» 2008 » agostoIsabel Kieling

As salvadoras da pátria

by Redação em 25 de agosto de 2008 | 21:00

A medalha de ouro do vôlei feminino foi redentora. Já tinham acabado com o fantasma da semifinal e o título só veio confirmar a campanha espetacular dessa seleção: oito jogos, 25 sets e apenas um perdido. Set perdido na final, que sempre é mais desgastante e conta muito o emocional. Os jogos foram emocionantes e nos encheram de orgulho.

Essas meninas guerreiras, que não se abateram quando perderam o segundo set, voltaram para a quadra com garra, sem medo, e derrotaram as americanas com muita raça. Lavaram a alma de todas as brasileiras que se sentem diminuídas. Até no vôlei o time masculino era mais valorizado – claro que pelas vitórias e títulos.

‘Assim foi com Maureen Maggi em sua carreira e em sua volta por cima. Lembro de sentir muita pena dela quando ocorreu o caso de doping, que causou sua suspensão por dois anos

Nas viagens, a CBV (Confederação Brasileira de Vôlei) dá passagem de primeira classe para o masculino, o feminino tem que enfrentar a classe econômica. A premiação pelo ouro para o masculino já estava determinada antes dos jogos, a do time feminino foi acertada depois da medalha.

O time feminino, desde o trauma de Atenas (o Brasil vencia a Rússia nas semifinais, no quarto set, por 24 a 19, com cinco chances de fechar a partida, perdeu e acabou sendo derrotado no quinto set.), carregava a fama de amarelão. "Amarelão sim, mas da medalha de ouro", como disse o técnico Zé Roberto ao final do jogo. Zé Roberto é o único técnico do mundo a ser Campeão Olímpico Masculino em 1992 e Campeão pela Seleção Feminina agora em 2008.

A GUERREIRA SOLITÁRIA

O atleta do esporte coletivo divide as vitórias e derrotas com seus companheiros. Mas o atleta de esporte individual perde e ganha sozinho, conta apenas com o técnico, que, no caso do atletismo, fica na arquibancada assistindo, sem poder atuar muito na hora da disputa.

Assim foi com Maureen Maggi em sua carreira e em sua volta por cima. Lembro de sentir muita pena dela quando ocorreu o caso de doping, que causou sua suspensão por dois anos. Os sentimentos eram de crença na sua inocência, mas os resultados dos exames comprovavam a culpa. Quase desistiu, mas voltou com uma garra impressionante para conquistar o ouro no salto em distância.

Nossa primeira medalha de ouro feminina em esporte individual, entre todas as modalidades. Nossa primeira medalha feminina individual no atletismo. Maureen fez história. Maureen mostrou ao mundo a garra, a força da mulher brasileira. Pequim-2008 foi as Olimpíadas das Mulheres, não somente para as brasileiras. Até para a China, tão discriminadora com suas mulheres, onde há relatos de sacrifício dos bebês de sexo feminino, em razão da lei do filho único, a maioria das medalhas de ouro, que deram a vitória sobre os Estados Unidos, foi conquistadas pelas mulheres chinesas.

É muito engraçado como as pessoas manipulam os números ao seu favor. Um exemplo bom disso são setores da imprensa americana que dão vitória aos Estados Unidos na conquista de medalhas em Pequim-2008. Em todas as Olimpíadas anteriores, a classificação no quadro de medalhas era aferida pelo número de medalhas de ouro. Como os Estados Unidos perderam feio para China na contagem da medalha de ouro, a imprensa americana resolveu contar pelo número total de medalhas. Assim também vejo pelos jornais de hoje que o Presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, Carlos Nuzman, usou essa estranha contagem americana para afirmar que o Brasil teve uma participação magnífica em Pequim, melhor que Atenas, quando tivemos cinco medalhas de ouro. Preferiu argumentar suas afirmações na maior participação das mulheres e na primeira medalha de ouro individual feminina, a da Maureen Maggi.

‘A verba da Lei Piva é repassada diretamente para o COB, que retém 50% e repassa o restante para as Confederações e Federações

Outros números também foram divulgados: o Governo Federal repassou para o COB e Confederações, nesses quatro anos de preparação para Pequim, cerca de R$ 690 milhões. Dinheiro vindo do patrocínio de empresas estatais e da Lei Piva. A verba da Lei Piva é repassada diretamente para o COB, que retém 50% e repassa o restante para as Confederações e Federações. O COB gasta na sua administração dez vezes mais o que aplica na preparação técnica.

Comparada a verba americana para preparação olímpica a nossa é pequena, mas para o Brasil é muito dinheiro. Já falam em CPI das contas de Pequim. O dinheiro do esporte está se perdendo pelo caminho. Aliás, para quem quiser ver para aonde vai o dinheiro é só passar pelas fotos dos jornais dos últimos quinze dias. Tanto político, tanto cartola nas platéias de Pequim… Dizem que a quantidade de "gente nada a ver" com Olimpíadas, em Pequim, viajando a custa do dinheiro do esporte, era maior que a delegação de atletas brasileiros.

EXPLICADINHO

LEI PIVA

Lei sancionada pelo Presidente Fernando Henrique Cardoso, em 2001, que destina 2% da arrecadação bruta de todas as loterias do Brasil para desenvolvimento do esporte no país. Recebeu o nome de seu autor, o ex-deputado federal Pedro Piva, do PSDB-SP. A verba é repassada ao COB para distribuição entre as confederações de todas as modalidades esportivas. Não se tem conhecimento dos critérios usados pelo COB na divisão entre as modalidades esportivas.

O Taekwondo fez uma medalha de bronze com a Natália Falavigna e recebe menos de 1%. Outras Confederações que nem se classificaram para Pequim recebem muito mais. É o caso da Confederação de Basquete, a três Olimpíadas que o basquete masculino não se classifica e o feminino teve uma partição muito ruim em Pequim.

Complexo de vira-lata?

by Redação em 18 de agosto de 2008 | 21:00

São inacreditáveis essas pesquisas na internet sobre o desempenho dos atletas brasileiros nas Olimpíadas de Pequim. A que mais me indignou foi a que perguntava se estaríamos ou não decepcionados com Diego Hypólito…

Essa expectativa é criada pela mídia ufanista. Querem heróis de qualquer maneira, a qualquer custo. Quando não se confirmam as medalhas, voltam a falar do "complexo de vira-lata".

Deveríamos nos decepcionar, sim, mas com o governo que não tem nenhuma política de esporte para o país. Se há algumas iniciativas, essas são pulverizadas. Outro dia me disseram que nas escolas públicas do Rio de Janeiro a educação física é dada praticamente em sala de aula, por falta de material esportivo. O que é isto? É assim que o Rio de Janeiro quer sediar as Olimpíadas de 2016? Pois saibam que Diego Hypólito chegou como favorito a Pequim por obra e esforço dele próprio. Sempre me vem à cabeça uma entrevista do ginasta que me emocionou muito. Dizia que a falta de dinheiro para uma boa alimentação foi o maior obstáculo que tinha enfrentando para se tornar um atleta.

‘É assim que o Rio de Janeiro quer sediar as Olimpíadas de 2016? Pois saibam que Diego Hipólito chegou como favorito a Pequim por obra e esforço dele próprio

Ao contratar o técnico ucraniano Oleg Ostapenko, a Confederação Brasileira deu um salto. Formou um centro em Curitiba para as meninas e deu um impulso na ginástica feminina brasileira. A presidente da Confederação, após o término da provas em Pequim, considerou os resultados abaixo da expectativa. Mas também reclamava que, para formar a equipe, havia apenas nove ginastas, das quais são escolhidas cinco – enquanto que em outros países são centenas para selecionar e formar uma equipe olímpica. Falta a massificação do esporte através da escola. Quase não há ajuda oficial e, quando há, é passada diretamente para as confederações e federações. E nossa vocação brasileira para "cartolas" no esporte é grande. Muitos deles estão em Pequim por conta das verbas oficiais e patrocínios privados conseguidos através do esforço pessoal dos atletas.

Depois da conquista do ouro por César Cielo, vimos muita gente querendo se aproveitar do sucesso do nadador. Saibam que, quando ele resolveu treinar e estudar nos Estados Unidos, a Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos (CBDA) cortou o patrocínio do atleta com a desculpa de que ele teria que treinar no país. O patrocínio de Cielo foi um "Paitrocínio", segundo o pai do esportista, em entrevistas, depois da conquista da medalha de ouro pelo filho. O César-pai ofereceu a medalha de ouro a todos os pais de nadadores do Brasil, dizendo: "Essa medalha é nossa! Pelo esforço que fazemos para manter nossos filhos competindo. Tivemos que enfrentar de tudo aqui, em Pequim, para conseguirmos ingressos para assistir à final. Só o COB (Comitê Olímpico Brasileiro) que não entendeu que o esporte no Brasil, tirando o futebol, é familiar".

Thiago Pereira, ao dizer que o Cielo custeou seus treinamentos no exterior, dá a entender que ele ainda não pode fazer isso e que o grande problema de treinar no Brasil é a falta de competitividade. Há somente duas competições no país no ano. O que falta é um projeto de quatro anos e não de apenas seis meses antes das Olimpíadas, disse Thiago.

No Judô também tivemos alguns exemplos de falha na organização. Íamos ficar fora da categoria até 52 kg feminino, com o corte por lesão da atleta Erika Miranda. A Confederação de Judô não ia substituí-la. Precisou a imprensa pressionar para chamarem a reserva Andressa Fernandes na última hora. E o caso do judoca Eduardo Santos, que permaneceu 10 anos na faixa marrom porque não tinha R$ 1.500 para pagar a taxa do exame de faixa preta? Só passou à faixa preta porque se classificou para as Olimpíadas. Não podemos cobrar nada de nossos atletas. Temos que aplaudir o esforço. Temos que cobrar, sim, do governo, do Senhor Ministro dos Esportes. Precisamos de um projeto olímpico de oito anos, já que queremos as Olimpíadas de 2016. Um projeto que massifique o esporte. Com certeza, dentro de uma grande quantidade encontraremos os atletas de exceção, ganhadores de futuras medalhas.

Complexo de vira-lata – Expressão criada pelo famoso escritor e dramaturgo brasileiro Nelson Rodrigues, para explicar o motivo pelo qual a Seleção Brasileira de Futebol não ganhava dos europeus no futebol antes de 1958. Segundo ele, o complexo de vira-lata do brasileiro tem a ver com a baixa auto-estima. Era corrente na época – e, talvez, ainda seja – o pensamento de que tudo que era de fora era melhor e de que não poderíamos ser melhores em nada.

Quando o Brasil conquistou seu primeiro campeonato de futebol, em 1958, Nelson Rodrigues disse que o complexo teria acabado. Mas hoje, quando nossos atletas favoritos perdem, caem, não completam bem suas provas, por exemplo, sempre retornamos à discussão do complexo de vira-lata. Talvez tenhamos, sim, aquela baixa auto-estima na hora de definir, mas talvez seja mesmo a falta de preparo psicológico. Nossos atletas lutam muito para chegar a uma Olimpíada. Não têm patrocínio, não têm ajuda oficial. Para eles, muitas vezes, o esporte é uma forma de tirar a família da miséria e sair da exclusão, e então chegam psicologicamente abalados e acabam não confirmando suas marcas, tempos e atuações anteriores.

Pequim: judoca faz história

by Redação em 11 de agosto de 2008 | 21:00

A garra, a luta, a determinação da mulher brasileira mais uma vez sai da periferia para ganhar o mundo, e encher de orgulho os brasileiros. A judoca Ketleyn Quadros conquistou, em Pequim, a medalha de bronze da categoria peso leve, até 57 kg, do judô.

É a primeira medalha olímpica individual feminina do Brasil.

‘Na sua trajetória de muito sacrifício, contou com ajuda dos familiares e amigos para financiar seus quimonos, treinos e viagens

Com apenas 20 anos, a judoca Ketleyn Quadros é mais uma daquelas heroínas, como tantas brasileiras, que sai em busca de seus objetivos, apenas com esforço próprio. Filha de cabeleireiros de Ceilândia, cidade satélite de Brasília, Ketleyn, quando pequena, fugia das aulas de natação do SESI para assistir às aulas de judô. Na sua trajetória de muito sacrifício, contou com ajuda dos familiares e amigos para financiar seus quimonos, treinos e viagens. Há dois anos saiu de casa, em Brasília, para treinar no Minas Tênis Clube, onde encontrou infra-estrutura (alimentação, moradia, assistência médica e financiamento das viagens e treinos). Em Belo Horizonte, ela divide uma casa com outras atletas. Além do treinamento diário de cinco horas, ela cursa a faculdade de Educação Física.

O SEGREDO DO GRÊMIO

Muito se especula sobre as virtudes que levaram o Grêmio à liderança isolada do Campeonato Brasileiro. Um time que começou a temporada sem muitas perspectivas, eliminado precocemente do campeonato Gaúcho, chegou à frente dos demais no Campeonato Brasileiro. Com isso, fechou o primeiro turno da competição mais difícil do mundo, com uma confortável diferença de cinco pontos sobre o segundo colocado, o Cruzeiro. E para sua torcida, o melhor: quinze pontos na frente do arqui-rival, Inter, considerado no início da temporada como um dos favoritos ao título.

Algumas virtudes são evidentes: é a segunda melhor defesa no primeiro turno da era dos pontos corridos. Apenas 12 gols sofridos em 19 partidas. Tem um dos melhores goleiros da competição, senão o melhor. Bons volantes que, com a volta do Tcheco, repatriado, deram um brilho, um toque mais refinado ao meio de campo. Meio de campo que fez a torcida e a diretoria esquecerem o jogador Roger, que se transferiu para o Oriente Médio.

É verdade que o time do Grêmio é um dos mais faltosos do Campeonato. É um "panzer" (tanque de guerra alemão). Destrói seus inimigos. Marcação acima tudo e a qualquer preço, favorecida pela alta estatura do time. Gols? A maioria de contra-ataques e bolas alçadas na área.

Não há como negar, o Grêmio é um time organizado e solidário. Não tem estrelas. Tem bons jogadores determinados, cientes da sua função em campo. A campanha é a melhor da era dos pontos corridos: 71 % de aproveitamento. Doze vitórias, cinco empates e duas derrotas (fora de casa). O time do Grêmio é obra do odiado e estereotipado técnico Celso Roth. Está na hora de se reconhecer os méritos e a capacidade desse treinador.

Futebol Olímpico

by Redação em 4 de agosto de 2008 | 21:00

Esta semana começa a tão esperada Olimpíadas de Pequim. O Torneio Olímpico de Futebol inicia antes da abertura. Dia 06, o feminino, e dia 07, o masculino. Os jogos acontecem naquele horáriozinho gostoso, seis horas da manhã. Mas temos que torcer muito, precisamos dessas medalhas de ouro. O futebol penta campeão não pode continuar sem uma medalha de ouro Olímpico.

Já sabemos o que pode render o time das meninas. Vai disputar medalha. Tomara que seja a de ouro. O time de Marta já pega uma "pedreira" de cara: a Alemanha. Já teremos uma final na primeira partida.

‘Na verdade, Dunga tem uma chance muito grande nessas Olimpíadas. Conquistando a medalha de ouro vai calar os críticos

A seleção olímpica de futebol masculino é aquela incógnita. Não sabem nem com qual uniforme vão jogar (a briga entre Comitê Olímpico Brasileiro e Confederação Brasileira de Futebol, e entre os patrocinadores de cada entidade). O time no papel é sensacional, mas não sabemos como vai se comportar. Não houve preparação, apenas dois amistosos com seleções fracas. No último, contra Vietnã, ficou flagrante a falta de conjunto. O time melhorou muito no segundo tempo com Tiago Neves (Fluminense). Ele tem jogado muito melhor que Diego. Mas Dunga deve manter Diego, porque é da seleção principal e, ainda por cima, se indispôs com seu clube para jogar as Olimpíadas. Critério que Dunga leva em conta.

Na verdade, Dunga tem uma chance muito grande nessas Olimpíadas. Conquistando a medalha de ouro vai calar os críticos. Vai voltar às eliminatórias da Copa do Mundo com mais tranqüilidade e, talvez, com vários jogadores da seleção olímpica.

O Torneio de Futebol Olímpico terá uma primeira fase com grupos de quatro países, tanto no feminino quanto no masculino. O feminino com três grupos e masculino com quatro grupos.

Classificam-se os dois primeiros de cada grupo para as quartas de finais, que será jogada no sistema mata-mata. Terminando empatado, prorrogação de 30 minutos e pênaltis. Da mesma maneira nas semifinais e finais.

As competições de futebol serão realizadas de 6 a 23 de agosto em cinco cidades: Pequim, Shanghai, Tianjin, Shenyang e Qinhuangdao. As finais para homens e mulheres ocorrerão em Pequim, onde estão o Estádio dos Trabalhadores e o Estádio Nacional (Ninho do Pássaro). As instalações fora de Pequim são o Estádio de Shanghai, Estádio do Centro Olímpico de Tianjin, Estádio do Centro Olímpico de Shenyang e Estádio do Centro Olímpico de Qinhuangdao.

GRUPO MASCULINO

Costa do Marfim, Holanda, China, Coréia do Sul

Argentina, Nigéria, Nova Zelândia, Camarões

Austrália, Japão, Brasil, Honduras

Sérvia, Estados Unidos, Bélgica, Itália

GRUPO FEMININO

China , Coréia do Norte, Noruega

Suécia, Nigéria, Estados Unidos

Argentina, Alemanha, Japão

Canadá , Brasil , Nova Zelândia



perfil

Isabel Kieling é gaúcha, moradora apaixonada do Rio de Janeiro, e jornalista de formação. E, contrariando o senso comum, entende muito de futebol. Por isso, inaugura a nossa mesa redonda virtual para comentar os melhores lances dos esportes e dos atletas – claro. Mas ela também bate a sua bolinha – só que a de golfe! Isabel também é golfista, e atualmente luta para sair das últimas posições do ranking.