Jose Guilherme Vereza

O taxista

by jose guilherme vereza em 19 de outubro de 2011 | 9:45

Meu nome é Dirceu Batista, parece nome de zagueiro, mas sou taxista pra mais de vinte anos, nunca fui assaltado, nunca bati o taxi,
nunca me envolvi em briga feia de trânsito, sem bem que, por várias vezes tive vontade de matar motoqueiro, guarda abusado
e mulher que deveria estar com  barriga na pia batendo um bolo pro marido e por causa desses tempos modernos vem atrasar minha vida, fechando cruzamento, andando que nem lesma falando no celular, falando nada, olhando pro celular e teclando, teclando, teclando, sem olhar pra frente, sem olhar pro lado, achando que carro tem piloto automático. Mês passado, uma perua encostou no meu para choque trazeiro e ainda xingou, gritando que parei de repente e eu respondi dizendo gentilmente, ô dona, se tem alguém que merecia criar caso era eu, mas como só entortou um pouquinho a minha placa disse pra ela não ficar nervosa senão o pés de galinha iam sair andando. Ela ficou uma arara, o botox quase saiu do lugar, eu insisti educadamente para ela não esquentar a cabeça senão a chapinha ia encrespar, e ela saiu cantando pneu, e eu fiquei me lembrando da minha mulher Marlene, tão chiliquenta quanto, mas que pelo menos não se metia a dirigir para não dar vexame na rua.
Minha mulher sabe muito bem que o lugar ela é na cozinha, aliás, deveria saber mais porque cozinha mal pra diabo, outro dia na mesma janta empapou o arroz, desandou a maionese e esturricou o contra filé, logo aquele contra filé que português fatiou no açougue, deixando a gordurinha saborosa em volta, que derrete na boca quando a gente morde, mas com Marlene, não, Marlene fez da gordurinha  numa beira dura de sola de sapato e ainda e jogou na minha cara que para o marido que eu era devia lamber os beiços. Tive vontade de jogar a gororoba na parede, mas para não traumatizar o menino, preferi engolir mais um sapo
e ir pra cama sem falar nada. Mas mesmo assim, ela continuou a me atazanar, vestindo uma camisola transparente, deitando no meu lado e começando a lamber meu ouvido. Eu fiz que estava no terceiro sono e ela perdeu a paciência dizendo coisas horríveis sobre a minha pessoa, disse que eu tinha jaculação precócil e eu, sem perder a esportiva, respondi que ela estava lendo muita revista de mulherzinha no salão. Ela se enfezou dizendo que não tinha tempo e dinheiro para ir ao salão, até que eu perdi a cabeça e gritei que gozava rápido sim, porque queria logo acabar a canseira. Foi um charivari. Me mandou dormir no sofá da sala, onde durmo até hoje, pensando que alguma coisa muito boa poderia acontecer para eu mudar de vida. Dia desses eu estava parado numa esquina, apareceu uma menina  linda, boa demais, loura bustosa, mini saia justinha nos quadris, carinha de modelo de revista ou estudante universitária, moça fina, cheirosa e bem lavada, que abriu a porta do meu taxi e falou com delicadeza:
Vamos para o Motel Splendor? Claro que sabia onde era o motel e minhas pernas tremeram. Passou pela minha cabeça que aquilo não era uma corrida, mas um convite. Ái meu Deus, do retrovisor eu fui me apaixonando pela dona. Atrás de seus óculos escuros percebia um jeito de menina contemplando as ruas engarrafadas, ou de uma mulher feroz sorrindo para o celular
enquanto teclava freneticamente mordendo os lábios deliciosos. Ái meu Deus. Seus dedos eram bonitos, unhas bem cuidadas, que volta e meia penetravam pelos cabelos desfiados que insistiam em cobrir a testa. Quando chegamos na porta do motel ela botou a cabeça para fora e disse: Tenho encontro com o Dr. Antonio Claudio, ela já chegou? O cara fez que sim e mandou estacionar no pátio, ao lado da suíte máster. Moça fina e cara. Ela saltou, debruçou-se na minha janela e perguntou com a voz rouquinha e baixinha se eu poderia esperar, uma a duas horas no máximo, e diante daquele decote cheio de maldade e não poderia dizer não. Sumiu a deusa pela fresta da garagem, o suficiente para ver um BMW lá dentro. E do lado de fora fiquei eu alfinetado pela imaginação. Desnecessário descrever tudo que pensei, mas só digo que meus tempos de menino foram revividos em grande estilo.
Mais de duas horas se passaram, até que a moça aparece. Cabelos molhados, rostinho de gente feliz. Aproximou-se da minha janela e sussurrou: Obrigado por ter me esperado. Vamos? Não resisti. Obrigado digo eu, dona. Só me pode fazer um favor? Ela sorriu. Claro, o que você quiser. Eu disse: Vem aqui no banco da frente, vem. Ela sorriu mais gostoso ainda. Deu uma volta na frente do taxi, abriu a porta e sentou-se muito bem ao meu lado. Ele se ajeitou para colocar o cinto e percebi de esguelha uma cruzada de pernas matadora, daquelas que por um instante eterno dá para ver a calcinha e alguma penugem dourada fora do lugar. Saí do motel exultante, um pandeiro no peito, mas bem devagar, nem queria passar a segunda marcha. Acho que ela colocou o braço nas costas do meu banco e sorriu para mim. Tudo que queria naquele momento é que  Marlene me visse.

O amor nos tempos da cólera

by jose guilherme vereza em 20 de julho de 2011 | 14:00

Os leitores de Gabriel Garcia Marquez certamente vão me estranhar: não é da cólera. É do cólera.
Mas espero que a apropriação safada do título do romance possa fazer algum sentido. Explico.
Leio o delicioso “Histórias Íntimas” de Mary Del Priore ( Planeta) sobre a sexualidade e o erotismo na história do Brasil.
E ouso mais uma vez roubar algumas palavras.
“Os séculos ditos modernos do Renascimento não foram tão modernos assim. Um fosso era então cavado:
de um lado, os sentimentos, do outro, a sexualidade. Mulheres jovens eram vendidas como animais nos mercados matrimoniais.
Excluía-se o amor dessas transações. Proibiam-se relações sexuais antes do casamento. Instituíram camisolas de dormir para ambos os sexos.(…) Idolatrava-se a pureza feminina na figura da Virgem Maria. (…), toda relação que não tivesse  por finalidade a procriação confundia-se com prostituição.”

Há menos de um mês, presenciei a parada gay em Paris, do alto da mansarda do hotel onde estava.
Foram duas horas e vinte de uma multidão alegre, irreverente, feliz, barulhenta, despojada, descontraída, pacífica e alto astral.
Não pensem que havia apenas gays e lésbicas, mas famílias e casais heteros simpatizantes à causa desfilavam com seus carrinhos de bebês, igualmente enfeitados com as cores do arco iris.  Bem em frente ao meu hotel, nos fundos de uma igreja, um grupo de homens (homens?) de casaco de couro, óculos escuros, cabelos escovinha e cachecóis pretos que escondiam o nariz,
manifestavam-se agressivamente contra a passeata.  Mais aterrorizante: todos eles incitados por um padre, de batina até o pescoço, que distribuía bandeiras com cruzes, terços e megafones. Tirei fotos, fiquei tenso.
A tropa de choque policial apareceu e se colocou fisicamente entre as partes,  garantindo o direito de todos expressarem suas idéias, frustrando a linguagem intrínseca da cartilha dos homofóbicos, reacionários e retrógrados: a  violência.
Sobre os manifestantes acolhidos pelas batinas da igreja, faço uma reflexão: bradando contra o curso da parada gay,
bradavam  contra o curso natural da História. Assim como os fatos decantados no livro de Mary de Priore, onde tudo mudou e evoluiu em relação ao sexo e ao amor, o amor entre iguais é um caminho sem volta. Os inflexíveis menos violentos, mas não menos intolerantes, tentam racionalizar que homossexualismo afronta a natureza,
o que só faz consolidar minha crença de que o homem não é um ser  biológico como as amebas, mas acima de tudo, é um ser cultural e emocional.
Não fosse assim, não usaríamos sabão de barba, ceras depilatórias, anticoncepcionais, plásticas e botox.
Apesar do  avanço e das inevitáveis conquistas da comunidade gay, muito desconforto ainda vai rolar.
Muita intolerância ainda vai produzir suas vítimas, muitos filhos com tendências homossexuais não vão ter coragem de enfrentar suas famílias, muitas famílias não vão acolhê-los como o precisam e merecem, e portanto, muitos ainda cairão em desgraça
e vão sofrer injustamente pelas suas escolhas.
O que me alenta é que tanto na evolução da humanidade, nos movimentos sociais,
nas manifestações artísticas, quanto nas relações de amor,  os conservadores sempre perdem no final.
Esperneiam, beijam seus bíceps, cospem no chão, destilam sua cólera, se escondem atrás de crucifixos,
capuzes e batinas, batem, matam, mas sempre são derrotados pela História.
Em menos de 50 anos esse debate será ridículo. Como é hoje queimar ateus na fogueira, proibir o samba
ou não dar à mulher o direito ao orgasmo.
Mais um sopro de esperança: fuçando o youtube, descobri o vídeo de um menino conversando com um familiar gay.
A pureza de suas palavras tento reproduzir aqui:
Você não é marido de uma esposa. É marido de um marido. Legal! Isso quer dizer que vocês se amam!”
Desculpem os coléricos, mas queiram ou não queiram, não importa o jeito, o amor sempre vence.

O desembarque

by jose guilherme vereza em 29 de junho de 2011 | 9:58

O avião pousou com tal suavidade, que o comissário soltou um comentário típico de quem era
um entusiasta pela própria profissão: touché. Logo ele, pensei, tão acostumado com subidas e descidas
é capaz de se encantar com um toque suave no planeta.
A partir daí, os agradecimentos de sempre, as recomendações de permanecerem sentados
até o completo estacionamento da aeronave e muito cuidado ao abrir os compartimentos
de pequenas bagagens sobre as poltronas.
Doze horas de vôo acabavam. Braços espreguiçavam, bocejos se multiplicavam.
Liberados os cintos de segurança e tudo vira uma final no Maracanã lotado.
Pessoas se agitam no menor espaço, pegam suas bugigangas, catam seus pertences de mão,
maletas passam sobre cabeças que se abaixam, excusez moi, desculpe, obrigado, merci.
Perfilados, todos esperam a ordem do início da marcha.
À minha esquerda, já no corredor, uma belezura de uns vinte e poucos anos,
cabelos castanhos claros mal presos a uma piranha desalinhada, semi abraçada por uma echarpe chique,
bolsa bonita à tiracolo, segura com uma das mãos a alça comprida de  uma mala de rodinhas cor de rosa,
última forma em design, mais fashion e elegante impossível. Tem os olhos fixos no seu celular.
Seus dedos da outra mão e de unhas bem feitas estão nervosos. De esguelha, vejo que está lendo emails.
E vejo também: subitamente seu rosto contrai, as narinas dilatam,
as sobrancelhas fortes e delineadas se enviesam, a boca fechada é mordida pelos dentes,
e uma lágrima jorra de seus olhos verdes.
Discreta, não emite som. Percebe que eu havia percebido o momento.
Também discreto, desvio ligeiro os olhos à janelinha distante,
supostamente distraído pelas manobras do pessoal de terra em torno do avião.
Indócil curiosidade. Volto a olhar a menina, que, agora, leva as costas das mãos aos olhos,
enxugando vestígios de uma emoção repentina.
Finjo que não vejo. Só finjo. Minhas antenas captam a criatura tão mais emocionada quanto discreta,
repetindo as contrações faciais, mordendo os lábios, suspirando baixinho,
deixando o rosto molhado e fungando o nariz. E já que o diabo da fila não anda, penso em gritar
para as pessoas abrirem passagem para ela. A moça precisa chegar antes.
Penso também em perguntar se ela está bem, mas sei lá, estava na cara que ela não estava bem,
e o que eu poderia fazer se é que eu poderia fazer alguma coisa? Sou péssimo nesses momentos.
Poderia soar intrometido, parecer abusado, galanteador com prazo vencido, intruso,
penso em ajudá-la carregando sua mala design cor de rosa, mas só penso. A curiosidade incorrigível me paralisa.
A fila anda e ela segue em frente, smartphone entre os dedos, cabelos castanhos claros desalinhados,
merci, au revoir, obrigado, bon journée, até que alcança a porta do avião e seus passos aceleram aeroporto adentro.
Fila da Polícia Federal. Imensa. Vai e vem serpenteando o salão gigantesco,
fazendo as pessoas passarem zumbis umas pelas outras dezenas de vezes.
Claro que não tiro o olho daquela fonte inspiradora de vida, assim como ela só tira os olhos verdes do smartphone
para ajeitar a alça da bolsa bonita, que teima em cair do ombro. Está mais calma, pelo menos aparente.
Tem um olhar evidentemente triste e cabisbaixo. Segue seu zig zag no automático, resignada pelos caprichos
dos trâmites, incapazes de perceber que alguém naquela multidão está passando maus bocados,
triste por algum motivo grave e contundente.
Continuo a discreta espreita e ainda percebo uns e outros constrangidos espasmos de emoção no rosto da moça.
Pronto. Brota um manancial para afogar o meu imaginário.
Quem deve ter morrido? Menina, volta correndo porque seu pai está muito mal.
Claro, o smartphone deve ter dito coisa pior.
Pode não ser o pai. Pode ser a mãe, a avó, o avô, irmão, amigo, amiga, o namorado.
Mas por que morreria o namorado? Um acidente, talvez.
Trágico demais. Pode ter sido a notícia de uma doença de um querido,
a confirmação de uma gravidez indesejada, o que fazer com o futuro? O que dizer à família?
Pode ter sido o fim do namoro, o amor é a coisa mais triste quando se desfaz.
Mas súbito assim? Por um frio e covarde email? Deve ser um mané esse cara.
Ou teria sido a melhor amiga que confirmou estar namorando exatamente namorado mané
enquanto ela vagava pelas margens do Sena? Sena? Teria ela deixado um amor avassalador em Paris?
As lágrimas bem poderiam ser um coquetel de paixão e saudade, alimentada por um email romântico e sincero.
Ái como dói uma separação. Ái como é gostoso chorar por amor correspondido.
Enquanto a fila anda a passos indolentes, observo a menina com traços de mulher -  ou vice-versa -,
se distanciando e se aproximando lentamente de onde estou, num vai e vem recorrente,
onde vão e vem infinitos pensamentos, dos mais tristes aos mais prosaicas e bobinhos.
Chego a imaginar que seu poodle pode ter fugido de casa, ou que sua calopsita possa ter sofrido um enfarte,
mas por respeito à gravidade do seu rosto, dispenso tais possibilidades.
Finalmente ela chega ao guichê muito antes de mim.
Apresenta seu passaporte atabalhoada, conversa alguma coisa com a policial, que,
suponho, lhe deseja boas vindas educadamente. Sem querer, atraso a fila para acompanhar o que se segue.
Estico o pescoço o mais que posso, girafa de binóculo, vejo a criatura aflita correr em direção à alfândega.
Algo de muito sério deve ter acontecido. Não passou pela esteira de malas, não despachou bagagem maior.
Passa ao largo do freeshop. Mais estranheza. Que motivo tão forte levaria uma mulher tão charmosa e bem cuidada
a não passar pelos perfumes, cosméticos e outras delicadezas de um freeshop?
Sortuda, não é parada pelos fiscais. Lá longe, de onde estou, vejo a porta do desembarque se abrir.
E a criatura aflita puxando sua malinha cor de rosa design, seu cabelo castanho claro desalinhado, sua echarpe esvoaçante,
desaparecer na multidão. Deixando um rastro de inquieto mistério, derramando infinita poesia.

O amor é soberano

by jose guilherme vereza em 8 de junho de 2011 | 8:47

No filme O que é isso companheiro?, um grupo de guerrilheiros urbanos está às voltas com o cativeiro do embaixador americano que acabaram de sequestrar. Rio de Janeiro, 1969. Adrenalina a mil, negociações clandestinas pra lá e pra cá, ainda tinham tempo de discutir política entre si. Só pensavam nisso, como bem convinha à situação. Lá pelas tantas, o personagem Fernando Gabeira não se contem e tasca um beijo na boca da bonitinha companheira de luta armada. Ela responde com espanto: o que é isso companheiro?
Gabeira se flagra começando a se apaixonar pela moça, mas não havia o menor espaço para o amor, naquelas circunstâncias totalmente críticas e na beira do limite. Pobre moça. Estava apaixonadamente absorvida pela causa que nem se dava conta que a essência do ser humano é o amor puro e instintivo, o mesmo que rege a vida, ou melhor, faz a vida acontecer.
Aproxima-se o Dia dos Namorados. Penso quantos amores enrustidos e não declarados existem por aí, exatamente eclipsados pela rotina, pelo dia a dia, por causas particulares que o caos contemporâneo impõe. Haja insegurança, incerteza de futuro, uma prova decisiva amanhã, um emprego por um fio, questões domésticas adolescentes ou adultas,
fracassos, frustrações, prazeres efêmeros, necessidades de sucesso, busca pela felicidade, filhos a cuidar, contas a pagar, contas a prestar, vida a sobreviver. Como se não bastassem as mazelas interiores de cada um, haja dilemas e debates exteriores compartilhados, que entram na nossa vida sem pedir licença e se instalam na nossa sala, tirando os sapatos, abrindo os braços com jornal na mão, lap tops e ipads no colo, e esticando as pernas diante da televisão. E tome de escorregadas e estabacos de Palocci,
injustiça e leviandade dos bombeiros do Rio de Janeiro, picuinhas da oposição sem projeto, os livros do MEC, a fanfarronice do ex-presidente posando para Caras, o olhar bandeira do outro ex-presidente para as drogas, o que fazer com a maconha, a conquista dos gays, a fobia da homofobia, a ameaça da volta da inflação, as vergonhas dos políticos, os estádios que não ficam prontos, os aeroportos que não decolam, a seleção do Mano que não decola, Obama que mata Osama e quer reviver as fronteiras originais da Palestina, as revoltas árabes, o perigo nuclear, a bolsa que balança o mundo, a ditadura fashion, a eficácia das UPPs, o novo código florestal do comunista que agrada os senhores das terras e maltrata o planeta, a chatice do politicamente correto, os ritmos alucinantes da informação e da cobrança por achar alguma coisa,  tomar partido, participar, interagir, agir.
É tanta coisa, mas tanta coisa a nos ocupar e preocupar, exigindo posições, opiniões, atitudes, presença, compromissos, engajamento, que suspeito que um gesto individual de amor por alguém, quando lembrado, por mais discreto que seja, por mais piegas que seja, para muita gente possa parecer o cúmulo da alienação.
O que é isso companheiro? como frase título de livro e filme contém esta simbologia. Como é que alguém pode dizer eu te amo, com tantas inquietações, contradições, barbaridades, sandices e indignações transbordantes? Os apelos publicitários, alguns bem bobinhos por sinal, que nos fazem não esquecer a data, funcionam como um sininho de alerta para quem está no turbilhão da tsunami dos fatos. Olha, pessoal. Dá pra parar um pouquinho e se entregar ao amor, pelos menos, só por uma noite? Um instantinho só? Se essa carapuça lhe serve, vai fundo, companheiro, ou companheira: abra seu coração sem medo do ridículo, sem medo de não parecer original e criativo. Nada vai mudar o mundo que nos rodeia com uma atitude sincera individual, mas quem arriscar um bom e velho eu te amo à mulher, ao marido, ao namorado, ao noivo, ao parceiro, ao caso, ao bofe,
enfim, a quem você elegeu ou em quem você está mirando, pode receber de volta uma descarga deliciosa de energia.
(Mesmo os que estão literalmente na saudade, pensem que só existe saudade de coisas, momentos e pessoas que valeram a pena).
E aí, sim, lembrando que o amor existe, o amor puro e sincero, instintivo e carnal, eterno enquanto dure, aí sim, o Dia dos Namorados e seus dias seguintes passam a ser recarregadores de emoções, vitaminas na auto estima, turbos para seguir vivendo.
O mundo não vai melhorar nem piorar por um simples gesto de carinho. Você é que vai melhorar.

O tempo e a saudade

by jose guilherme vereza em 25 de maio de 2011 | 10:10

Acorda antes do despertador, lava o rosto com gel purificante, dá tapinhas nas bochechas, entra no legging, se afina,
calça os dois tênis de uma vez, veste o bustiê francês, prende o rabo (de cavalo), enfia o ipod no ouvido,
vai um yogurte no embalo, garrafinha de chá na cintura, sai correndo pela escada, ganha a rua, correr é tesão,
entra pela academia, disfarçando a tensão, cantarolando alegria. Sobe na bike estilosa, spinning até cansar,
mas como não cansa jamais, ginástica localizada é a vez: peso nas canelas, bunda dura é bunda desejada,
perna bela é perna torneada, abre o peitoral, fecha o peitoral, halteres pra lá, halteres pra cá, sobe ferro, baixa ferro,
puxa aqui, puxa dali, trinta abdominais, cinqüenta abdominais, cem abdominais, duzentas, trezentas,
quinhentas, vai pro Guiness essa mulher.
Pinga o suor, parece que se esvai, fitinha na testa não deixa rosto a impressão do sofrer.
Alonga daqui, alonga dali, beija o chão e os pés sem dobrar a perna. Uma sessão de pilates encerra a longa  e atribulada manhã.
Suaves movimentos energéticos. À casa, aos trotes. Fé na lipo, no lifting, na plástica onde for preciso, crença na beleza eterna.
Chuveiro morno e gostoso, banho de deusa, quase gozo. Cremes e anti rugas, botox ficou maravilha, boquinha de boneca,
beijinho arrebitado no espelho, peitinho em riste pelo silicone, pálpebras em permanente estado de alerta,
o corpo fininho, tudo em cima. Alface é a refeição, suco de beterraba com mamão, direto para o salão, hora da massagem,
das unhas e da depilação. Fica em dia com o mundo por Caras e Contigo, comenta com o cabeleireiro amigo o progresso do processo de emagrecimento da jornalista e do apresentador do Fantástico. – É Fantástico, fica feliz em dizer. 
Sai lisinha feito Barbie, leve, ereta, sequinha, um vara pau. Zanza pelo shopping sem cair do salto, pouco sorri – dá pé de galinha.
Encontra as amigas para um chá, falam que a vida é o que há.
À noitinha, de volta para casa, hora de relaxar. Que dia! Que banho! De sais, desta vez. Uma nova mulher, assim se sente.
O vestido solto, a sapatilha que vela o joanete, o cabelo escorrido – uma cortina progressiva -, o batom indiscreto, o pescoço rijo,
o nariz em pé. A bronca na empregada, sobre o único e recorrente assunto:
- Já disse, Maribel, eu não como nada, quem gosta de jantar é o seu Osmar.
O marido provedor, cansado de não sei de quê, chega austero e faminto, dá-lhe um falso beijo na testa e lhe fita da cabeça aos pés.
No fundo, o infeliz pensa, mas não diz:
- Uma boneca inflável. Durinha, lisinha, peladinha, e sem nada por dentro.
E no instante seguinte, cai o ogro no chão, o estúpido pensar sucumbe por si só e desaba-lhe uma culpa torrencial.
Abraça a mulher com ternura e afeto, sente contra o peito seu corpo seco e a alma oca.
A cada afago, lembra com saudade e delicadeza a rechonchuda gostosa, alegre, cheia de vida e bom humor,
por quem um dia se apaixonou. Tempos, tempos atrás.

Arte e pureza

by jose guilherme vereza em 11 de maio de 2011 | 11:44

Curioso fotógrafo em andança mato adentro. Freelancer de uma revista
de cultura e de um poderoso banco de imagens multinacional.
De um leito de rio ralo, avistou o casebre no alto de uma colina.
Tinham dito que ali morava um artista. 
Aproximou-se com cerimônia, batendo palmas, tirando o chapéu.
Apareceu uma velhinha, cercada de mais de dúzia de crianças,
de diversos tamanhos, alturas e barrigas.

- Tarde
- Tarde.
- É aqui que mora um artista?
- É eu, sim senhor…

Beirava os cem anos a velha. Coisa comum na região.
Rosto rachado, mãos craquelentas, dente nenhum.

- Ah, é a senhora?
- Qué vê as obra, moço?
- Sim… gostaria…

A velha espantou as crianças como se enxota galinha no terreiro.
Entraram só os dois na casa. Pediu para o moço esperar um tantinho na sala
e sumiu por uma porta. As lentes naturais dos olhos do fotógrafo percorreram
detalhes. A mesa tosca sobre um tapete de trapos, um sofá de courvin,
uma estátua de São Jorge no chão de barro batido.
À esquerda, uma cortina de fitas caídas do portal deixava aparecer colchões
ao lado de colchões, onde, supôs o visitante, abrigavam netos, bisnetos
e agregados da artista. No puxadinho visto no fundo da sala,
um fogão de lenha adormecido, uma chaleira descansada na trempe.
Nas paredes, entre retratos de casais colorizados e desbotados,
um quadro de pano amarelado definia um estilo de vida
em letras bordadas à mão:

“ DEUS DANO SAÚDE…
DINHEIRO PRA DESPEZA…
COZINHA BEM ASSIADA…
UM MARIDO BONZINHO…
NÃO PRECIZA MAS NADA.” 

O fotógrafo preparava a câmera para eternizar a pureza daquelas palavras,
quando a velha ressurgiu.

- Entra aqui, moço.

Trancou porta do quarto misterioso, fechou as janelas,
acendeu lampião e abriu um armário imenso, cheio de prateleiras.

- Que é isso, dona?
- Caraios, moço.
- É isso mesmo, dona?
- Tem de jacarandá, pau brasil, jatobá, curupixá, sucupira,
galho de goiabeira, cajueiro, toco de lenha. Eu faço com esse canivetinho aqui.
Depois, com uma lixa deixo tudo lisinho. Bom de passar a mão
.

Eram esculturas fálicas dos mais variadas dimensões. Finas, grossas, compridas,
curtas, bojudas. Todas eretas, anatomicamente quase perfeitas,
com detalhes de veias que pareciam pulsar. Entre perplexo e deslumbrado,
o fotógrafo tentou puxar prosa com naturalidade.

- Incrível o seu trabalho. Mas por que a senhora escolheu este mote?
- Ah, moço… tive uma penca de marido que foi morrendo de morte morrida.
Cada um que enterrava, eu catava um toco no mato e ia dando molde com canivetinho,
pra guardar boa lembrança do defunto. Quanto mais fazia, mais aparecia marido.
- A senhora teve tanto marido assim?
- Pra mais de onze. Depois, quando eles foram rareando, continuei fazendo,
porque peguei gosto. Dá uma quentura nas entranha ficar alisando as memória.
- A senhora vende suas peças?
- Vez sim, vez não, vendo uma ou outra, quando o roçado não dá pro gasto.
- Mas sua obra pode ter muito valor.
- Então, não sei, seu moço? Até veio uma dona cara de rica
e disse que isso era coisa de arte. Prometeu que me pagava uma dinheirama
pra mudar pra cidade e ficar famosa com meus toquinho.
Diz que lá tá cheio de muié e homi  querendo alisar essas coisa.
- E a senhora foi?
- Fui nada. Num largo a minha vidinha nem por um caraio.

E abriu uma gargalhada sem dente e sem pudor.
O fotógrafo estava embevecido.
 
- Há muito tempo a senhora faz isso?
- Pra mais de trinta anos, toda noite.
- Sempre à noite?

A velhinha segredou:

- É quando minhas criança vai tudo drurmi.

A paixão de Horácio

by jose guilherme vereza em 27 de abril de 2011 | 0:06

Ártemis Plaka, a suprema soprano, no Municipal.
Assim anunciou-se. Assim tremeu o coração de Horácio,
fã apaixonado pela diva grega.
De sonhar com sua beleza pura.
De imitar seus gestos embriagantes.
De colar retratos no espelho do armário.
De postergar amores menores em nome de uma fantasia lírica.

Com antecedência de séculos, Horácio comprou duas poltronas
na primeira fila. Uma para ele, outra para a amiga Leda.
Caso desmaiasse.

Chegou o dia. Camisa social nova, blazer resgatado das naftalinas,
barba escanhoada, cabelos empastados de gel.
Quem sabe ela olharia para ele?
Quem sabe ela sorriria para ele?
Quem sabe ela cantaria só para ele?
Quem sabe ela ouviria bravo! como se fosse só dele?
Quem sabe depois do espetáculo ignorariam a segurança,
o solene e o protocolo?
Quem sabe flores no camarim se transformariam
em champanhe em camarins mais íntimos?
Quem sabe ela se desse ao tiete como as tietes se dão aos roqueiros?

Não careceria tradutor. O sotaque a la grega do inglês de Horácio
seria mais um ponto de sedução. Fora, claro, o despejar de encantos e elogios,
próprios de quem conhece o universo da estrela tanto quanto a própria estrela. 
E experimentariam noite adentro solfejos ferozes,
tremores e ondulações nuas, mordiscares errantes,
gostos novos em bocas aflitas, mãos atrevidas,
línguas arqueólogas, cheiros estrangeiros à flor das peles.
Pelos embaralhados de tanto roçar
dançariam soltos pelos lençóis.
E explodiriam os dois em suspiros suaves,
como se aplaudissem exaustos um ao outro.

O que faria com Leda, a fiel escudeira, companheira, alcoviteira,
fornecedora de coragem? Um taxi de luxo providencial na porta do teatro
e a promessa de que contaria tudo em detalhes.
A cama  com Artemis só mereceria ser a dois. Mas os segredos, a três.

Chegou a noite.
Suavam as mãos de Horácio.
Ferviam as maçãs do rosto de Horácio.
Tremiam a pálpebras de Horácio.
O ensaio desencontrado dos violinos soava como prólogo
de um amor à primeira vista.
Da parte dela, claro, porque ele já veio devidamente enfeitiçado.

Brota na ribalta a suprema soprano.
Não se percebe respiração no peito de Horácio.
Leda olha para o amigo, que arregala os óculos de aro fino
e se empertiga como um perdigueiro que vislumbra a perdiz.

Ártemis é a delicadeza comprovada.
Canta a primeira ária a metros de um Horácio petrificado.
Só o fosso da orquestra separava aqueles corpos.
Só um fiapo imaginário separava o desejo do êxtase.
O tempo do sonho encosta na beira do possível.
Por que não?

E a diva vai cantando, cantando, cantando.
E a ópera vai seguindo pelas mãos do maestro elegante.
E Horácio vai murchando, murchando, murchando.
A gola engomada da camisa social nova desaba lentamente,
junto com o olhar perdido atrás dos óculos de aro fino.

Como assim?

- Vamos embora, Leda.
- Tá passando mal, Horácio?
- Não. Olha quantos dentes de ouro ela tem.
E repara debaixo do braço. Como transpira a infeliz.

Saíram de fininho. Abaixadinhos.
Como convém ao Municipal.

Casamentos

by jose guilherme vereza em 13 de abril de 2011 | 7:26

Na hora do jantar, ela veio com essa conversa:

- Você ouviu, Jurandir, o que a vizinha Arlete fez com o marido?

- Que conversa é essa, Maria Elisa?  Fofocando de novo?

- Ela descobriu que o sem vergonha estava se engraçando com a funcionária. Esperou ele dormir, ferveu a chaleira e despejou água pelando no ouvido do safado.


- História, Maria Elisa. Quem devia levar água fervendo na língua é mulher intriguenta, que só fala da vida dos outros. E quer saber: não suporto mais você, velha mexeriqueira.  Todo dia uma bisbilhotice!


E levantou da mesa direto para cama. Ao longe, ouviu Maria Elisa  tagarelar ao telefone com as amigas. Falou da vizinha, falou da cunhada, falou da manicure, falou, falou, falou até cair no sono. No sofá, com o fone fora do gancho.

Acordado pelo silêncio, Jurandir levantou da cama.

Nem mexeu na mulher que roncava  de roupa e tudo na sala, com a boca aberta e a língua cansada  para fora.

Foi até a cozinha, sem chinelo. Pé ante pé.Aproximou-se do fogão.Tremeu-se todo quando viu a chaleira na trempe.
E desligou a torneirinha do bujão de gás.

 

 

******

 

Amílcar e Jurema arrastavam um casamento.

 

- A partir de agora, só falo com você em inglês, Amílcar.

 

- Ta maluca, Jurema. Você não sabe nem dizer “good morning”.

 

- Quer que quer dizer isso?

 

- “Bom dia”, sua burra.

 

- Então nem “bom dia” eu digo mais.

 

Aos silêncios, chegaram às bodas de ouro.

 

 

******

 

Queria se livrar do marido. Escondeu chumbinho de rato entre as pernas.

Meia noite, ele, bêbado, veio se chegando entre os lençóis.

 

- Abre as pernas, Almerinda. Tô na maior secura.

 

- Venha, Josias, venha. Vem curar sua ressaca no meu poço da felicidade.

 

E tal como um urso lambendo mel, Josias mergulhou fundo no pote de Almerinda.

Nem demorou, começou a fraquejar a respiração. Aos urros teve um espasmo, ali mesmo, sem deixar seu posto.

Almerinda prendeu com as coxas a cabeça do homem estrebuchante.

E, enfim, gozou duplamente.

 

 

Boa noite

by jose guilherme vereza em 30 de março de 2011 | 23:35

Ela chegou do mesmo jeito que chegava. Abrindo a porta do apartamento de supetão, xingando o trânsito, o dia inútil, a sopa aguada que a diarista sempre deixava do lado do microondas.

Olhou a secretária eletrônica. Nem piscava. Olhou mais uma vez o celular que trazia na mão, entre chaves e contas a pagar. Nada dizia. Olhou o vizinho em frente. Janela fechada.

Hora de jogar. A sandália para alto, a bolsa na mesa, o corpo no sofá.

Hora de brincar consigo mesma. Mãos entre as pernas, calcinha nas coxas, todos os namorados de uma vez. Os que foram, os que não foram, os que ficaram, os que gostaria que fossem, os que jamais viriam a ser. Fábio, Antônio, Walter, Celinho, Brito, Marco Aurélio, Alfredo, Guti,  Paulinho, Duda, Carlito, quase, quase, tô indo, tô indo, tô indo, agora, agora, agora, faltou um, faltou um, Gerard, Gerard, Gerard, Geraaaaard.

Ela chegou lá do mesmo jeito que chegava sempre.

Sempre faltando um.  Dessa vez, Gerard. Amanha é a vez do Bruno ser o último a aparecer. Só para quebrar a rotina.

Suspirou,  baixaram-se os batimentos, sentiu um bem estar agudo. Ajeitou a calcinha, recompôs-se. Olhou pela janela. Nada do vizinho. Descalça ao banheiro, balançando aos mãos úmidas até a cozinha, arrumou a mesa do mesmo jeito que arrumava.

Pratos, colheres, concha, torradas integrais, pasta de ricota, um descanso para a tigela da sopa infeliz. Ao colocar o copo à direita do prato, o mesmo barulho de chaves na porta.

Ele chegou do mesmo jeito que sempre chegava.

- Como foi seu dia?

- O de sempre. E o seu?

- O de sempre.

Sentaram-se.

- Sopa aguada.

- A de sempre.

Uma colherada, duas colheradas, três colheradas. Não fosse o barulho de sopa chupada, só silêncio. Uma torrada, duas torradas, três torradas. Cróic, cróic, cróic.

- Estou cansado, vou dormir.

- Já vou também.

Perambulou pela sala como sempre perambulava pela sala.

Olhou a secretária eletrônica. Nem piscava. Desligou o celular.

Olhou fixo para a janela fechada do vizinho. Respirou fundo e pensou com ela mesma. E, como sempre, sorriu.

-  Boa noite, Bruno. Até amanhã, na mesma hora.

Boa noite

by jose guilherme vereza em | 23:10

Ela chegou do mesmo jeito que chegava. Abrindo a porta do apartamento de supetão, xingando o trânsito, o dia inútil, a sopa aguada que a diarista sempre deixava do lado do microondas.

Olhou a secretária eletrônica. Nem piscava. Olhou mais uma vez o celular que trazia na mão, entre chaves e contas a pagar. Nada dizia. Olhou o vizinho em frente. Janela fechada.

Hora de jogar. A sandália para alto, a bolsa na mesa, o corpo no sofá.

Hora de brincar consigo mesma. Mãos entre as pernas, calcinha nas coxas, todos os namorados de uma vez. Os que foram, os que não foram, os que ficaram, os que gostaria que fossem, os que jamais viriam a ser. Fábio, Antônio, Walter, Celinho, Brito, Marco Aurélio, Alfredo, Guti,  Paulinho, Duda, Carlito, quase, quase, tô indo, tô indo, tô indo, agora, agora, agora, faltou um, faltou um, Gerard, Gerard, Gerard, Geraaaaard.

Ela chegou lá do mesmo jeito que chegava sempre.

Sempre faltando um.  Dessa vez, Gerard. Amanha é a vez do Bruno ser o último a aparecer. Só para quebrar a rotina.

Suspirou,  baixaram-se os batimentos, sentiu um bem estar agudo. Ajeitou a calcinha, recompôs-se. Olhou pela janela. Nada do vizinho. Descalça ao banheiro, balançando aos mãos úmidas até a cozinha, arrumou a mesa do mesmo jeito que arrumava.

Pratos, colheres, concha, torradas integrais, pasta de ricota, um descanso para a tigela da sopa infeliz. Ao colocar o copo à direita do prato, o mesmo barulho de chaves na porta.

Ele chegou do mesmo jeito que sempre chegava.

- Como foi seu dia?

- O de sempre. E o seu?

- O de sempre.

Sentaram-se.

- Sopa aguada.

- A de sempre.

Uma colherada, duas colheradas, três colheradas. Não fosse o barulho de sopa chupada, só silêncio. Uma torrada, duas torradas, três torradas. Cróic, cróic, cróic.

- Estou cansado, vou dormir.

- Já vou também.

Perambulou pela sala como sempre perambulava pela sala.

Olhou a secretária eletrônica. Nem piscava. Desligou o celular.

Olhou fixo para a janela fechada do vizinho. Respirou fundo e pensou com ela mesma. E, como sempre, sorriu.

-  Boa noite, Bruno. Até amanhã, na mesma hora.

perfil

José Guilherme Vereza é publicitário, consultor, professor, escritor, blogueiro. Também é botafoguense, ex-tijucano, sempre lebloniano, neopaulistano. Tem mulher, duas filhas, babá, cozinheira, passadeira. E faxineira que vem quinzenalmente. Tem dois filhos homens, que sempre chegam com uma nora e namoradas diversas. Além delas, tem mãe, madrasta, irmã, nora, cinco cunhadas, duas sobrinhas, uma sogra-avó, uma sogra-madrasta, 37 primas, várias alunas e um milhão de amigas. Pode-se dizer que é um Ph.D. em TPM.