Fui recebida, para fazer essa entrevista, por uma moça bonita com um grande sorriso, do alto de seus 1,81cm. Simpática é pouco para se falar de Talita. Inteligente, meiga, ciente da sua responsabilidade e muito determinada, junto com sua parceira Renata Ribeiro, a fazer de tudo para ganhar uma medalha pro Brasil no vôlei de praia feminino.
Veja algumas fotos feitas na casa de Talita Antunes
No meio da sala da jogadora, a mala do COB, lotada de uniformes que deverão ser usados nas quadras de areia de Pequim e na Vila Olímpica. Talita é de Aquidauana, Mato Grosso do Sul e tem 25 anos. Conquistou o título de Rainha da Praia na décima edição de um badalado torneio realizado no início do ano na praia de Ipanema, Rio de Janeiro. Ao final do torneio, Talita e Renata jogaram e ganharam da dupla americana Misty May-Treanor e Nicole Branagh o Desafio das Rainhas.
Como você começou a jogar vôlei? Foi direto na praia?
Comecei jogar na quadra com 14 anos. Sou do Mato Grosso do Sul. Até me perguntam como posso jogar vôlei de praia se sou de um estado sem praias. Fui convidada para jogar vôlei de quadra em Maceió, em 1999. Era para jogar um torneio só por Alagoas. Fiquei três anos. Jogava vôlei na praia de brincadeira nos finais de semana e jogava torneio nas quadras. No final de 2000, comecei a jogar na praia e me revezava entre quadra e praia. Em 2001 parei com as quadras e fiquei direto na praia. Tive muita ajuda da Federação de Alagoas. Em 2002, vim para o Rio de Janeiro a convite da Jaqueline Silva, para formar dupla com ela. Ela se machucou e acabei fazendo dupla com a Renata.
Porque escolheu a praia?
Resolvi ir para a praia porque gostei mais de jogar em dupla, de um grupo pequeno. Teve uma época que fui para a seleção infanto de quadra. Você fica três meses em concentração treinando. Achava as concentrações de quadra muito sacrificantes. Lidar com doze, quinze meninas é difícil. Grupo é muito desgastante. Nas quadras, teria que ir pra São Paulo, onde estão os maiores time da liga do vôlei de quadra. Eu tinha medo da cidade grande e achava que não ia me adaptar nunca. Não que o vôlei de praia não seja desgastante. Tem muito mais torneios na praia, mas me adaptei melhor.
Como foi seu encontro com a Renata?
Foi no circuito. Todo mundo se conhece. As duplas são formadas assim, no circuito mesmo. Vai pela afinidade, amizade. E a parte técnica é super importante também. O que conta é ser profissional. Na nossa dupla, eu sou mais bloqueio e ataque, a Renata defesa.
Você é solteira? E a Renata?
Solteira sim, sozinha não. A Renata é casada.
Como é ter que conviver o tempo todo com uma mesma pessoa?
É como se fosse um casamento. Acabo passando com ela mais tempo do que o marido dela, por causa das viagens. Você tem que ter respeito e abrir mão de algumas coisas. Eu sou completamente diferente da Renata. Mas convivemos bem. Críticas, cobranças fazem parte da nossa dupla. A gente briga no esporte, mas é normal, faz parte do "jogar". Nós nos respeitamos e as críticas são para melhorar o desempenho.
Vocês têm treinador? Como é o treinamento?
Temos treinador, preparador físico, fisioterapeuta. Há pessoas que ajudam no treino. Treinamos em Ipanema, onde é o centro de treinamento do nosso técnico, Abel Martins. No início de temporada a gente treina pela manhã e à tarde. Agora para as Olimpíadas a gente está treinando pesado. Fisioterapia, academia, treino e descanso. Oito horas por dia.
Vocês têm uma alimentação especial?
Nós temos nutricionista. Na pré-temporada é a pior época do ano. Temos que radicalizar. Vivemos numa dieta contínua. Agora, por exemplo, para as Olimpíadas, temos que dormir para não sentir fome.
Dá para viver do vôlei?
Patrocínio não é fácil. No Brasil, agora é que o vôlei está aparecendo mais. As medalhas, por causa do masculino, da maior divulgação do esporte, as três primeiras no ranking nacional são as que conseguem patrocínio. É muito difícil, para as duplas novas, iniciar. Elas têm que custear suas despesas de 12 etapas pelo Brasil todo, sem contar os torneios classificatórios para o Circuito Mundial.
A Confederação ajuda vocês?
A gente teve ajuda, sim, no circuito mundial. Mas no vôlei de praia são mais os patrocinadores. A nossa confederação ajuda muito organizando os torneios. Ela é muito organizada. Nós temos o melhor circuito de praia do mundo. Dezesseis torneios por ano.
Vocês esperavam essa classificação para as Olimpíadas?
O Brasil tinha muito bons times. Só que Adriana e Shelda foram decaindo, numa decrescente, oque é natural com a passagem do tempo. Em 2005 elas ainda estavam no topo, quando iniciamos a dupla. A gente esperava ir às Olimpíadas em 2012. Aconteceu tudo muito rápido. Em 2006, a gente já foi bem. Em 2007 continuamos bem. E os resultados foram acontecendo. A Shelda e Adriana ainda estavam tentando. Quando a Adriana resolveu parar, Shelda formou uma nova dupla com Ana Paula para continuar tentando a classificação. Nós estávamos com bons resultados, mas precisávamos esperar a pontuação até sermos matematicamente classificadas. Aí, em Moscou, conseguimos a classificação. Nem jogamos a última etapa.
Vocês estão sentindo uma pressão maior por medalha, já que a Juliana, da dupla número um, se machucou e está lutando para jogar bem em Pequim?
É, todo mundo pergunta isso. É difícil não rolar pressão. O Brasil é um país de difícil classificação, de muita tradição no vôlei de praia. Mas o torneio olímpico, segundo todos os atletas que foram, é um torneio como outro qualquer. Até mais fácil, porque no início você pode pegar duplas de países que não têm tanta tradição. Não têm todas as melhores duplas de cada país. São só duas de cada, 24 duplas. Quando você joga um torneio do circuito mundial, são 32 duplas. As quatro melhores de cada país estão lá.
A energia é que é diferente numa Olimpíada. O mundo inteiro está olhando o evento. No nosso esporte – em todos, acho, excetuando o futebol – as Olimpíadas são o ápice. A gente sabe de tudo isso. Se você tem seus sonhos e objetivos dentro do seu esporte, chegar às olimpíadas é a meta máxima. Estamos tranqüilas e faremos o melhor que pudermos.
O que uma medalha Olímpica vai representar para você?
Primeiramente, será o reconhecimento do meu trabalho. E a concretização de um sonho. Quando você tem uma carreira no esporte você sonha com o máximo: ir a uma Olimpíada e ganhar uma medalha lá. Nossa primeira meta já foi atingida. Vamos lutar pela medalha.
Você já se imaginou decidindo a medalha de ouro?
O primeiro jogo vai ser o mais difícil. Já me imaginei fazendo todos os jogos, do primeiro ao último. Essa Olimpíada será a mais disputada no vôlei de praia feminino. São nove times que têm condições de chegar. Nas Olimpíadas anteriores havia quatro duplas que poderiam chegar. No ano passado, oito duplas diferentes ganharam os torneiros da liga mundial. Todo mundo está tecnicamente muito bem. Todo o circuito acredita que as seis cabeças de chave podem chegar (as duas duplas brasileiras são cabeças de chave). Tecnicamente e fisicamente, todo mundo está preparado. O que vai fazer diferença é o psicológico.
Vocês acham que a poluição de Pequim pode atrapalhar?
Fizemos testes em Saquarema para ver a reação à poluição. A gente acredita que não fará grande diferença. Não tive reação nenhuma no teste. Eu até estava com medo, porque sou alérgica. A gente se adapta muito fácil, porque na nossa competição, na Liga Mundial, tem a etapa de Xangai.
E as viagens? Dá para curtir, conhecer alguma coisa?
O torneio da Liga Mundial começa quarta-feira e a gente chega na segunda, pois no vôlei de praia não dá tempo pra gente chegar com antecedência. É uma etapa atrás da outra. Se você joga até o final de cada torneio, fica difícil de curtir o local onde se está. É a diferença das Olimpíadas. Num torneio do circuito, a gente joga sete jogos em três dias. Nas Olimpíadas, a gente vai jogar os sete jogos em quinze dias. Vai ser mais tranqüilo. Talvez dê para conhecer mais um pouco de Pequim.
Você estuda?
Comecei a faculdade de Educação Física em Maceió. Estou continuando aqui no Rio. Vou fazendo aos poucos. Faço um período, algumas matérias. Eu tenho várias turmas. Os colegas de faculdade já sabem.
O que você faz nas horas de lazer?
Gosto de ir ao cinema, sair para jantar, receber os amigos. Para outro esporte, como lazer, não levo jeito nenhum. Tem pessoas que são talentosas e jogam de tudo. Eu não.
Você não é daquelas que, nas suas horas de lazer, joga vôlei?
Eu até brinco: "Me chamem para tudo, menos para jogar uma pelada de vôlei"! Vôlei pra mim só profissionalmente.
Você sente falta da família?
Sinto falta, sim. São dez anos fora de casa, sozinha. Hoje eu convivo melhor com isso. No começo, eu sentia muita falta da minha mãe me cuidando. Sempre que posso, se tenho uma folga, vou para a casa dos meus pais em Mato Grosso do Sul. Ou então, se vou ficar direto no Rio, minha mãe vem. E tenho uma irmã de 14 anos que sempre vem nas férias.
Por serem super saradas, bonitas e bronzeadas, as jogadoras de vôlei de praia são quase símbolos sexuais. Vocês são muito assediadas?
É… Bem, ouvimos muitas coisas. Mas dentro do circuito não. Nossos colegas homens estão acostumados com a gente e nos tratam como profissionais.
Você já recebeu algum convite para fazer ensaios sensuais ou posar nua?
Não, ainda não. Não tenho nada contra, mas prefiro pensar que vou ganhar dinheiro jogando vôlei.
Você acha que hoje as meninas já pensam no vôlei como uma profissão? Já há aquele pensamento "quando crescer vou ser jogadora de vôlei de praia"? Com você foi assim?
Eu acredito que sim. Desde criança gostei de esportes. Tem um tio que é técnico de vôlei. Comecei a jogar vôlei por influência dele. Quando criança, era muito competitiva e não gostava de perder. Eu era exigente comigo mesma. Sempre procurava melhorar, treinar. Sempre trabalhei para ser a melhor do time em que estava. Mas não achava que ia ser minha profissão. As coisas foram acontecendo e comecei a ver que dava para viver do vôlei.
Quais os planos para o futuro, depois das Olimpíadas?
Continuar jogando em alto nível e parar quando sentir que não dá para o acompanhar esse nível. Até quando eu possa competir bem. Eu quero parar feliz.