VIcky Whyte é uma mulher forte e determinada, que conseguiu chegar à administração do golfe brasileiro, cargo em geral ocupado pelos homens. Atualmente luta para manter um lindo projeto de inclusão socia, por meio do golfe, para crianças carentes de Japeri. A Presidente da Federação de Golfe do Rio de Janeiro, Vicky Whyte, poderia constar de qualquer uma destas listas de pessoas que fazem a diferença ou que são destaques do ano. Só não é, porque, talvez, ela ou o esporte que representa não sejam tão midiáticos.
Vicky me recebeu na Gávea Golfe Clube para esta entrevista, com um olhar apreensivo. Aguardava ansiosamente que o Projeto Japeri, que beneficia crianças carentes, fosse aprovado em Brasília para usufruir da lei da incentivo ao esporte do Ministério dos Esportes. Seus olhos brilham quando fala, com um forte sotaque inglês do "campo dos sonhos", como é apelidado, entre os golfistas, o campo de golfe de Japeri.
VOCÊ É BRASILEIRA?
Sim. Nasci aqui, no Rio, sou filha de pai americano e mãe inglesa. Vivi aqui até os 12 anos, quando fui estudar numa escola interna na Inglaterra. Depois fiz faculdade nos Estados Unidos, mas preferi voltar para o Brasil, apesar ter também cidadania americana. Casei. Tive dois filhos aqui. Gosto muito do Rio de Janeiro, por isso optei morar no Brasil. Tenho família e muitos amigos aqui.
DESDE QUANDO VOCÊ JOGA GOLFE?
Desde criança. Meu pai, Seymour Grant Marvin, foi fundador da Associação Brasileira de Golfe que depois virou a Confederação Brasileira de Golfe. O pai dele, meu avô, foi um dos fundadores aqui do Gávea Golfe Clube e do Itanhagá Golfe Clube. Meu pai ensinou a mim e minhas irmãs a jogar golfe desde cedo. Minhas irmãs pararam, mas eu continuei.
SABEMOS QUE O GOLFE É UM ESPORTE COMANDADO PELOS HOMENS, COMO VOCÊ CHEGOU AOS CARGOS ADMINISTRATIVOS DO GOLFE BRASILEIRO E INTERNACIONAL?
Sempre fui boa jogadora. Joguei pelo Brasil vários campeonatos internacionais. Em 1993, a capitã da equipe juvenil feminina, que ia levar a equipe brasileira para o Sul-Americano em Montevidéu, na última hora não pode ir. A CBG (Confederação Brasileira de Golfe) teve que substitui-la e me chamou para ser a capitã. E a equipe foi muito bem. Ficamos em segundo lugar. E aí, não parei mais. Fui capitã da equipe juvenil, adulto em vários campeonatos. Como fui a vários mundiais, fui indicada pelos argentinos para o cargo de Presidente Feminino da Federação Internacional de Golfe de 2000 a 2006.Todas as minhas viagens como capitã me levaram a estes cargos. Na Federação de Golfe do Rio de Janeiro, estou no terceiro mandato. A partir de janeiro, assumo o cargo de Vice Presidente Técnico da Confederação Brasileira de Golfe.
COMO SURGIU O CAMPO DE JAPERI?
Alguns caddies aqui do Gávea moram em Japeri. E, como Japeri não tem opção de lazer, resolveram improvisar numa fazenda abandonada três buracos para se divertirem. O prefeito de Japeri na época, Carlos de Morais, ficou sabendo destas atividades e achou interessante ampliar isto. Procurou a Federação com a idéia de transformar o campinho dos caddies em um campo de golfe mesmo. Compramos a idéia, pensando na popularização do esporte. Arrumamos patrocínio e construímos um campo de nove buracos que foi inaugurado em 2006.
COMO TIVERAM A IDÉIA DE FAZER A ESCOLA DE GOLFE?
A escolinha de golfe não foi idéia minha. Surgiu espontaneamente com dois ou três ex- caddies que jogavam lá. Começaram levar sobrinhos, filhos de amigos. De repente tinham 20 crianças fazendo aula duas vezes por semana. Os professores sem remuneração nenhuma. Aí vimos que era isso mesmo que tínhamos que fazer em Japeri. Dar uma oportunidade àquelas crianças carentes de lazer e de tudo. No final de 2006, oficializamos a escola de golfe, contratamos aqueles ex-caddies que já estavam dando aulas, Jair Medeiros e Herpídio Pires. Formalizamos a escolinha e abrimos aulas de terças às sextas.
Quais são as atividades dessas crianças no campo de Japeri?
As crianças permanecem no campo de Japeri por meio período, duas vezes por semana. Eles fazem aulas de golfe, de educação física. Fornecemos um lanche saudável, uniformes, equipamentos, cesta básica, assistência odontológica, passeios e participação em campeonatos.
Quantas crianças participam deste projeto?
Já estamos com 92 crianças. Com esta quantidade de crianças já estamos fazendo diferença naquela comunidade. O golfe é um esporte que tem uma tradição e uma etiqueta que deve ser seguida por todos os jogadores: como respeitar o adversário; arrumar e cuidar do campo depois que joga; não sujar o campo; cumprimentar os mais velhos; fazer silêncio enquanto o adversário está jogando… além de exigir concentração e disciplina. As crianças assimilam rápido, porque gostam de jogar, e este respeito e educação acabam sendo transferidos para sua vida fora do golfe.
‘Sonhar é possível. E se sair um campeão de Japeri, maravilha. O golfe brasileiro agradece – podemos ter um novo Guga, como no tênis, porque não?
E o desempenho destas crianças no golfe, como é?
Tem um grupo de 18 crianças, destas 92, que estão jogando muito bem. O Anderson Nunes terminou o ano em quarto lugar no ranking nacional para crianças de 12 a 13 anos. Em 2007, ele terminou em primeiro no ranking de crianças até 11 anos. A Milene Ribeiro terminou em terceiro no ranking até 13 anos. O Breno Domingos terminou o ano em terceiro no ranking. São muito bons resultados para pouco tempo de aula e poucos recursos.
Dois meninos de Japeri vão fazer um curso de golfe nos Estados Unidos. Como aconteceu isso?
A CBG tem um acordo com a academia de golfe de David Leadbetter, em Tampa, Flórida. Esta academia oferece cinco vagas para golfistas juvenis do Brasil. O aluno de Japeri, Anderson Nunes, ganhou porque foi o primeiro no ranking, em 2007, na categoria 11 anos. O Rafael Becker, de São Paulo, ganhou na categoria dele, mas como ele já está em outra escola, fez questão de doar sua vaga para um menino de Japeri. Então, foi o Cristian Barcelos, que no momento é um dos nossos melhores jogadores e ainda é jovem. Eles vão para os EUA agora em laneiro. E lá, eles costumam premiar os alunos com potencial, com uma bolsa de estudos tanto para o golfe quanto para a escola. Você já pensou se um menino destes ganha uma bolsa para permanecer nos EUA, estudando e se especializando no golfe?
Até outro dia eles não sabiam o que era uma identidade. Agora já tem passaporte, com visto americano, que é difícil de conseguir. Eles não tinham perspectiva nenhuma, e o esporte está ampliando o horizonte destes meninos.
Vocês exigem que eles estudem para cursar as aulas de golfe?
Sim. Este é o objetivo mais importante da escola de golfe. O aluno tem que freqüentar a escola de ensino fundamental, não ter faltas e ter boas notas para ter acesso às aulas de golfe. Vamos às escolas uma vez por mês, temos avaliações das professoras e diretoras. As escolas estão nos apoiando, porque eles têm que completar o segundo grau para melhorar a vida deles, ter perspectivas de empregos melhores, mais qualificados. Nesta região, são poucos os que chegam ao segundo grau. Há uma evasão muito grande. A escola de golfe de Japeri e a vontade de ficar no esporte estão fazendo com que estas crianças continuem bem na escola.
Este é objetivo da escola de golfe. É melhorar a vida destas crianças. Sonhar é possível. E se sair um campeão de Japeri, maravilha. O golfe brasileiro agradece – podemos ter um novo Guga, como no tênis, porque não?
Com quais recursos a escola de golfe se mantém?
Este ano conseguimos um patrocínio do Oi Futuro, através da Lei de Incentivo ao Esporte do Ministério dos Esportes. Os recursos do patrocínio são usados para pagar 12 empregados com carteira assinada, entre eles os professores de golfe e ginástica; para os uniformes, a alimentação, cuidados odontológicos. Também recebemos doações de pessoas físicas: equipamentos de golfe usados ou não, além de algumas contribuições em dinheiro que são usadas para os passeios, participação em torneio, viagens de competição.
Soube que, além das preocupações com o patrocínio do projeto, Japeri está enfrentando problemas com as obras do PAC (Plano de Aceleração do Crescimento). Que problemas são esses?
É outra luta que estamos enfrentando. Uma estrada que está no PAC do Governo Federal está projetada para passar em cima de boa parte do Campo de Japeri. Com ajuda de amigos da área de engenharia de estradas, elaboramos um projeto alternativo para um desvio na estrada, mas as autoridades do Departamento de Estradas estão um pouco resistentes às mudanças que preservem o campo de Japeri.
Uma obra não pode prejudicar toda uma comunidade, menos ainda cerca de 100 crianças carentes. É mais uma luta para 2009.
‘Em janeiro, assumo a vice-presidência técnica da Confederação Brasileira de Golfe. Vou me dedicar a fortalecer o golfe juvenil brasileiro, que está um pouco carente de jogadores
Quais são os projetos para a escola de golfe e no seu novo cargo na CBG para 2009?
Em janeiro, assumo a vice-presidência técnica da Confederação Brasileira de Golfe. Vou me dedicar a fortalecer o golfe juvenil brasileiro, que está um pouco carente de jogadores. É um trabalho de longo prazo.
Em Japeri, estamos querendo ampliar o número de crianças na escola de golfe. Enviamos o projeto para o Ministério dos Esportes em outubro para ser aprovado na Lei de Incentivo ao Esporte, mas caiu na burocracia de Brasília e ainda não foi aprovado. Temos a carta de intenção da Oi Futuro com a renovação do patrocínio, mas o projeto precisa ser aprovado até o final do ano, condição da patrocinadora, porque a verba do patrocínio está disponível para este ano. Se não for aprovada em tempo, perderemos o patrocínio.
Hoje, na data da publicação da entrevista, recebemos um e-mail de Vicky, dando notícias da tramitação do projeto Japeri no Ministério dos Esportes:
"Infelizmente, devido à burocracia, não conseguimos ter nosso projeto aprovado em tempo. Tínhamos carta de intenção de patrocínio da Oi Futuro no valor de R$390.000,00, que foi anexado ao projeto, mas isto não adiantou. Estamos com toda a documentação em dia, temos 12 empregados com carteira assinada, temos 92 crianças carentes (do município mais carente do estado do Rio) desfrutando de um esporte saudável com passeios, campeonatos, cesta básica, tratamento dentário etc, e talvez sejamos forçados a terminar tudo. Estou desolada! Como que este país tem tanta burocracia?".
Nota da colunista: O projeto da escola de golfe de Japeri tem emocionado a todos nos eventos e congressos em que tem sido apresentado no Brasil. Em abril de 2009 será apresentado no Congresso Internacional de Golfe, em St. Andrews, na Escócia, berço do golfe. Estarão presentes neste congresso todas as autoridades do esporte.
Explicadinho:
Caddies – São os carregadores de tacos. Geralmente eles conhecem muito o campo onde trabalham e dão dicas para o jogador das distâncias, dos obstáculos existentes no campo, da direção em que a bola deve ser jogada.