Depois de quatro safenas e a certeza de uma insuficiência cardíaca crônica, Renato perdeu totalmente o interesse pelo sexo. Sua mulher procurou uma terapeuta.
– Boa tarde, eu sou a Débora, com licença.
– Boa tarde, eu sou Lygia, fique à vontade.
– Na poltrona ou no divã?
– A escolha é sua, o tempo é seu.
– Vou de divã. O teto me inspira e me descontrai.
Débora não perdeu tempo relatando a origem de tudo. Foi direto na ferida.
– Lygia, resumindo: a falta de sexo está me matando por dentro e por fora.
– Por fora?
– Sou mais bonita do que aparento. Sou vaidosa, gosto de me vestir, não sou esse trapo de camiseta, legging e tênis surrado, como se vivesse eternamente numa ginástica.
– Boa metáfora.
– Só metáfora. Porque larguei a academia. Vivo para servir ao Renato, que me olha como se fosse uma Fraulein de um hospital luterano, dedicada e responsável, fria e indiferente, insossa.
– É uma defesa sua.
– Acho que é. Meu medo de provocar o medo dele me dá medo de provocar mais medo nele e aí eu fico com medo. E para esconder o medo que eu tenho do medo dele, eu me escondo numa pessoa que não sou eu.
– E quem é você?
– Outro dia fui na casa de uma amiga que tem um labrador. Mansinho, carinhoso, portentoso, e bonito, muito bonito. Assim que me sentei para conversar na sala, ele se aproximou, cheirou meu sexo e se enroscou nas minhas pernas. E começou a se esfregar na minha coxa pelo lado ocidental.
– Lado ocidental?
– É, pelo lado de dentro, mais perto deste meridiano aqui, ó, que divide as pernas, as coxas, até os grandes lábios.
– Entendi. Não precisa me mostrar.
– Então, morri de tesão. Ainda mais que eu estava com essa legging apertadinha, que entra quando eu me movimento. Um mico, chegou a ficar úmido.
– Compreendo.
– Outra: passeando na Lagoa com Renato, resolvemos dar uma paradinha em frente à Hípica. Alguns cavalos trotavam, até que um deles, um castanho musculoso, cheio de veias e respiração ofegante, se excitou com alguma égua que desfilava pela pista. Não, não era comigo.
– Continua.
– E o que aconteceu? Cresceu aquela tora preta pulsante, que ia para frente e recuava, ia para frente e recuava, ai, como se transasse com o ar. Fiquei toda molhada.
– A mesma legging? Você só tem uma legging?
– Tenho várias, mas só gosto de usar uma. A mesma, sempre. Lavo à tardinha, seca à noite, uso no dia seguinte. Mas, peraí, eu não vim aqui para falar de legging. Qual a importância de uma, duas ou três leggings para o seu trabalho? Vamos voltar ao que interessa.
– Continua, continua.
– Quer outra? Quebrei o aparelhinho da TV a cabo só para não ver canal pornô. Tem mais: não canso de morder toalhas quando lembro dos nossos tempos de sex machine.
– Já experimentou a masturbação?
– Já esgotei todas as variações. Dedos, até o dedão do pé – uma vantagem de anos e anos de balé. Vibradores diversos, celular em vibracall, rabbits, cabos de escova de poliuretano, panos de prato enrolados em rolo de pastel, até a borracha do aparelho de pressão já esfreguei. Bananas, pepinos, berinjelas, cenouras, braços de poltrona, almofadas, travesseiros, aspirador ligado – uma delícia o sugador clitoriano, quem patentear fica rico. Outro dia fui com um sabonete, que ficou preso dentro de mim e tive a maior dificuldade de tirar. Só saiu com muita água do chuveirinho e, quando olhei no espelho, uma cachoeira de espuma saindo sem parar, uma vagina epilética. Me senti ridícula e culpada.
– Fale mais da culpa.
– Sei lá, parece que estou traindo Renato.
– Você só me falou de animais, vegetais, objetos bizarros e da sua fidelidade a uma legging só. E se você traísse o Renato com outro homem?
– Peraí, deixa eu suspirar, antes de dizer besteira.
– Suspire. E diga o que lhe vier na cabeça.
– Seria o fim do mundo, o fim de nós, o fim de mim mesma. Não sou uma mulher inexperiente. Já transei com quem quis e quem não quis. Ter outro homem na altura do meu campeonato soaria como vingança. Sei das dificuldades do meu marido, sou companheira e cúmplice leal do seu destino, que no final das contas, é o meu destino.
– Você está falando da boca pra fora, como uma Fraulein luterana. Exatamente como o Renato vê você.
Débora olhou para o teto e calou-se. No tempo que lhe restava não pronunciou uma palavra. Nem Lygia dispôs-se a comentar o súbito silêncio. Despediram-se e Débora saiu de lá atordoada, a esmo. Quando se deu conta, estava dentro de um salão de beleza. E fez tudo a que tinha direito. Luzes, corte, mãos, pés, depilações. Antes de chegar em casa, passou no shopping.
Comprou vestidos atrevidos e uma sandália de salto.

Anônimo fez um comentário:
28 de janeiro de 2009 | 11:27 #
Ela vai trair o marido!!!! Pq cansou de trair a si mesma.
Anônimo fez um comentário:
30 de janeiro de 2009 | 8:32 #
achei esquisita e sem conteude que se aproveite ….resumindo perdi meu tempo , e as passoas ganham ainda pra escrever isso pode……….
Anônimo fez um comentário:
30 de janeiro de 2009 | 16:44 #
José Guilherme,
Fico impressionada com a maneira como você nos mostra, sem eufemismos, muitas verdades que nem nossas amigas, nem nossos homens, têm coragem de dizer. Eu, e certamente tantas outras mulheres, reconheço-me em seus personagens, quando você fala de ciúme, solidão, depilação, situações ridículas e mentiras que contamos pra nós mesmas.
Você tem um diferencial singular: consegue provar que ouve o que as mulheres lhe falam, coisa rara entre seus colegas homens, rsrsrs.
Você já escreveu algum livro sobre essa temática feminina? Se existir vou correndo comprá-lo.
Anônimo fez um comentário:
30 de janeiro de 2009 | 18:09 #
Que grosseria, paulo_cat! vc de ter 4 safenas e a doença do marido da mulher da hisória. Ta na cara pelo rancor
Anônimo fez um comentário:
3 de fevereiro de 2009 | 19:53 #
achei bem interessante, ela simplesmente deixou de trair a si mesma.
Nilmita fez um comentário:
7 de setembro de 2011 | 11:01 #
Gostei, ela finalmente tomou uma decisão a seu favor, tá na cara que ela vai a procura de algo real, mulher quando se cuida muito tá na hora da virada, chega de fantasias!!!!!!