Não só para viabilizar a cultura, a informação e o conhecimento, como também para aumentar nosso poder de decisão sobre as coisas mais simples. Que pasta de dente usar, por exemplo. Ou como combater mosquito. Ou se o absorvente é mini, médio ou grande.
Há quem ainda acuse a propaganda de ser o azeite escorregadio da cruel salada do capitalismo. Mas mesmo que não houvesse capitalismo do jeito que é, mesmo que outros sistemas não tivessem avinagrado, que as utopias não tivessem o destino do brejo, dificilmente não teríamos alguém fazendo uma comunicação para convencer você a fazer alguma coisa. Seja acreditar em um deus, aderir a uma idéia, vestir uma pele de bicho mais quentinha ou mesmo usar um pedaço de pau mais pontudo para fisgar um peixe.
O problema é que a propaganda pode ser boa ou má, ética ou nefasta, invasiva ou respeitosa, construtiva ou perversa, esclarecedora ou enganosa, torturante ou sedutora, dependendo dos seus gestores.
Quem cria, quem aprova, quem conduz e quem decide as ações publicitárias são seres humanos. E, portanto, defeituosos ou virtuosos, de acordo com a formação e dos valores éticos de cada um.
Juro que vi. Um exemplo simbólico que atropela a imagem que publicitários autobeijoqueiros atribuem à propaganda, como se nadassem num viveiro de glórias, genialidade, workhoolismo e inteligências superiores. Aconteceu com um ex-estagiário, recém promovido a redator numa agência de propaganda, começando a viver seus primeiros prazeres, frustrações e embates profissionais.
Ao menino foi passada a tarefa de criar o lançamento de um prédio muito bem planejado, diferente das ofertas que o mercado imobiliário despejava na mídia. A oportunidade de fazer um trabalho inteligente e sedutor. E assim o fez. Depois das naturais angústias criativas, já com a idéia debaixo do braço e abençoada pelo seu Diretor de Criação, foi conversar com o Diretor da Conta, que representa o cliente dentro da agência.
O sujeito olhou, olhou, olhou, passou a mão no queixo e disse:
- Nada disso. Tem muita inteligência. Tem que estourar o preço e pronto.
O menino rebateu:
- Mas o preço não é o melhor do empreendimento. A qualidade de vida que ele oferece é o grande diferencial.
- Preço. As pessoas não querem saber de blá-blá-blá. Querem preço e nada mais.
- Mas o preço está aqui, como conclusão deste raciocínio maior, mais envolvente, mais emocionante.
- Preço. Já disse. Só preço. Estoura o preço no anúncio.
- Mas se estourar o preço, a idéia perde a sua argumentação.
Vai ficar um anúncio igual a qualquer outro, sem personalidade, ninguém vai perceber.
- Não tem argumentação. Tem preço. Estoura o preço, menino.
- Então, só para você entender meu ponto de vista, vamos falar de amor. Imagine que você conheceu uma mulher linda, uma delicadeza rara e apaixonante, daquelas com quem você sonha todas as noites, daquelas por quem você morre de tesão, daquelas que vão fazer de você o sujeito mais feliz do mundo. E aí você chega para ela e, antes de se apresentar, sem charme, sem argumentos sedutores e encantadores, vai direto ao ponto e grita: VAMO PRA CAMA JÁ!!!
- É. Mas se eu abrir a carteira e mostrar a grana que eu tenho, ela me dá na hora.
(Silêncio, silêncio, silêncio.)
- Tá vendo, menino? Preço. As pessoas só se importam com preço. Estoura o preço.
Claro, o anúncio saiu bem burro, com o preço bem grandão e nada mais. E foi um sucesso no fim de semana. Vendeu tudo. Pior do que ter perdido a chance de ter feito uma boa propaganda, inteligente, sensível e decente, o jovem redator perdeu a inocência. Descobriu que nessa profissão tão apaixonante, fascinante e instigante, a estupidez também tem seus dias de glória.
