A medalha de ouro do vôlei feminino foi redentora. Já tinham acabado com o fantasma da semifinal e o título só veio confirmar a campanha espetacular dessa seleção: oito jogos, 25 sets e apenas um perdido. Set perdido na final, que sempre é mais desgastante e conta muito o emocional. Os jogos foram emocionantes e nos encheram de orgulho.
Essas meninas guerreiras, que não se abateram quando perderam o segundo set, voltaram para a quadra com garra, sem medo, e derrotaram as americanas com muita raça. Lavaram a alma de todas as brasileiras que se sentem diminuídas. Até no vôlei o time masculino era mais valorizado – claro que pelas vitórias e títulos.
Nas viagens, a CBV (Confederação Brasileira de Vôlei) dá passagem de primeira classe para o masculino, o feminino tem que enfrentar a classe econômica. A premiação pelo ouro para o masculino já estava determinada antes dos jogos, a do time feminino foi acertada depois da medalha.
O time feminino, desde o trauma de Atenas (o Brasil vencia a Rússia nas semifinais, no quarto set, por 24 a 19, com cinco chances de fechar a partida, perdeu e acabou sendo derrotado no quinto set.), carregava a fama de amarelão. "Amarelão sim, mas da medalha de ouro", como disse o técnico Zé Roberto ao final do jogo. Zé Roberto é o único técnico do mundo a ser Campeão Olímpico Masculino em 1992 e Campeão pela Seleção Feminina agora em 2008.
A GUERREIRA SOLITÁRIA
O atleta do esporte coletivo divide as vitórias e derrotas com seus companheiros. Mas o atleta de esporte individual perde e ganha sozinho, conta apenas com o técnico, que, no caso do atletismo, fica na arquibancada assistindo, sem poder atuar muito na hora da disputa.
Assim foi com Maureen Maggi em sua carreira e em sua volta por cima. Lembro de sentir muita pena dela quando ocorreu o caso de doping, que causou sua suspensão por dois anos. Os sentimentos eram de crença na sua inocência, mas os resultados dos exames comprovavam a culpa. Quase desistiu, mas voltou com uma garra impressionante para conquistar o ouro no salto em distância.
Nossa primeira medalha de ouro feminina em esporte individual, entre todas as modalidades. Nossa primeira medalha feminina individual no atletismo. Maureen fez história. Maureen mostrou ao mundo a garra, a força da mulher brasileira. Pequim-2008 foi as Olimpíadas das Mulheres, não somente para as brasileiras. Até para a China, tão discriminadora com suas mulheres, onde há relatos de sacrifício dos bebês de sexo feminino, em razão da lei do filho único, a maioria das medalhas de ouro, que deram a vitória sobre os Estados Unidos, foi conquistadas pelas mulheres chinesas.
É muito engraçado como as pessoas manipulam os números ao seu favor. Um exemplo bom disso são setores da imprensa americana que dão vitória aos Estados Unidos na conquista de medalhas em Pequim-2008. Em todas as Olimpíadas anteriores, a classificação no quadro de medalhas era aferida pelo número de medalhas de ouro. Como os Estados Unidos perderam feio para China na contagem da medalha de ouro, a imprensa americana resolveu contar pelo número total de medalhas. Assim também vejo pelos jornais de hoje que o Presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, Carlos Nuzman, usou essa estranha contagem americana para afirmar que o Brasil teve uma participação magnífica em Pequim, melhor que Atenas, quando tivemos cinco medalhas de ouro. Preferiu argumentar suas afirmações na maior participação das mulheres e na primeira medalha de ouro individual feminina, a da Maureen Maggi.
Outros números também foram divulgados: o Governo Federal repassou para o COB e Confederações, nesses quatro anos de preparação para Pequim, cerca de R$ 690 milhões. Dinheiro vindo do patrocínio de empresas estatais e da Lei Piva. A verba da Lei Piva é repassada diretamente para o COB, que retém 50% e repassa o restante para as Confederações e Federações. O COB gasta na sua administração dez vezes mais o que aplica na preparação técnica.
Comparada a verba americana para preparação olímpica a nossa é pequena, mas para o Brasil é muito dinheiro. Já falam em CPI das contas de Pequim. O dinheiro do esporte está se perdendo pelo caminho. Aliás, para quem quiser ver para aonde vai o dinheiro é só passar pelas fotos dos jornais dos últimos quinze dias. Tanto político, tanto cartola nas platéias de Pequim… Dizem que a quantidade de "gente nada a ver" com Olimpíadas, em Pequim, viajando a custa do dinheiro do esporte, era maior que a delegação de atletas brasileiros.
EXPLICADINHO
LEI PIVA
Lei sancionada pelo Presidente Fernando Henrique Cardoso, em 2001, que destina 2% da arrecadação bruta de todas as loterias do Brasil para desenvolvimento do esporte no país. Recebeu o nome de seu autor, o ex-deputado federal Pedro Piva, do PSDB-SP. A verba é repassada ao COB para distribuição entre as confederações de todas as modalidades esportivas. Não se tem conhecimento dos critérios usados pelo COB na divisão entre as modalidades esportivas.
O Taekwondo fez uma medalha de bronze com a Natália Falavigna e recebe menos de 1%. Outras Confederações que nem se classificaram para Pequim recebem muito mais. É o caso da Confederação de Basquete, a três Olimpíadas que o basquete masculino não se classifica e o feminino teve uma partição muito ruim em Pequim.
