O Professor Orestes sempre foi um saudosista. Conservador, reacionário, patriarca de uma família de papa-hóstias, não admitia que nenhum de seus filhos, noras, genros, netos e agregados, fugisse do cerco das doutrinas morais da casa.
Sua mulher, Nair, não era sua mulher Nair. Mas, sim, sua Senhora Nair, como exigia que fosse chamada. Era uma candidata à canonização. Submissa ao marido, capataz e bedel da tropa de familiares que habitava o casarão da Tijuca, cuidava de tudo e de todos com amorosa rigidez e, ainda, após preparar os ajantarados, banhava-se em alfazemas para receber o professor exausto de um dia de trabalho.
Orestes dirigia o Departamento de Disciplina do Colégio Dom Marcos, com a mesma mão de ferro que usava em casa. Terror dos alunos, ídolo dos professores puxassacos, referência para os pais que delegavam cegamente a educação dos filhos a uma instituição honrada e edificante, como dizia a letra do próprio hino da escola, cantado diante da bandeira nacional por docentes e discentes a cada início de semana.
Um dia Orestes reúne a família. Na cabeceira da mesa de jantar, comunica ao seu estilo: "Minha Senhora Nair, meus filhos, noras, genros e netos. O dever me chama para um novo desafio. Fui convocado para implantar, num educandário em São Paulo, a mesma doutrina de rigor, educação e disciplina vigente no Dom Marcos". "Vamos nos mudar para São Paulo, meu pai?". "Não, minha filha. Passarei as terças e sextas-feiras lá. Irei de trem noturno na segunda, volto na terça à noite, retorno à São Paulo na noite de quinta e embarco sexta de volta para casa". "O senhor continua não considerando o avião, meu pai". "Meu filho. Com todo respeito e admiração ao brasileiro Alberto Santos-Dumont, não acredito que uma geringonça que se diz mais pesado que o ar possa voar. Além do mais, no Trem de Prata dorme-se como uma pedra à noite e aproveita-se melhor o dia".
E assim, o Professor Orestes conseguiu conciliar seus afazeres no Dom Marcos, sua dedicação à família e sua consultoria em São Paulo, como se diz nos dias de hoje. A cada partida de Orestes, um ritual. Todos – filhos, filhas, genros, noras, netos, agregados e a Senhora Nair – levavam o patriarca à estação duas vezes por semana, com lenços tremulantes e beijos jogados no ar, sob as vistas de um homem compenetrado que, da janela do vagão-restaurante, via a família se distanciar na plataforma. Tão logo o trem virasse a primeira e longa curva, Orestes partia para cabine. Lá dentro, era aguardado por Glorinha, mãe desquitada de um de seus ex-alunos, que o recebia invariavelmente dentro de um uniforme de normalista. "Vem meu mestre, agora a professora sou eu".
E repetidamente, enquanto se desfazia sôfrego dos suspensórios, já se deixava chicotear, pisotear e desgrenhar seus cabelos de glostora. Passavam a noite aos urros sob o shockschok ritmado das rodas do trem. Faziam todas as lambanças e melanças. Exercia o professor a recorrente plenitude de seu vigor crepuscular.A rotina durou para mais de oito anos, até a jovem e animada amante ser subitamente derrubada por um aneurisma.
Hoje, beirando os 93 anos, o velho Orestes passa pela estação desativada no centro da cidade e chora. Sem que a senhora Nair, já curvadinha como um jabuti em pé, sempre submissa e compreensiva, ouse perguntar por quê.
Não há mais Trem de Prata, não há mais o Colégio São Marcos, muito menos o casarão da Tijuca, transformado num condomínio cheio de loja embaixo. A família foi aumentando e se dispersando, como regem os novos tempos. E a tal consultoria disciplinar em São Paulo, de tão valiosa memória, na verdade nunca existiu.
Saudosista, muito saudosista, esse Professor Orestes.
