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Fofuras e canduras

by jose guilherme vereza em 6 de janeiro de 2009 | 21:00

Certos casais fofinhos são dados a atribuir apelidinhos carinhosos a suas anatomias recônditas. Alguns mantêm os nomes em segredo de alcova. Outros fazem questão de que amigos e familiares comunguem de suas intimidades verbais.

– Hoje à noite não vamos ao cinema. Horácio vai se encontrar com a Greta.

Quer dizer: Afonso e Margareth declinaram do convite de uns amigos, preferindo o aconchego entre quatro paredes.

Há os que batizam seus respectivos inspirados em circunstâncias marcantes. Esse comportamento não vem de agora. Em sua festa de bodas de ouro, Ciro e Amália, num lampejo de sem-vergonhice, revelaram em discurso a filhos, netos e bisnetos, o segredo do casamento duradouro: a afinidade entre Clark Gable e Plantation. Tais apelidos nasceram ainda na lua-de-mel, quando assistiram de mãos dadas à estréia de "E o vento levou…".

‘Mas o perigo ronda quando uma relação se desfaz e o outro, impregnado pela cultura do casal extinto, não se livra da linguagem dos mimos íntimos

Paulo e Julia engrenaram namoro na noite do 11 de setembro, num motel, com carícias preliminares intercaladas pelas imagens chocantes da televisão ligada. Lá pelas tantas:

Bin Laden!

Manhattan!

Os apelidos pegaram. Não se sabe se pelo porte longilíneo do barbudo ou pela geografia um tanto vaginiforme da ilha, mas que pegaram, pegaram.

Um casal de Minas, afeito à vida no campo, deu o nome de Mimoso e Frondosa. Fred e Madalena, fiéis às características anatômicas, chamam de Obelisco e Marisca. Ou Neutrox e Veludinha, conforme o momento. Marcelo e Tati também mudam de apelido de acordo com a conjuntura. Já foram Che e Gal Costa, Itamar e Capôzinho (numa alusão à fixação do ex-presidente pelo Fusca). E agora, mais contemporâneos do que nunca: Obama e Michele.

Bebel, a ciumenta, sempre cutucava o marido, quando partia em viagens de negócios:

– Jura que não vai levar Biro-Biro para passear?

– Que é isso, Belzinha, o Biro é fiel. Só quer saber da Pompom.

Pelas letras de Jorge Amado, Vadinho consagrou a Peladinha de Dona Flor. A propaganda lançou Bráulio, protagonista de uma campanha de prevenção da Aids, nome adotado por vários casais sem imaginação.

E por aí vai. No embalo da tese de que o amor é o ridículo da vida, palpiteiros teorizam. Interpretam essa mania no avesso do sexo espontâneo, quando um casal olha para seus órgãos como seres estranhos ao próprio corpo, dotados de impulsos e personalidades independentes, capazes de comandar desejos e frustrações a despeito das vontades dos donos.

– Hoje, não amor. Ohaninha está meio indisposta.

Ou então:

– Pô, Impávido, como é que você me faz isso numa hora dessas?

Tudo muito bonitinho, fofinho e excitante.

Mas o perigo ronda quando uma relação se desfaz e o outro, impregnado pela cultura do casal extinto, não se livra da linguagem dos mimos íntimos. A tentativa inconsciente de reeditar transas passadas pode ser um fiasco.

Rosana tinha terminado um namoro de quatro anos. Mergulhou numa abstinência sexual decidida, até que alguém lhe chamasse à razão e ao tesão. Esse alguém foi Adriano.

Conheceram-se numa festa. Aproximaram-se, dançaram, encaixaram-se em beijos e não hesitaram em terminar a noite num motel.

No auge da folia, roupas se desfazendo como papel crepom, Rosana em vias de êxtase, se vê diante da nudez venosa e pulsante do rapaz. E tenta acalorar a performance, aos modos da antiga relação:

– Que lindo, meu Chica-Bon!

Pára tudo.

Adriano deu um pulo da cama. Pegou o telefone e pediu a conta.



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perfil

José Guilherme Vereza é publicitário, consultor, professor, escritor, blogueiro. Também é botafoguense, ex-tijucano, sempre lebloniano, neopaulistano. Tem mulher, duas filhas, babá, cozinheira, passadeira. E faxineira que vem quinzenalmente. Tem dois filhos homens, que sempre chegam com uma nora e namoradas diversas. Além delas, tem mãe, madrasta, irmã, nora, cinco cunhadas, duas sobrinhas, uma sogra-avó, uma sogra-madrasta, 37 primas, várias alunas e um milhão de amigas. Pode-se dizer que é um Ph.D. em TPM.