Um pouco antes da partida contra o Chile, quando anunciaram a escalação do Brasil, fiquei preocupada. O Dunga, com seu critério de antigüidade, não escalou Nilmar no banco. Preferiu o Jô. Ora, o Jô seria uma opção semelhante ao Luís Fabiano, e caso precisasse mudar o jogo e dar uma nova dinâmica ao ataque, não teria um atacante que pudesse fazer esse papel. Felizmente isso não foi necessário. Quando optou por jogar com três atacantes, Dunga resgatou a maneira de jogar do futebol brasileiro. Foi necessário perder para a Argentina nas Olimpíadas, com aquele futebolzinho covarde – meio de campo cheio e no ataque somente Ronaldinho, fora de forma, com o Sobis isolado – para que ele mudasse.
No domingo, Dunga teve medo de perder o cargo e por isso resolveu jogar para a frente, abandonando a idéia de um futebol "retranqueiro". Espero que ele tenha apreendido a lição. O futebol pentacampeão não pode se acovardar diante de nenhum time. Respeitar sim, mas não entrar em campo somente preocupado em marcar o adversário.
‘Viu, Dunga, como é bom colocar a seleção jogando "cor-de-rosa"? Pra frente, no ataque, fazendo a gente sonhar e sorrir
No Chile, parece que finalmente a seleção brasileira encontrou um substituto à altura de Ronaldo Nazário: Luis Fabiano. Claro, o "Fabuloso" (como é chamado na Espanha) ainda tem muito o que fazer na seleção para ser comparado ao Fenômeno, mas reúne as características imprescindíveis para ser o titular da posição. Provou isso nessa partida, sendo decisivo para a vitória do Brasil contra o Chile. Movimentou-se muito, dificultou o trabalho da defesa do Chile, fez dois gols, perdeu outros, e deu o passe para o Robinho fazer o seu. Encheu nosso ataque ganhando jogadas no corpo e na raça.
Ainda não dá para se entusiasmar. Vencemos com autoridade, mas o Chile entrou com um esquema tático muito ofensivo, "se achando", dando liberdade para Diego e Robinho. Coisas do seu técnico argentino, o louco Bielsa, como é conhecido em seu país. É certo que, com essa postura ofensiva, o time do Chile criou muitas oportunidades de gol, desperdiçadas por total falta de competência de seus atacantes. Mas a verdade é que a defesa brasileira ofereceu essas oportunidades. Talvez, contra um time mais competente, esses erros poderiam ter aparecido em forma de gols. Portanto, vamos com calma. Foi uma boa vitória, mas ainda há muito o que fazer nessa seleção. É evidente que Ronaldinho Gaúcho está longe de sua melhor forma: perdeu uma disputa de bola na lateral, no ataque; saiu na frente e o marcador o alcançou, tirando-lhe a bola. Nos bons tempos de Barcelona, ele ganhava todas essas arrancadas. Dunga acertou na sua substituição quando Kléber foi expulso.
Em compensação, o Diego jogou muito bem, confirmando sua ascensão desde as Olimpíadas. Marcou, organizou jogadas, deu ótimos lançamentos para o Luís Fabiano. Com a boa fase de Diego, uma nova polêmica já se avizinha. No próximo jogo da eliminatória, em Outubro, Kaká estará de volta. Quem sairá para ele entrar? Diego era o natural substituto de Kaká. Agora, com as boas atuações e a moral que ganhou quando peitou seu time alemão para jogar nas Olimpíadas, o Dunga não deve tirá-lo do time. E como Ronaldinho ainda não está bem, é provável que vá para o banco. A não ser que "arrebente" no Milan até Outubro.
Jogar todos juntos? Tirem o cavalinho da chuva! O Dunga pode ter se tornado um pouco ofensivo, mas não voltará com o "quadrado", sendo mágico ou não – na verdade, quase um quinteto, porque Diego está mais para o ataque do que para a marcação. Além disso, o Anderson do Manchester é carta dentro do baralho de Dunga. Só não foi convocado porque está lesionado.
Ainda precisamos de laterais: Maicon até que tenta, mas para titular não dá. A lateral esquerda é um problema. O Kléber não está bem nem no Santos, quanto mais na seleção! E para confirmar a má fase, arrumou uma expulsão. Contra a Bolívia, o Juan do Flamengo terá sua grande chance. Parece um pouco tímido na seleção, mas tem que jogar bem, porque o Marcelo, do Real Madrid, é o provável lateral esquerdo.
Tenho que elogiar Dunga. Voltou atrás, mudou de opinião e colocou o time mais ofensivo. Substituiu bem. Nas entrevistas estava bem sereno, sem revanchismos e ironias. Viu, Dunga, como é bom colocar a seleção jogando "cor-de-rosa"? Pra frente, no ataque, fazendo a gente sonhar e sorrir.
Quadrado mágico – Apelido dado pela imprensa brasileira ao ataque da seleção composto por Ronaldinho Gaúcho, Kaká, Adriano e Ronaldo Fenômeno, escalado pelo técnico da época, Carlos Alberto Parreira, em março de 2005. O melhor "quadrado mágico" foi o formado com Robinho no lugar do Ronaldo Fenômeno. Esse quadrado ganhou a Copa das Confederações na Alemanha, em 2005, em cima da Argentina, com uma goleada de 4 a 1. Foi um jogo de sonho. Ali, começou o favoritismo excessivo do Brasil para a Copa de 2006. Só que, para a competição mundial, Parreira não manteve o mesmo quadrado. Voltou com o fenômeno, totalmente fora de forma, deixando Robinho no banco. Para piorar, esqueceu os dois laterais Gilberto e Cicinho, que voaram na Copa das Confederações. Preferiu os figurões já em declínio Roberto Carlos e Cafu. Foi um fracasso total – não passamos das quartas-de-final. Um fracasso que deu razão aos críticos do quadrado, e que favoreceu a filosofia da marcação e do futebol defensivo na seleção.