Certos casais fofinhos são dados a atribuir apelidinhos carinhosos a suas anatomias recônditas. Alguns mantêm os nomes em segredo de alcova. Outros fazem questão de que amigos e familiares comunguem de suas intimidades verbais.
– Hoje à noite não vamos ao cinema. Horácio vai se encontrar com a Greta.
Quer dizer: Afonso e Margareth declinaram do convite de uns amigos, preferindo o aconchego entre quatro paredes.
Há os que batizam seus respectivos inspirados em circunstâncias marcantes. Esse comportamento não vem de agora. Em sua festa de bodas de ouro, Ciro e Amália, num lampejo de sem-vergonhice, revelaram em discurso a filhos, netos e bisnetos, o segredo do casamento duradouro: a afinidade entre Clark Gable e Plantation. Tais apelidos nasceram ainda na lua-de-mel, quando assistiram de mãos dadas à estréia de "E o vento levou…".
Paulo e Julia engrenaram namoro na noite do 11 de setembro, num motel, com carícias preliminares intercaladas pelas imagens chocantes da televisão ligada. Lá pelas tantas:
– Bin Laden!
– Manhattan!
Os apelidos pegaram. Não se sabe se pelo porte longilíneo do barbudo ou pela geografia um tanto vaginiforme da ilha, mas que pegaram, pegaram.
Um casal de Minas, afeito à vida no campo, deu o nome de Mimoso e Frondosa. Fred e Madalena, fiéis às características anatômicas, chamam de Obelisco e Marisca. Ou Neutrox e Veludinha, conforme o momento. Marcelo e Tati também mudam de apelido de acordo com a conjuntura. Já foram Che e Gal Costa, Itamar e Capôzinho (numa alusão à fixação do ex-presidente pelo Fusca). E agora, mais contemporâneos do que nunca: Obama e Michele.
Bebel, a ciumenta, sempre cutucava o marido, quando partia em viagens de negócios:
– Jura que não vai levar Biro-Biro para passear?
– Que é isso, Belzinha, o Biro é fiel. Só quer saber da Pompom.
Pelas letras de Jorge Amado, Vadinho consagrou a Peladinha de Dona Flor. A propaganda lançou Bráulio, protagonista de uma campanha de prevenção da Aids, nome adotado por vários casais sem imaginação.
E por aí vai. No embalo da tese de que o amor é o ridículo da vida, palpiteiros teorizam. Interpretam essa mania no avesso do sexo espontâneo, quando um casal olha para seus órgãos como seres estranhos ao próprio corpo, dotados de impulsos e personalidades independentes, capazes de comandar desejos e frustrações a despeito das vontades dos donos.
– Hoje, não amor. Ohaninha está meio indisposta.
Ou então:
– Pô, Impávido, como é que você me faz isso numa hora dessas?
Tudo muito bonitinho, fofinho e excitante.
Mas o perigo ronda quando uma relação se desfaz e o outro, impregnado pela cultura do casal extinto, não se livra da linguagem dos mimos íntimos. A tentativa inconsciente de reeditar transas passadas pode ser um fiasco.
Rosana tinha terminado um namoro de quatro anos. Mergulhou numa abstinência sexual decidida, até que alguém lhe chamasse à razão e ao tesão. Esse alguém foi Adriano.
Conheceram-se numa festa. Aproximaram-se, dançaram, encaixaram-se em beijos e não hesitaram em terminar a noite num motel.
No auge da folia, roupas se desfazendo como papel crepom, Rosana em vias de êxtase, se vê diante da nudez venosa e pulsante do rapaz. E tenta acalorar a performance, aos modos da antiga relação:
– Que lindo, meu Chica-Bon!
Pára tudo.
Adriano deu um pulo da cama. Pegou o telefone e pediu a conta.