. Duvido que meninos (e por que não homens feitos?) prestem à ela homenagens solitárias e delirantes. Definitivamente, ela não é o padrão de beleza que estamos acostumados a engolir. Por isso mesmo, ela é linda.

Michelle Obama entra na nossa casa todos os dias, como uma personagem das novelas contemporâneas de Gilberto Braga. Pelos jornais, pela televisão, pela internet, ela vem no rastro simbólico da evolução natural da história da civilização. Mas que evolução? Afinal, o que mudou? Acabou a crise? Os banqueiros botaram o rabo entre as pernas? A produtividade venceu? Os executivos avarentos devolveram seus bônus ilegítimos? Os empregos reapareceram? Não há fome no mundo? Os traficantes de drogas perderam? O aquecimento global estancou? As tropas invasoras do Iraque voltaram pra casa? Capturaram Bin Laden? Fez-se a paz no Oriente Médio? A Coréia do Norte depôs as armas nucleares?

Tudo está como sempre esteve. O que mudou foi muito sutil. O fundo do poço em que os Estados Unidos se meteram, levando o mundo a reboque, revelou a derrocada da arrogância da nação mais Viagra do planeta. E fez surgir no comando um presidente e uma primeira-dama comuns, simples, gente como a gente, com as imperfeições que consagram os verdadeiros seres humanos.

Se a mudança desejável vem a passos de uma tartaruga com bolha no pé, pequenos gestos e grandes atitudes, estes sim, já estão batendo à porta dos nossos sentidos, quebrando paradigmas e protocolos. Quando Michelle abraça a Rainha da Inglaterra pela cintura, ela não está passando nenhum recado matreiro ao mundo. E só carinho. Quando o marido longilíneo e elegante de Michelle diz, na TV, que seu ridículo desempenho em boliche só lhe permitiria disputar jogos paraolímpicos, pode até ser uma gafe, mas não é um ultraje mal intencionado. É uma piada. Apenas uma piada humana e controversa como toda boa piada tem que ser.

Outro dia saiu no jornal a foto do casal desembarcando na Inglaterra. De mãos dadas, sorrindo. Mais que isso, portando um riso sincero, discreto, sereno e muito bonito. De fato, casais em viagem à Europa trazem sempre um ar de felicidade nos rostos. Mas como assim? Estadistas não podem ser pessoas comuns, vulneráveis a trivialidades. Deveriam estar sorrindo pela perspectiva de uma nova ordem na diplomacia planetária. Ou pelo reconhecimento universal de que alguma coisa está mudando. Ou pelos primeiros e frágeis efeitos do choque de democracia, esperança e firmeza que eles representam. Ou talvez rissem nervosos pelo estresse que vem embutido no cargo em pleno atoleiro de uma crise que parece não ter fim. Vai ver que nem sorriso era. Talvez fosse uma contração facial, sequela da enxaqueca provocada por executivos das montadoras e instituições financeiras, que teimam em ser irresponsáveis e nocivos como a emissão de gás carbônico.

Nada disso.

Prefiro suspeitar que o sorriso do casal tinha um fundamento humanista, de uma beleza pura, simples e cotidiana, como nunca se viu. Imagino que, ao abrir a porta do avião, um tenha soprado no ouvido do outro:

- Segura minha mão direito, honey. Tenho pavor dessas escadas.



perfil

José Guilherme Vereza é publicitário, consultor, professor, escritor, blogueiro. Também é botafoguense, ex-tijucano, sempre lebloniano, neopaulistano. Tem mulher, duas filhas, babá, cozinheira, passadeira. E faxineira que vem quinzenalmente. Tem dois filhos homens, que sempre chegam com uma nora e namoradas diversas. Além delas, tem mãe, madrasta, irmã, nora, cinco cunhadas, duas sobrinhas, uma sogra-avó, uma sogra-madrasta, 37 primas, várias alunas e um milhão de amigas. Pode-se dizer que é um Ph.D. em TPM.