» 2008 » dezembroIsabel Kieling

Triste fim

by Redação em 28 de dezembro de 2008 | 21:00

Foi com muito pesar que recebi a notícia da não aprovação do projeto de Japeri para 2009. Apesar de estar totalmente instrumentado, com toda a documentação em dia e com o compromisso do patrocinador, o projeto não entrou nem na pauta da última reunião do ano para avaliação.

O Projeto Japeri tem como objetivo favorecer 100 crianças carentes da região (uma das cidades da Baixada Fluminense com pior índice de desenvolvimento humano do Estado do Rio), com aulas de golfe, além de assistência odontológica, aulas de educação física, passeios, alimentação e cestas básicas.

Esta recusa realmente é lamentável. Como podem não aprovar projetos que beneficiam crianças carentes? Nesta última reunião, foi aprovado um projeto do COB (Comitê Olímpico Brasileiro) de R$ 22 milhões. O custo do projeto de Japeri é de apenas R$ 390 mil! Todo este dinheiro para o COB servirá para elaborar grandes projetos para tentar trazer as Olimpíadas de 2016 para o Rio de Janeiro.

‘Esta recusa realmente é lamentável. Como podem não aprovar projetos que beneficiam crianças carentes?

Para se ter uma idéia, o Ministério do Transportes gastou mais de R$ 500 mil com propaganda para promover a candidatura do Rio 2016 no Grande Prêmio Brasil de Fórmula 1, em outubro passado. Dinheiro gasto em único evento. Este valor daria para duplicar o Projeto Japeri.

Eu não acredito que o Rio de Janeiro ganhará a corrida para sede de 2016. Os técnicos do COI (Comitê Olímpico Internacional) sabem que as autoridades brasileiras fazem projetos bem maquiados, mas que na realidade não serão executados. Aliás, nem estamos fazendo mais. A FIFA está criticando duramente o Projeto do Rio de Janeiro para ser uma das sedes da Copa do Mundo 2010. Nem para fazer uns dois a três jogos da Copa de 2010 temos condições. Se um dia acabarmos com a violência no Rio, melhorarmos os meios de transportes, despoluirmos a Baía de Guanabara e as lagoas da Cidade Maravilhosa, poderemos pensar em fazer uma olimpíada aqui. Londres conseguiu porque tem estrutura e despoluiu o rio Tâmisa há muito tempo.

A não aprovação do Projeto Japeri e talvez de muitos outros que beneficiam crianças carentes tem tudo a ver com todas as notícias que temos lido sobre a tentativa do COB de impedir a CPI que investigará a aplicação das verbas oficiais nos esportes olímpicos. O alto custo dos Jogos Panamericanos do Rio ainda não foi explicado, e muito menos o das Olimpíadas de Pequim.

A presidente da Federação de Golfe do Rio de Janeiro, Vicky Whyte, após uma semana da não aprovação do projeto, me informa que, graças a alguns amigos, ela vai tentar manter pelo menos as aulas de golfe dos alunos. No entanto, terão que reduzir a alimentação, cortar o tratamento odontológico, as cestas básicas e a participação das crianças em campeonatos de golfe.

Somente no Brasil este tipo de coisa acontece…

Agradeço a todas leitoras do Bolsa a preferência, em especial as que curtem esportes, desejando um feliz Ano Novo, repleto de saúde e sucesso. Que em 2009 vocês continuem conosco, se informando, participando, criticando e se divertindo.

Campo dos sonhos

by Redação em 22 de dezembro de 2008 | 21:00

VIcky Whyte é uma mulher forte e determinada, que conseguiu chegar à administração do golfe brasileiro, cargo em geral ocupado pelos homens. Atualmente luta para manter um lindo projeto de inclusão socia, por meio do golfe, para crianças carentes de Japeri. A Presidente da Federação de Golfe do Rio de Janeiro, Vicky Whyte, poderia constar de qualquer uma destas listas de pessoas que fazem a diferença ou que são destaques do ano. Só não é, porque, talvez, ela ou o esporte que representa não sejam tão midiáticos.

Vicky me recebeu na Gávea Golfe Clube para esta entrevista, com um olhar apreensivo. Aguardava ansiosamente que o Projeto Japeri, que beneficia crianças carentes, fosse aprovado em Brasília para usufruir da lei da incentivo ao esporte do Ministério dos Esportes. Seus olhos brilham quando fala, com um forte sotaque inglês do "campo dos sonhos", como é apelidado, entre os golfistas, o campo de golfe de Japeri.

VOCÊ É BRASILEIRA?
Sim. Nasci aqui, no Rio, sou filha de pai americano e mãe inglesa. Vivi aqui até os 12 anos, quando fui estudar numa escola interna na Inglaterra. Depois fiz faculdade nos Estados Unidos, mas preferi voltar para o Brasil, apesar ter também cidadania americana. Casei. Tive dois filhos aqui. Gosto muito do Rio de Janeiro, por isso optei morar no Brasil. Tenho família e muitos amigos aqui.

DESDE QUANDO VOCÊ JOGA GOLFE?

Desde criança. Meu pai, Seymour Grant Marvin, foi fundador da Associação Brasileira de Golfe que depois virou a Confederação Brasileira de Golfe. O pai dele, meu avô, foi um dos fundadores aqui do Gávea Golfe Clube e do Itanhagá Golfe Clube. Meu pai ensinou a mim e minhas irmãs a jogar golfe desde cedo. Minhas irmãs pararam, mas eu continuei.

SABEMOS QUE O GOLFE É UM ESPORTE COMANDADO PELOS HOMENS, COMO VOCÊ CHEGOU AOS CARGOS ADMINISTRATIVOS DO GOLFE BRASILEIRO E INTERNACIONAL?
Sempre fui boa jogadora. Joguei pelo Brasil vários campeonatos internacionais. Em 1993, a capitã da equipe juvenil feminina, que ia levar a equipe brasileira para o Sul-Americano em Montevidéu, na última hora não pode ir. A CBG (Confederação Brasileira de Golfe) teve que substitui-la e me chamou para ser a capitã. E a equipe foi muito bem. Ficamos em segundo lugar. E aí, não parei mais. Fui capitã da equipe juvenil, adulto em vários campeonatos. Como fui a vários mundiais, fui indicada pelos argentinos para o cargo de Presidente Feminino da Federação Internacional de Golfe de 2000 a 2006.Todas as minhas viagens como capitã me levaram a estes cargos. Na Federação de Golfe do Rio de Janeiro, estou no terceiro mandato. A partir de janeiro, assumo o cargo de Vice Presidente Técnico da Confederação Brasileira de Golfe.

COMO SURGIU O CAMPO DE JAPERI?

Alguns caddies aqui do Gávea moram em Japeri. E, como Japeri não tem opção de lazer, resolveram improvisar numa fazenda abandonada três buracos para se divertirem. O prefeito de Japeri na época, Carlos de Morais, ficou sabendo destas atividades e achou interessante ampliar isto. Procurou a Federação com a idéia de transformar o campinho dos caddies em um campo de golfe mesmo. Compramos a idéia, pensando na popularização do esporte. Arrumamos patrocínio e construímos um campo de nove buracos que foi inaugurado em 2006.

COMO TIVERAM A IDÉIA DE FAZER A ESCOLA DE GOLFE?

A escolinha de golfe não foi idéia minha. Surgiu espontaneamente com dois ou três ex- caddies que jogavam lá. Começaram levar sobrinhos, filhos de amigos. De repente tinham 20 crianças fazendo aula duas vezes por semana. Os professores sem remuneração nenhuma. Aí vimos que era isso mesmo que tínhamos que fazer em Japeri. Dar uma oportunidade àquelas crianças carentes de lazer e de tudo. No final de 2006, oficializamos a escola de golfe, contratamos aqueles ex-caddies que já estavam dando aulas, Jair Medeiros e Herpídio Pires. Formalizamos a escolinha e abrimos aulas de terças às sextas.

Quais são as atividades dessas crianças no campo de Japeri?

As crianças permanecem no campo de Japeri por meio período, duas vezes por semana. Eles fazem aulas de golfe, de educação física. Fornecemos um lanche saudável, uniformes, equipamentos, cesta básica, assistência odontológica, passeios e participação em campeonatos.

Quantas crianças participam deste projeto?

Já estamos com 92 crianças. Com esta quantidade de crianças já estamos fazendo diferença naquela comunidade. O golfe é um esporte que tem uma tradição e uma etiqueta que deve ser seguida por todos os jogadores: como respeitar o adversário; arrumar e cuidar do campo depois que joga; não sujar o campo; cumprimentar os mais velhos; fazer silêncio enquanto o adversário está jogando… além de exigir concentração e disciplina. As crianças assimilam rápido, porque gostam de jogar, e este respeito e educação acabam sendo transferidos para sua vida fora do golfe.

‘Sonhar é possível. E se sair um campeão de Japeri, maravilha. O golfe brasileiro agradece – podemos ter um novo Guga, como no tênis, porque não?

E o desempenho destas crianças no golfe, como é?

Tem um grupo de 18 crianças, destas 92, que estão jogando muito bem. O Anderson Nunes terminou o ano em quarto lugar no ranking nacional para crianças de 12 a 13 anos. Em 2007, ele terminou em primeiro no ranking de crianças até 11 anos. A Milene Ribeiro terminou em terceiro no ranking até 13 anos. O Breno Domingos terminou o ano em terceiro no ranking. São muito bons resultados para pouco tempo de aula e poucos recursos.

Dois meninos de Japeri vão fazer um curso de golfe nos Estados Unidos. Como aconteceu isso?

A CBG tem um acordo com a academia de golfe de David Leadbetter, em Tampa, Flórida. Esta academia oferece cinco vagas para golfistas juvenis do Brasil. O aluno de Japeri, Anderson Nunes, ganhou porque foi o primeiro no ranking, em 2007, na categoria 11 anos. O Rafael Becker, de São Paulo, ganhou na categoria dele, mas como ele já está em outra escola, fez questão de doar sua vaga para um menino de Japeri. Então, foi o Cristian Barcelos, que no momento é um dos nossos melhores jogadores e ainda é jovem. Eles vão para os EUA agora em laneiro. E lá, eles costumam premiar os alunos com potencial, com uma bolsa de estudos tanto para o golfe quanto para a escola. Você já pensou se um menino destes ganha uma bolsa para permanecer nos EUA, estudando e se especializando no golfe?

Até outro dia eles não sabiam o que era uma identidade. Agora já tem passaporte, com visto americano, que é difícil de conseguir. Eles não tinham perspectiva nenhuma, e o esporte está ampliando o horizonte destes meninos.

Vocês exigem que eles estudem para cursar as aulas de golfe?

Sim. Este é o objetivo mais importante da escola de golfe. O aluno tem que freqüentar a escola de ensino fundamental, não ter faltas e ter boas notas para ter acesso às aulas de golfe. Vamos às escolas uma vez por mês, temos avaliações das professoras e diretoras. As escolas estão nos apoiando, porque eles têm que completar o segundo grau para melhorar a vida deles, ter perspectivas de empregos melhores, mais qualificados. Nesta região, são poucos os que chegam ao segundo grau. Há uma evasão muito grande. A escola de golfe de Japeri e a vontade de ficar no esporte estão fazendo com que estas crianças continuem bem na escola.

Este é objetivo da escola de golfe. É melhorar a vida destas crianças. Sonhar é possível. E se sair um campeão de Japeri, maravilha. O golfe brasileiro agradece – podemos ter um novo Guga, como no tênis, porque não?

Com quais recursos a escola de golfe se mantém?

Este ano conseguimos um patrocínio do Oi Futuro, através da Lei de Incentivo ao Esporte do Ministério dos Esportes. Os recursos do patrocínio são usados para pagar 12 empregados com carteira assinada, entre eles os professores de golfe e ginástica; para os uniformes, a alimentação, cuidados odontológicos. Também recebemos doações de pessoas físicas: equipamentos de golfe usados ou não, além de algumas contribuições em dinheiro que são usadas para os passeios, participação em torneio, viagens de competição.

Soube que, além das preocupações com o patrocínio do projeto, Japeri está enfrentando problemas com as obras do PAC (Plano de Aceleração do Crescimento). Que problemas são esses?

É outra luta que estamos enfrentando. Uma estrada que está no PAC do Governo Federal está projetada para passar em cima de boa parte do Campo de Japeri. Com ajuda de amigos da área de engenharia de estradas, elaboramos um projeto alternativo para um desvio na estrada, mas as autoridades do Departamento de Estradas estão um pouco resistentes às mudanças que preservem o campo de Japeri.

Uma obra não pode prejudicar toda uma comunidade, menos ainda cerca de 100 crianças carentes. É mais uma luta para 2009.

‘Em janeiro, assumo a vice-presidência técnica da Confederação Brasileira de Golfe. Vou me dedicar a fortalecer o golfe juvenil brasileiro, que está um pouco carente de jogadores

Quais são os projetos para a escola de golfe e no seu novo cargo na CBG para 2009?

Em janeiro, assumo a vice-presidência técnica da Confederação Brasileira de Golfe. Vou me dedicar a fortalecer o golfe juvenil brasileiro, que está um pouco carente de jogadores. É um trabalho de longo prazo.

Em Japeri, estamos querendo ampliar o número de crianças na escola de golfe. Enviamos o projeto para o Ministério dos Esportes em outubro para ser aprovado na Lei de Incentivo ao Esporte, mas caiu na burocracia de Brasília e ainda não foi aprovado. Temos a carta de intenção da Oi Futuro com a renovação do patrocínio, mas o projeto precisa ser aprovado até o final do ano, condição da patrocinadora, porque a verba do patrocínio está disponível para este ano. Se não for aprovada em tempo, perderemos o patrocínio.

Hoje, na data da publicação da entrevista, recebemos um e-mail de Vicky, dando notícias da tramitação do projeto Japeri no Ministério dos Esportes:

"Infelizmente, devido à burocracia, não conseguimos ter nosso projeto aprovado em tempo. Tínhamos carta de intenção de patrocínio da Oi Futuro no valor de R$390.000,00, que foi anexado ao projeto, mas isto não adiantou. Estamos com toda a documentação em dia, temos 12 empregados com carteira assinada, temos 92 crianças carentes (do município mais carente do estado do Rio) desfrutando de um esporte saudável com passeios, campeonatos, cesta básica, tratamento dentário etc, e talvez sejamos forçados a terminar tudo. Estou desolada! Como que este país tem tanta burocracia?".

Nota da colunista: O projeto da escola de golfe de Japeri tem emocionado a todos nos eventos e congressos em que tem sido apresentado no Brasil. Em abril de 2009 será apresentado no Congresso Internacional de Golfe, em St. Andrews, na Escócia, berço do golfe. Estarão presentes neste congresso todas as autoridades do esporte.

Explicadinho:

Caddies – São os carregadores de tacos. Geralmente eles conhecem muito o campo onde trabalham e dão dicas para o jogador das distâncias, dos obstáculos existentes no campo, da direção em que a bola deve ser jogada.

Grande jogada de marketing

by Redação em 14 de dezembro de 2008 | 21:00

Mal o São Paulo e sua torcida iniciaram a comemoração do hexacampeonato brasileiro, o Corinthians já roubou a cena ao contratar Ronaldo Fenômeno para a temporada de 2009. Imediatamente, a mídia se voltou para o "Timão" e a conquista do Tricolor paulista ficou em segundo plano. Não se fala em outra coisa: Ronaldo vai voltar a jogar bem? Vai emagrecer? Como o Corinthians irá pagá-lo?

A torcida do Flamengo ficou bastante triste com a escolha de Ronaldo. Todas as vezes em que foi entrevistado, enquanto se recuperava no Flamengo, falava de sua preferência pela equipe rubro-negra caso decidisse ficar no Brasil. Num programa de televisão, ele chegou a afirmar e confirmar seu amor ao time da Gávea – declarações dadas três dias antes de seu procurador entrar em negociações com o Corinthians, conforme relatou Luiz Paulo Rosemberg, diretor de marketing do clube paulista, no dia da apresentação do Fenômeno no Parque São Jorge.

‘Que mania a que temos de achar que ainda há jogadores que amam suas camisas! Não existe mais amor no futebol

Ronaldo tem o direito de jogar onde quiser, é claro – mas que foi uma rasteira no clube do "coração", lá isto foi. Na verdade, Ronaldo preferiu o dinheiro. Pouca gente falou disto. O jornalista Renato Maurício Prado, em sua coluna "Pobre Menino Rico", foi perfeito ao traduzir o que realmente aconteceu. Falou mais alto "a força da grana que destrói coisas belas", como diz Caetano Veloso na música "Sampa". Nada contra. Mas será que um cara que já tem uma fortuna calculada em 100 milhões de euros precisaria ir para São Paulo e deixar o Rio, onde nasceu? Voltar para o Brasil e ficar longe da cidade onde vive seus pais, sua família, seus amigos, seu clube do "coração" e toda a torcida rubro-negra que o adora?

Dá até para entender Ronaldo: deve, lá no seu íntimo de menino pobre que foi, temer por deixar de ganhar no nível que sempre ganhou, temer pela perda de dinheiro.

Não se engane: Ronaldo é jogador da nova geração. Jogador que pensa na "grana", sem se interessar na cor da camisa. Ele é extremamente profissional e, com certeza, se suas lesões deixarem e se conseguir o condicionamento necessário, dará grandes alegrias à fiel torcida corintiana. E se for muito bem, não hesitará em deixar o timão e retornar para um bom time europeu.

Que mania a que temos de achar que ainda há jogadores que amam suas camisas! Não existe mais amor no futebol. Os dirigentes amadores têm que se acostumar com isso e entregar a administração dos clubes a executivos preparados, que agilizem as decisões dentro da realidade estabelecida hoje.

É evidente que os maiores culpados pela perda do Ronaldo são os diretores do Flamengo. Aliás, a lenta administração do rubro-negro, que vendeu todo o ataque do time no meio do campeonato, sem ter peças de reposição, perdendo a liderança e pontos importantes que contaram e muito para a perda da vaga na Liberadores. Ficaram esperando o quê? Ao invés de viabilizar a contratação do fenômeno, o presidente Márcio Braga estava ocupado em fazer bravatas sobre festas de comemoração de título do Brasileiro. A verdade é que não tiveram capacidade de planejar uma proposta para oferecer ao jogador. Hoje, os torcedores do "mais querido" estão lamentando a perda de Ronaldo, a perda da vaga na Libertadores e, ainda por cima, a contratação do técnico Cuca para a próxima temporada.

Deu a lógica

by Redação em 7 de dezembro de 2008 | 21:00

Finalmente temos um campeão, mas, no final, deu a lógica. O São Paulo conquistou o título merecidamente, chegando três pontos à frente do Grêmio, segundo colocado. Foi o campeonato mais disputado da era dos pontos corridos – desde 2003.

A reação do São Paulo no segundo turno foi algo impressionante: tirou a diferença de onze pontos do Grêmio, perdendo somente uma partida para o próprio tricolor gaúcho em Porto Alegre. Terminou o campeonato invicto em 18 partidas. Se a campanha deste ano não permitiu ao São Paulo ganhar com relativa folga, mostrou que o clube, mesmo com um time não muito melhor que os adversários, sobressaiu-se, contando com a estrutura e com o melhor técnico do Brasil dos últimos tempos, o Muricy.

‘O que mais vai contar para se concorrer a um título no Brasileiro será a capacidade de organização e o profissionalismo na administração de todos os setores

Orgulhamo-nos em dizer que o campeonato brasileiro é o mais difícil do mundo, que temos sempre mais de dez candidatos ao título. Os campeonatos mais ricos do mundo – Inglês, Espanhol e Italiano – não tem mais de três times que possam conquistar o título. São campeonatos quase sem graça, porque, tirando as partidas entre os reais candidatos, não se tem muita surpresa nos demais jogos. O Brasileiro, não: neste ano, 14 times ex-campeões disputaram o título. Foram vários clássicos, em todos os finais de semana.

Mas, com a supremacia do São Paulo, tricampeão seguido nesta fórmula de pontos corridos, parece que algo está mudando no futebol brasileiro: os times mais organizados, mais criteriosos nas contratações e mais estruturados estão se mantendo na disputa. Os que possuem estádios e centros de treinamento conseguem melhores resultados. Os demais, que não priorizam o planejamento, têm se mantido apenas na disputa de uma vaga na Copa Sul-Americana ou, quiçá, de uma vaga na Libertadores.

Vejamos a classificação dos quatro primeiros deste ano – São Paulo, Grêmio, Cruzeiro e Palmeiras. Todos têm estádio, centros de treinamento. Todos os quatro estão com seus problemas financeiros resolvidos ou encaminhados, negociados. A administração de cada um, mesmo com variações de clube para clube, tem características empresariais e ações de marketing similares às grandes empresas privadas do país. Aí está o ponto: alguns clubes e seus dirigentes ainda não se deram conta, mas o que mais vai contar para se concorrer a um título no Brasileiro será a capacidade de organização e o profissionalismo na administração de todos os setores. Parabéns ao São Paulo pelo hexacampeonato, e pelo tricampeonato consecutivo.

Primeiro campeão brasileiro da Sul-Americana

Outro clube que está entre os que priorizam a administração profissional é o Internacional. É o clube brasileiro que mais se dedicou ao marketing de relacionamento, aproveitando seu estádio de maneira espetacular. Hoje, já tem 77 mil sócios pagantes mantendo uma arrecadação fixa ao clube. O Inter não chegou à vaga na Libertadores por vários motivos, entre eles as inúmeras modificações que o time sofreu, inclusive do técnico, em virtude das janelas árabe e européia.

No entanto, no momento em que identificou a dificuldade de chegar à Libertadores, o Colorado vislumbrou o grande negócio que seria ganhar a Copa Sul-Americana, nunca conquistada por um time brasileiro. Apostou todas as fichas nesta copa: eliminou o Grêmio, Arsenal (Argentina), U. Católica (Chile), Boca Juniors (Argentina), Chivas (México), e disputou uma final emocionante contra o Estudiantes (Argentina). Parabéns ao futebol gaúcho. Um título com o Inter e uma vaga na Libertadores com o Grêmio.

Queria não mencionar, mas me sinto obrigada. O futebol é um assunto que chama a atenção de todos no Brasil. As crianças, hoje tanto meninos quanto meninas, desde pequenas se ligam no futebol, nos seus times. Os jogadores e técnicos são ídolos da garotada.

Esta última semana em particular foi triste para as crianças e para todos que gostam de boas maneiras, de educação, do português bem falado, seja de maneira simples ou de maneira rebuscada.

‘O Muricy é o melhor técnico do Brasil, mas tem que ser informado pela direção do São Paulo que dar entrevistas faz parte do seu cargo

Começou com a triste entrevista do técnico Muricy, depois do jogo contra o Fluminense. Foi de uma grosseria, de uma arrogância com uma repórter, sem precedentes. Eu não sei se ele usou de sua posição de evidência, de sua posição financeira (ganha por mês mais que todos aqueles quase 50 repórteres juntos, que estavam naquela coletiva), ou se foi simplesmente machismo, porque a pergunta partiu de uma mulher. Deprimente…

Tanto que todos os jornalistas dos programas de esporte resolveram criticar e não achar "engraçadinho" o mau humor deste profissional. O Muricy é o melhor técnico do Brasil, mas tem que ser informado pela direção do São Paulo que dar entrevistas faz parte do seu cargo. Como que o São Paulo quer ser o time de maior torcida do Brasil com seu mais importante funcionário atualmente tratando mal a imprensa, e, conseqüentemente, quem está assistindo? Sei que esta semana ele pediu desculpas, mas deveria se desculpar diretamente àquela moça na próxima coletiva.

O grande mestre e jornalista Fernando Calazans criticou, no dia seguinte à conquista da Sul-Americana, o técnico do Inter, Tite, por usar palavras como "enfrentamento" como sinônimo de jogo. Disse que era pernóstico etc. Meu amado mestre! Longe de contrariá-lo, mas devo informá-lo que prefiro o Tite, o Celso Roth, o Parreira, até o Caio Júnior (quando diz que está tudo bem enquanto está tudo errado no Flamengo), do que aberrações como o "com nós" do Dunga. Ele pode ser uma pessoa simples, do interior, mas pode aprender a falar, como está aprendendo a ser técnico.

Essas pessoas não têm noção da posição que ocupam. São inerentes ao cargo as entrevistas, o público, a mídia, as perguntas sem graça, bobas, sem necessidade e repetitivas. Os jornalistas também erram e incomodam. Foi triste esta semana. Até o presidente Lula tem que saber: se as crianças não ligam para política, elas se ligam nele, por sua trajetória e popularidade. Coitado do nosso "português ruim", como diria Roberto Carlos.

Indefinido até o fim

by Redação em 1 de dezembro de 2008 | 21:00

É o campeonato mais disputado dos últimos tempos. Se tecnicamente não é lá essas coisas, em emoção testou e ainda está testando muitos corações.

No Morumbi, a torcida do São Paulo saiu decepcionada. A festa estava pronta para a comemoração do tricampeonato seguido e do hexa-brasileiro, mas se esqueceram de combinar com o Fluminense. O "pó de arroz" jogou muito bem, dominou o meio de campo do São Paulo e só não ganhou porque o juiz não quis dar um pênalti. Como sempre, mais uma vez, o São Paulo foi favorecido pela arbitragem.

‘O Goiás está armando a vingança: como tem direito de fixar os preços dos ingressos, está pensando em cobrar R$ 200 para quem levar um quilo de alimento para as vítimas de Santa Catarina e R$ 400,00 sem a doação

Também está sendo favorecido pela CBF (Confederação Brasileira de Futebol), quando marca o jogo final contra o Goiás, no Gama, no Distrito Federal (o Goiás foi punido e não pode jogar no Serra Dourada). Na periferia de Brasília, é evidente que o São Paulo terá a maior torcida – ou quase toda torcida. Claro, a CBF está defendendo seus interesses políticos, mas indiretamente beneficia o tricolor paulista. O Goiás está armando a vingança: como tem direito de fixar os preços dos ingressos, está pensando em cobrar R$ 200 para quem levar um quilo de alimento para as vítimas de Santa Catarina e R$ 400,00 sem a doação. É ridículo isto.

Ao Grêmio, só resta confiar no Goiás ou confiar uma boa "mala branca" ao time goiano. Os gremistas dizem que não costumam mandar mala branca, mas os colorados já estão dizendo que o Grêmio está vendendo o Estádio Olímpico para mandar um "malão" para os jogadores do Goiás…

Enquanto isto, na turma do rebaixamento, Ipatinga e Portuguesa já estão rebaixados. Restam duas vagas e "candidatam-se" a elas Vasco, Figueirense, Náutico e Atlético Paranaense. A situação mais tranqüila é a do Náutico, que pode fazer um jogo "de compadre" com o Santos. Vasco, Figueirense e Atlético Paranaense, porém, não dependem somente dos seus resultados: precisam contar com o tropeço dos outros.

Quanto às vagas da Libertadores, São Paulo e Grêmio já estão matematicamente classificados. Palmeiras, Cruzeiro e Flamengo disputam as duas últimas vagas. O Flamengo, depois do fiasco no Maracanã (empatou em 3 a 3 com o Goiás, depois de estar vencendo por 3 a 0 no primeiro tempo), está com chances remotas. Só com um desastre, porque o Cruzeiro joga com a rebaixada Portuguesa em casa e o Palmeiras joga em casa contra o Botafogo, que está na turma de quem não quer "nada com nada" no campeonato – e naturalmente não vai querer fazer "nada" para favorecer seu arquiinimigo atual, o Flamengo. Ao Flamengo, resta somente torcer para que a Federação Sul-Americana de Futebol dê uma das vagas da Libertadores do Peru para o Brasil, porque, pela lógica técnica, a CBF dará esta vaga ao quinto colocado do Brasileirão.

Muitas emoções nos aguardam no próximo final de semana.

Mala branca – É uma premiação, um incentivo dado por um clube necessitado de um resultado positivo de outro clube que não tem mais interesse na disputa. Exemplo: para o Grêmio ser campeão, além de vencer seu jogo, precisa que o Goiás ganhe do São Paulo. Claro, pressupõe-se que todo time entre em campo para vencer, mas em final de temporada, em que o resultado nada irá interferir no resultado da sua participação no campeonato, o Goiás, se for incentivado por um bom "bicho" do Grêmio, poderá se esforçar mais contra o São Paulo.

A mala branca sempre foi encarada como um mistério no futebol brasileiro. Nunca ninguém confirmava, porque é um procedimento totalmente antiético. Mas como os valores estão totalmente invertidos hoje, e o que vale é "se dar bem", e como muitas vezes os jogadores estão com os salários atrasados, muitos boleiros, dirigentes, esta última semana, se manifestaram a favor da mala branca e confessaram que receberam.

O melhor depoimento a respeito foi do ex-jogador e atual comentarista Caio. Num programa de TV, ele disse que em pelo menos duas vezes recebeu a sua parte na mala branca. Na primeira vez, era muito jovem e nem sabia o que estava acontecendo. Só se deu conta quando o capitão do time lhe deu a sua parte. Na segunda, ele já sabia e recebeu naturalmente. Caio afirmou que muitas vezes isso rola somente entre os jogadores, mas, em outras, a mala branca é combinada entre os dirigentes, que avisam sobre o prêmio que está sendo oferecido. Muitos também encaram esta premiação externa como mais um "bicho".

‘Até em Copa do Mundo já teve jogo de compadre – o problema é que o resultado de empate sempre prejudica um terceiro time

Vale dizer que mala branca recebe esta denominação porque existe também a mala preta, quando se recebe incentivo para perder, o que é considerado crime. Aliás, crime também é a denominação, porque tem uma conotação bastante racista, mas que é usada desde os primórdios do futebol e se aceita falar pela antigüidade do termo.

Bicho – No futebol brasileiro e no internacional, os jogadores, além dos seus salários, recebem por jogo, uma premiação por vitória e até por empate, chamada de "bicho". Alguns recebem por metas e grandes premiações por títulos.

Jogo de compadre – É quando dois times precisam de um empate e combinam não atacar. Muitas vezes o acordo é feito entre as direções dos clubes ou são combinadas entre os jogadores, dentro do campo. Até em Copa do Mundo já teve jogo de compadre – o problema é que o resultado de empate sempre prejudica um terceiro time. O jogo de compadre é mais antiético que a mala branca.

Vagas do Peru – O Peru foi punido pela FIFA (Federação Internacional de Futebol) e excluído de todas as competições internacionais, como Libertadores e Eliminatórias para a Copa do Mundo, porque o governo federal do país interveio na Federação de Futebol do Peru e demitiu seu presidente. A FIFA não admite interferência de governos, justiça etc. No futebol, ela é soberana.



perfil

Isabel Kieling é gaúcha, moradora apaixonada do Rio de Janeiro, e jornalista de formação. E, contrariando o senso comum, entende muito de futebol. Por isso, inaugura a nossa mesa redonda virtual para comentar os melhores lances dos esportes e dos atletas – claro. Mas ela também bate a sua bolinha – só que a de golfe! Isabel também é golfista, e atualmente luta para sair das últimas posições do ranking.