» 2009 » marçoJose Guilherme Vereza

Verdades e mentiras

by jose guilherme vereza em 31 de março de 2009 | 21:00

Em caso de dor de cabeça, corte uma batata em fatias redondas, prenda num lenço e amarre na testa. Para cólicas menstruais, use batata doce. Enxaquecas? Berinjelas ou fundo de alcachofra, tanto faz, desde que seja na testa. Namorado aprontou? Escreva "você nunca mais será o mesmo" numa caixa de camisinha e mande para casa dele, anonimamente. Duvido que o sujeito não pense nisso na próxima. Vai travar, ah, se vai.

Acha que amiga está dando em cima do seu marido? Anuncie o telefone dela no classificados, seção de massagens, acompanhantes, relax. Quer piorar? Descreva o tipo de cabelo, seios e quadris dela. E não esqueça de dizer: "Quase mulher para homens sem frescura".

Nunca tome banho após as refeições. Odete almoçou, foi pro chuveiro e teve uma congestão. Ficou com o lado direito da boca torto. Só curou com cachimbo. É. Passou a fumar cachimbo pendurado do lado esquerdo. Desentortou tudo, questão de equilíbrio. Em duas semanas, voltou ao normal. Quem não voltou foi a noiva de Ramiro. Que fugiu com Carlinhos, coitado, que nem sabe da praga que lhe foi rogada. A mãe do noivo traído escreveu o nome do ladrão de mulher num papelzinho, dobrou o quanto pode e colocou entre os dedos do pé. Anda para lá e pra cá pisando no nome do infeliz que já, já, vai ser acometido de uma frieira de acabar romance.

‘A gestação indesejada se evita com licor de ovos e "fatias paridas", as populares rabanadas natalinas

Com Nelsinho foi quase a mesma coisa. Teve uma micose tão extensa, que a candidata desistiu na primeira vez. Nada mais desalentador para uma mulher do que homem tirando a meia na hora agá. Verdade. Como também é verdade para os homens que uma boa maneira de evitar ejaculação precoce é pensar em coisas ruins em pleno vai e vem intruso. Lembrar de enterros de pessoas queridas, saldo bancário, chefes injustos, derrotas do seu time de futebol, tudo isso funciona. Mas deve ser pensado com moderação, já que a insistência e o exagero podem levar a uma perturbação erétil, às vezes momentânea e quase sempre constrangedora. A situação exige um esforço hercúleo desconfortável, causador de sudorese, palpitações anormais, além de muita sede. Porque haja saliva para explicar à mulher que o parceiro não estava pensando na "ex" diante do infortúnio. Verdade.

Ciúme retroativo é um perigo. Para ambos os sexos. O antídoto para este veneno na relação é uma conversa franca com todos os "ex" de um e de outro em torno de uma mesa de bar para lavar toda roupa suja civilizadamente, sob a mediação de um padre, um pastor ou um escoteiro. Evite leões de chácara, seguranças, brutamontes em geral. São tão perniciosos quanto beber leite com manga, contar estrelas, beijar mulher virgem em noite de lua cheia. Necessariamente na mesma ordem o efeito é desastroso: intoxicação alimentar, verruga e gravidez.

Quanto a esta última conseqüência, todo cuidado é pouco. A gestação indesejada se evita com licor de ovos e "fatias paridas", as populares rabanadas natalinas. Toda vez que a mulher se sentir em período fértil – basta mentalizar uma viagem aos ovários e apalpar o púbis para saber se é ou não é um bom momento de concepções – é recomendável tomar cálices e cálices do licor e se entupir de rabanadas. A azia e o enjôo são tão fortes que não há condição de pensar em outra coisa senão num copo de sal de frutas.

Mas, lembre-se: um copo só. Dois pode ser afrodisíaco: substitui o romântico champanhe para os casais que vivem de devaneios, amando-se em colchonetes estreitos sobre as costas largas do sofá da sala, como se fossem o dorso de um percheron branco a cavalgar pelos trigais. Com Maria do Carmo e Juvenal é sempre assim. De tanto se chamarem de Godiva e Milord, aos urros e gemidos, acabam sempre por acordar a criança, que diante da cena primária, esfrega os olhinhos e volta para dormir. Com a certeza de que os sofás não foram feitos para ver televisão. E que papai e mamãe estão se preparando para um rodeio. Segura, peão.

E agora? Quanta besteira, quanta sandice, quanta inutilidade. Quanta falta do que dizer disfarçada em pretenso surrealismo. Quanta irresponsabilidade em tão nobre espaço. Quanta maldade. Mas o autor pede perdão. Justifica que é apenas uma homenagem a 1 de abril, único dia do ano em que a mentira ganha vestes de graça, verdade e fantasia, por mais absurda que seja. E convida a todos a soltarem a imaginação sempre, todos os dias do ano. A inventiva pura e inocente, longe da mentira que aprendemos a odiar, da falsidade, da fraude, da enganação perversa, da conduta de ludibriar os outros e a si próprio, é deliciosa e estimulante. Dizem até que faz bem para a saúde. Verdade.

Metáforas

by jose guilherme vereza em 24 de março de 2009 | 21:00

Quem viu o "Carteiro e o Poeta" não esquece. Mario, o carteiro, gruda no exilado Pablo Neruda para se alimentar de seu pote cheio de metáforas e poesia. Ele queria, com uma mãozinha do poeta, encantar a encantadora Beatrice Russo, morenaça de cabelos fartos, exuberante em pureza e sensualidade, uma Gabriela mediterrânea.

Mario é um tanto primitivo, mas a convivência com Neruda faz dele um ingênuo sedutor, tão eficiente e charmoso que não só conquista sua Beatrice, como provoca suspiros em quem assiste ao filme.

Com um sujeito galanteador chamado Rochinha aconteceu mais ou menos a mesma coisa. Não que tenha se derramado por Mario, mas por ter incorporado o personagem carteiro na sua habilidade de emitir metáforas enfeitiçantes. Caiu na estrada a azarar o mundo. Ficou tão fissurado na linguagem figurada que até estudou. Descobriu em Machado de Assis a metáfora mais linda da língua portuguesa:

"Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca".

A princípio, tentou interpretar a ressaca como um pós-porre oceânico, mas quando caiu a ficha de que a ressaca machadiana eram ondas que iam e vinham, engolindo quem a contemplasse, ah, Rochinha teve um frisson. Saiu a dizer a todas as mulheres que passavam pelo seu caminho que estava sendo tragado pelos seus olhares. A tática deu certo. Abraços e pernas se abriam por onde andava, mesmo quando as flertadas não entendiam de Capitu e seus mistérios.

‘A moça, brejeira como uma flor, arredia como uma gazela e desconfiada como uma siamesa, era o tijolinho que faltava na sua construção

Rochinha se aprimorou. Partiu para conhecer de cor e salteado palavras de poetas, escritores e compositores de todos os matizes e qualidades diversas. Mergulhou em livros e mais livros, fuçou letras e mais letras, era o rei de karaokê de churrascaria. Todo esforço tinha um destino: Belzinha, a sua Beatrice, colega de trabalho, a quem há séculos roga uma noite de amor e esplendor, desde que à primeira vista fora flechado pelo cupido. Ou pelo bicho da ereção curiosa, sabe-se lá.

A moça, brejeira como uma flor, arredia como uma gazela e desconfiada como uma siamesa, era o tijolinho que faltava na sua construção. Não lhe dava a menor bola, nem de ping pong. Todas as tentativas de Rochinha eram burros se dando às águas. Flores, bombons, mimos, mensagens em MSN, torpedos eletrônicos e em guardanapos, indiretas em reuniões, bilhetinhos em post its, e a moça nada. Entupia as caixas de Belzinha de galanteios baratos, sem graça, sem imaginação. Uma vez chegou a lhe enviar um recado numa caixinha de bala: "Seu sorriso de Mentex refresca a minha boca". Pode?

Até que, por capricho do destino, encontrou Belzinha saindo de carro do estacionamento da empresa. Tarde da noite, noite de serão, Rochinha joga-se à janela da motorista. Como um estudante aplicado em dia de prova, trêmulo e confiante ao mesmo tempo, ilumina-se de todos os poetas. E desembesta.

- Eu tenho tanto pra lhe falar. Por que você, egípcia, me olha e me vira a cara? Passa sem ver seu vigia catando a poesia que entornas no chão. Belzinha, não sou galinha. A rima é pobre, mas a sinceridade é milionária. Tudo que vivi até agora foi um rio que passou em minha vida. Meu coração hoje é um balde despejado, meu pensamento é um rio subterrâneo. Quando chego em casa, nada me consola, só o cachorro me sorri latindo. Mas eis que a luz dos olhos meus encontra os olhos seus, duas contas pequeninas, qual duas pedras preciosas. Estou de quatro, no ato, seu gato e sapato. Meu sangue errou de veia se perdeu na bagunça do seu coração. Da vida, sou um eterno aprendiz. Por isso sigo como um cantador que só sabe cantar, porque navegar é preciso…

- Que lindo, Rochinha! Você me lembra o mar!

Rochinha inflou-se de esperança. E lembrou Caymmi.

- Pelas profundezas do meus sentimentos? Ou por que quando quebro na praia, sou boniiiiiito, sou boniiiiiito?

- Não. Porque me enjoa.

E Belzinha arrancou com o carro, como diria Nelson Rodrigues: dando gargalhadas de bruxa de teatro infantil.

O mergulho

by jose guilherme vereza em 17 de março de 2009 | 21:00

Que coragem que nada.

Bastou Maria Eulália ouvir dizer da maior atração do novo parque de diversões da cidade, um bungee jump de 130 metros de altura, para despertar sua inquieta curiosidade pelo desconhecido. Decidiu pelo mergulho e pronto, ninguém precisou saber disso. Foi num dia comum, logo que o parque abriu suas portas, entre dez e onze da manhã. Olhou a lonjura do topo da torre até doer o pescoço. Fez sinal da cruz, pegou o elevador – uma gaiola que subia rangendo e deixando a cidade em miniatura. Lá em cima, deixou-se amarrar.

E nem pestanejou.

A primeira sensação foi o vento cortando o rosto, criando rugas e pregas com sobras de pele. Os olhos foram obrigados pela obviedade da Física a ficarem bem fechados, o que impedia qualquer espiadela para ver o que estava acontecendo em volta. Tentou movimentar pernas e braços, mas percebeu que não tinha controle sobre nada. Era um crucifixo estático voando de cabeça para baixo.

Enfim, o nada.

Os ares de uma liberdade jamais provada foram batendo no seu corpo, numa velocidade fria e vertical. Veio também a certeza plena e incontestável de que não podia deixar escapar a única chance na vida de se sentir dona absoluta de si mesma.

E Maria Eulália viajou.

Primeiro foi à Europa, onde se entupiu de vinho, museus e perfumes. Depois, à África negra, quando as savanas e as hienas pareciam jardins e bichinhos de estimação. Achou chato. Partiu logo depois para a Oceania, aportou em Hong Kong, deslumbrou-se com os néons de Tóquio, foi direto para Nova York, onde encheu sacolas e o saco de tanto passar cartão de crédito. Cansou. Preferiu sensações mais intimistas.

Como por exemplo, a felicidade secreta de ser reconhecida, rica, famosa, respeitada. Experimentou também o aconchego de uma família amorosa, com a completude de um raro marido, filhos, empregada de forno e fogão, faxineira, passadeira, carro do ano na garagem e cachorro que não faz cocô no tapete.

‘Experimentou o Kama Sutra em praias, poltronas de primeira classe de avião, últimas filas de cinemas, caçambas de roda gigante, bancos de fusquinha.

Dos filhos, deu pra ver bem as suas caras.

Eram lindos, sadios e inteligentes. Os primeiros já eram adultos formados pela vida e pela melhor das universidades. A caçulinha, uma coisa linda e espevitada, olhos azuis e pele dourada, preferiu outras trilhas: foi finalista no Big Brother e acabou posando nua na Playboy. Que se danem os vizinhos. Naqueles instantes intermináveis e vertiginosos, Maria Eulália era senhora absoluta das suas opiniões, caprichos e desejos, e em nome deles mergulhou mais ainda. Comeu pato assado com carambola, strogonoff de salsichão, bebeu vinho branco com picanha, cuspiu arroz trufado e pediu doce de abóbora de sobremesa. Mostrou a língua pro maitre metido a besta e arrotou.

Gostosos momentos.

Resolveu variar os sabores. Da mesa do restaurante granfino, saiu à cata dos meninos que não namorou nos tempos da escola e, mesmo podendo encontrar todos, preferiu um só, exatamente aquele de quem nunca tinha recebido ao menos um picolé. E foi fundo. Urrou de gozar por todos os poros. Revisitou seus âmagos o mais que pode, tantas vezes quis. Enjoou do rapaz, asco súbito. Pegou outro, mais outro e mais outro, tantos que enfileiravam-se aos seus pés. Recebeu flores de cada um deles, a cada dia seguinte. Experimentou o Kama Sutra em praias, poltronas de primeira classe de avião, últimas filas de cinemas, caçambas de roda gigante, bancos de fusquinha. E ainda inventou novas formas de amar e ser amada.

Quando se sentiu realizada e feliz, fez uma força imensa para abrir os olhos, enfrentando o vento que castigava as bochechas, lhe comprimia os peitos, e eternizava um sorriso sincero e restaurador. Tinha que espiar só um pouquinho o que de fato e de real se passava em sua volta.

Dos sonhos, restavam apenas alguns centímetros.

Nem teve tempo de sentir saudade.

Foi puxada subitamente para cima pelo feixe de elásticos e nylon, preso aos pés e à cintura. E como um iô-iô perdendo a sua força, lembrou que tinha esquecido a panela de feijão no fogo.

Talvez queimasse o almoço.

Talvez apanhasse do marido.

Eu desejo a você

by jose guilherme vereza em 10 de março de 2009 | 21:00

Tenho trauma de conselhos. Não dou. Não vendo. Não empresto. Às vezes até considero, mas isso não vem ao caso. Aproveitando a esteira de 8 de março, transformo o que seriam conselhos idiotas do alto de um pedestal – que não subo de jeito nenhum -, em desejos sinceros do fundo do coração para as mulheres que tanto respeito, admiro, invejo, preciso e me encanto.

Cada uma pode escolher o desejo que melhor convier. Ou vários. Ou todos. Ou alguns. Ou nenhum. O importante é que meu desejo de desejar fique cristalino e sirva, no mínimo, de reflexão. Ou de risada. Ou de indignação. Você escolhe. Na lista que se segue, coloque antes da frase, do verbo ou da palavra um "eu desejo que você:" ou "eu desejo a você:". Combinado? Vamos aos desejos.

Viva. Muito. Faça exames de saúde. Faça check ups. Faça preventivo. Faça exercícios. Sempre. Seja bela. Sinta-se bela. Seja gorda. Seja magra. Cuidado com a anorexia. Coma carne. Seja vegetariana. Beba muita água. Use protetor solar. Passe fio dental. Toque em seus seios. Toque em seu coração. Ame. Muito. Encontre um amor companheiro, não importa o sexo. Sexo. Goze. Muito. Por amor ou só por tesão. Tome cuidado. Tome pílula. Use camisinha. Mande o parceiro ao médico. Proteja-se. Fuja da gravidez indesejada. Seja tolerante. Seja compreensiva. Seja exigente. Exija carinho, respeito, e mais e mais e mais e mais, yes, yes, yes, yeeeesssss.

‘Tenha horror a ditaduras. Seja ética. Vote em quem mereça seu voto. Procure o Procon. Reclame de seus direitos. Cumpra seus deveres. Duvide de certos deveres. Respeite a constituição.

Saiba dizer não. Saiba dizer sim. Saiba dizer não sei. Denuncie agressores. Conte com as Delegacias da Mulher. Pense sobre o aborto. Se for contra, seja contra. Se for a favor, seja a favor. Acredite em Deus. Acredite nos deuses. Acredite no seu Deus. Acredite em nenhum Deus. Acredite na ciência. Acredite em duendes. Acredite que vai. Acredite que não vai. Acredite em você. Acredite na humanidade. Acredite que você tenha dúvidas. Tenha amigas. Tenha amigos. Considere inimigos. Considere inimigas. Saiba perder. Saiba vencer. Saiba nem querer jogar. Seja criança. Seja adolescente. Seja adulta. Cometa loucuras. Respeite a sinalização. Tenha filhos. Adote filhos. Não tenha filhos. Adote um cachorro. Compre um batom. Troque o óleo do carro. Calibre os pneus. Seja criativa. Seja produtiva. Apaixone-se. Case-se.

Entenda de futebol. Adore futebol. Desligue a televisão na hora do futebol. Coma chocolate. Faça regime. Brigue com o namorado. Arranje outro namorado. Não fume. Respeite quem fuma. Beba com moderação. Se for dirigir, nem beba. Segure a raiva. Bote a raiva para fora. Faça o teste do bafômetro. Não molhe a mão do guarda. Diga não à corrupção. Diga não á violência. Não aceite bala de estranhos. Não aceite a bala perdida. Exija segurança. Exija saúde. Exija educação. Exija compostura dos políticos. Tenha horror a ditaduras. Seja ética. Vote em quem mereça seu voto. Procure o Procon. Reclame de seus direitos. Cumpra seus deveres. Duvide de certos deveres. Respeite a Constituição. Faça alguma coisa para mudar a Constituição.

‘Fique confiante. Fique desconfiada. Fique magoada. Fique radiante. Fique sensibilizada. Fique fria. Fique quente. Fique inquieta. Fique bem.

Aprenda a cozinhar. Não queira nem cozinhar. Peça ao marido para fazer a cama. Ponha o namorado para lavar pratos. Arrume uma mesa de jantar. Desarrume uma cama fazendo sexo. Sexo? De novo? Sempre. Muito. Com prazer, carinho, desprendimento e segurança. Seja independente. Saiba usar o cartão de crédito. Tenha cuidado com juros. Não compre nada que não possa comprar. Compre tudo que queira – e possa – comprar. Defenda seus filhos. Defenda os filhos dos seus filhos. Defenda os filhos dos filhos dos outros.

Defenda o planeta. Não jogue lixo fora da lixeira. Exija lixeiras. Recicle o lixo. Não desperdice água. Economize energia. Torça por energias alternativas. Invente energias alternativas. Leia jornal. Critique jornal. Leia livros. Escreva livros. Vá ao cinema. Faça cinema. Vá ao teatro. Faça teatro. Veja mais televisão. Veja menos televisão. Veja novela. Deteste novela. Use a Internet. Opine. Discorde. Concorde. Bata palmas. Chore. Fique irritada. Fique triste. Fique confiante. Fique desconfiada. Fique magoada. Fique radiante. Fique sensibilizada. Fique fria. Fique quente. Fique inquieta. Fique bem. Fique feliz. Do jeito que você é. Seja qual for o seu jeito. Seja qual for o seu desejo.

O Trem de Prata

by jose guilherme vereza em 3 de março de 2009 | 21:00

O Professor Orestes sempre foi um saudosista. Conservador, reacionário, patriarca de uma família de papa-hóstias, não admitia que nenhum de seus filhos, noras, genros, netos e agregados, fugisse do cerco das doutrinas morais da casa.

Sua mulher, Nair, não era sua mulher Nair. Mas, sim, sua Senhora Nair, como exigia que fosse chamada. Era uma candidata à canonização. Submissa ao marido, capataz e bedel da tropa de familiares que habitava o casarão da Tijuca, cuidava de tudo e de todos com amorosa rigidez e, ainda, após preparar os ajantarados, banhava-se em alfazemas para receber o professor exausto de um dia de trabalho.

‘A cada partida de Orestes, um ritual. Todos – filhos, filhas, genros, noras, netos, agregados e a Senhora Nair – levavam o patriarca à estação duas vezes por semana

Orestes dirigia o Departamento de Disciplina do Colégio Dom Marcos, com a mesma mão de ferro que usava em casa. Terror dos alunos, ídolo dos professores puxassacos, referência para os pais que delegavam cegamente a educação dos filhos a uma instituição honrada e edificante, como dizia a letra do próprio hino da escola, cantado diante da bandeira nacional por docentes e discentes a cada início de semana.

Um dia Orestes reúne a família. Na cabeceira da mesa de jantar, comunica ao seu estilo: "Minha Senhora Nair, meus filhos, noras, genros e netos. O dever me chama para um novo desafio. Fui convocado para implantar, num educandário em São Paulo, a mesma doutrina de rigor, educação e disciplina vigente no Dom Marcos". "Vamos nos mudar para São Paulo, meu pai?". "Não, minha filha. Passarei as terças e sextas-feiras lá. Irei de trem noturno na segunda, volto na terça à noite, retorno à São Paulo na noite de quinta e embarco sexta de volta para casa". "O senhor continua não considerando o avião, meu pai". "Meu filho. Com todo respeito e admiração ao brasileiro Alberto Santos-Dumont, não acredito que uma geringonça que se diz mais pesado que o ar possa voar. Além do mais, no Trem de Prata dorme-se como uma pedra à noite e aproveita-se melhor o dia".

E assim, o Professor Orestes conseguiu conciliar seus afazeres no Dom Marcos, sua dedicação à família e sua consultoria em São Paulo, como se diz nos dias de hoje. A cada partida de Orestes, um ritual. Todos – filhos, filhas, genros, noras, netos, agregados e a Senhora Nair – levavam o patriarca à estação duas vezes por semana, com lenços tremulantes e beijos jogados no ar, sob as vistas de um homem compenetrado que, da janela do vagão-restaurante, via a família se distanciar na plataforma. Tão logo o trem virasse a primeira e longa curva, Orestes partia para cabine. Lá dentro, era aguardado por Glorinha, mãe desquitada de um de seus ex-alunos, que o recebia invariavelmente dentro de um uniforme de normalista. "Vem meu mestre, agora a professora sou eu".

E repetidamente, enquanto se desfazia sôfrego dos suspensórios, já se deixava chicotear, pisotear e desgrenhar seus cabelos de glostora. Passavam a noite aos urros sob o shockschok ritmado das rodas do trem. Faziam todas as lambanças e melanças. Exercia o professor a recorrente plenitude de seu vigor crepuscular.A rotina durou para mais de oito anos, até a jovem e animada amante ser subitamente derrubada por um aneurisma.

‘Hoje, beirando os 93 anos, o velho Orestes passa pela estação desativada no centro da cidade e chora. Sem que a senhora Nair, já curvadinha como um jabuti em pé, sempre submissa e compreensiva, ouse perguntar por quê

Hoje, beirando os 93 anos, o velho Orestes passa pela estação desativada no centro da cidade e chora. Sem que a senhora Nair, já curvadinha como um jabuti em pé, sempre submissa e compreensiva, ouse perguntar por quê.

Não há mais Trem de Prata, não há mais o Colégio São Marcos, muito menos o casarão da Tijuca, transformado num condomínio cheio de loja embaixo. A família foi aumentando e se dispersando, como regem os novos tempos. E a tal consultoria disciplinar em São Paulo, de tão valiosa memória, na verdade nunca existiu.

Saudosista, muito saudosista, esse Professor Orestes.



perfil

José Guilherme Vereza é publicitário, consultor, professor, escritor, blogueiro. Também é botafoguense, ex-tijucano, sempre lebloniano, neopaulistano. Tem mulher, duas filhas, babá, cozinheira, passadeira. E faxineira que vem quinzenalmente. Tem dois filhos homens, que sempre chegam com uma nora e namoradas diversas. Além delas, tem mãe, madrasta, irmã, nora, cinco cunhadas, duas sobrinhas, uma sogra-avó, uma sogra-madrasta, 37 primas, várias alunas e um milhão de amigas. Pode-se dizer que é um Ph.D. em TPM.